Rafael Miranda fala sobre perigo de rebaixamento e defende Cristóvão: 'Paizão'
Fotos: Max Haack / Ag. Haack / Bahia Notícias
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Fotos: Max Haack / Ag. Haack / Bahia Notícias
O volante Rafael Miranda tem se destacado no Bahia. O jogador chegou ao tricolor em junho prometendo 'muita marcação e entrega' e vem cumprindo os requisitos. Apesar da briga contra o rebaixamento, o atleta não deixa de alertar os companheiros quando acha necessário. Rafael, que admitiu na última terça-feira (12) secar os adversários para fugir do Z4, entra em campo na partida desta quinta-feira (14), às 18h30 contra o Santos, no Pacaembu, em busca de mais uma vitória importante para tirar o clube do sufoco. O atleta conversou com o Bahia Notícias sobre o atual momento do Tricolor, garantiu empenho para fugir do Z-4 e defendeu o trabalho feito pelo técnico Cristóvão Borges. Além disso, relembrou as expectativas na chegada ao clube e os planejamentos para a carreira no futuro.
Bahia Notícias: A fama do Bahia, em questões financeiras e de estrutura, nunca foi das melhores. Então, por que trocar o futebol europeu pelo tricolor?
Rafael Miranda: Em primeiro lugar, o futebol europeu está vivendo um momento muito conturbado financeiramente. Talvez aqui no Brasil as pessoas acompanhem apenas Barcelona, Real Madrid, PSG, Manchester, entre outros, mas a maioria dos clubes da Europa está passando por dificuldades financeiras. Em Portugal não é diferente, e o problema econômico ainda é em todo o país. Os clubes não estão conseguindo manter os salários e segurar os atletas. Sobre meu retorno, eu acreditei no projeto do Bahia, apresentado pelo Anderson Barros [diretor de futebol], e enxerguei que a equipe teria potencial para brigar na parte de cima da tabela. Até começamos bem, conforme eu planejei, mas infelizmente tivemos um segundo turno ruim.
BN: E a fama da torcida, semelhante à do Atlético Mineiro, influenciou na sua decisão de defender o Bahia?
RM: Com certeza. Eu estava muito adaptado ao futebol português, a torcida e a imprensa me respeitavam bastante, mas lá a torcida não é tão calorosa quanto no Brasil. A torcida do Marítimo não era muito grande também, então o estádio com capacidade para 10 mil torcedores nunca ficava cheio. A torcida do Bahia é conhecida no país inteiro pelo seu fanatismo e pelo seu tamanho. Aqui em Salvador é impressionante como a gente vê as pessoas usando a camisa do Bahia. Voltar a ter o apoio de uma torcida imensa, jogando em um estádio lotado de torcedores a nosso favor, foi mais um ponto importante para meu retorno ao Brasil.
BN: Para quem ficou tanto tempo fora, como foi adaptação em Salvador? A família está com você na cidade?
RM: Sim, a adaptação foi bem tranquila. Moro com minha esposa e estamos felizes aqui. Apenas o calor é algo que incomoda a gente um pouco. Em algumas partidas no inverno europeu a gente pegava até neve. Mas, fora isso, estou gostando de tudo: da cidade, do clube e do povo baiano, que me acolheu muito bem.
BN: O Bahia viveu uma crise política. Você, como jogador e fã, acompanhou tudo isso? Ficou surpreso com os fatos envolvendo o antigo presidente?
RM: A gente acompanha o que está acontecendo sim, através de vocês, da imprensa. Mas é um assunto complexo, não tenho total conhecimento disso, por isso fica até difícil comentar.

BN: O que dizer para tranquilizar a torcida? Tem como garantir que o Bahia não passará por isso de novo?
RM: O que a gente pode garantir é que vamos nos doar ao máximo nesta reta final de Brasileirão. Também não estava nos nossos planos ficar lutando contra o rebaixamento nas rodadas finais, até porque chegamos a ocupar a vice-liderança do campeonato no início. Mas futebol tem disso, as coisas nem sempre saem como planejadas. Vamos nos dedicar ao máximo para evitar este risco de rebaixamento e depois já pensar no planejamento para 2014, quem sabe com a chegada de reforços pontuais.
BN: Alguns jogadores no elenco do Bahia apresentam falhas no que consideramos fundamentos básicos, como passe e cruzamento. Para você, é falta de tempo para ajustar ou isso é uma coisa que vem da base?
RM: As duas coisas. O melhor momento para treinar fundamentos é na base. O ideal é você apenas aprimorar no profissional, até porque o ritmo é outro. Na base você ainda está aprendendo; no profissional você já está pronto. Sobre a falta de tempo, isso é notório, pela grande sequência de jogos do futebol brasileiro. Nos últimos meses a gente jogava duas vezes por semana, ou seja, não dava tempo pra realizar um treino diferenciado.
BN: Por falar na base, como você vê a figura de Feijão dentro do elenco? Já aconselhou ele em algum momento, tanto dentro como fora de campo?
RM: Sim. O Feijão é um jogador que tem um belo futuro pela frente. Ele já mostrou que tem potencial para ajudar o Bahia. Como é de todo jogador, ele ainda vai se aperfeiçoar em alguns fundamentos com o passar do tempo, quando for adquirindo experiência. Todo jogador é assim e comigo não foi diferente. Procuro conversar com ele, ainda mais por jogarmos na mesma posição, e quase minha carreira inteira eu joguei na mesma função que ele, de primeiro volante. Acredito que ele ainda vai dar muitas alegrias à torcida.
BN: O seu posicionamento em campo, pelo menos na maioria, foi como um segundo volante, sempre pelo lado direito. É seu posicionamento favorito ou poderia atuar como 1º volante, disputando posição com Fahel e Feijão?
RM: Eu joguei praticamente minha carreira inteira de primeiro volante, desde a base do Atlético-MG. Em Portugal, o treinador preferiu me deslocar um pouco mais à frente, por causa do meu passe. Aqui no Bahia, praticamente só joguei como 2º volante. Acredito que esteja fazendo bem a função de marcar e ainda apoiar o ataque, até porque fisicamente estou me sentindo muito bem, mesmo não tendo muito experiência nesta posição. Mas eu não escolho onde jogar, o Cristóvão é quem decide. Estou pronto para ajudar em qualquer posição.
BN: Como você avalia o trabalho de Cristóvão Borges?
RM: O Cristóvão é um grande treinador, além de ser uma pessoa totalmente do bem. Ele tem aquela característica de “paizão” da equipe, que opta sempre por conversar com os jogadores. Eu acho isso muito bacana. Além disso, ele conhece muito taticamente e estuda os adversários. No futebol, o treinador é avaliado apenas a curto prazo, com resultados. Sob o seu comando, nosso time começou bem o Brasileirão, mas depois caiu de produção. Mas eu avalio o trabalho dele como benéfico para o Bahia e a médio e longo prazo pode ser ainda melhor.

BN: Fernandão foi negociado para o Bursaspor, da Turquia. E, no seu caso, que deixou boa impressão lá fora, já foi sondado ou até mesmo recebeu propostas para deixar o Bahia?
RM: Propostas, que eu saiba, não. Sondagem sempre existe, mas chega apenas para meus agentes. Prefiro ficar de fora destas questões, ainda mais neste momento em que nossa equipe precisa focar somente no Brasileirão.
BN: Você, como atleticano, acredita que o Galo tem chances de vencer o Mundial de Clubes?
RM: Vivi grande parte da minha vida profissional no Atlético-MG. Mas sou profissional, tenho muita admiração pelo clube e pela torcida, mas hoje meu time é o Bahia. Sobre o Mundial de Clubes, o Bayern é o grande favorito, sem dúvidas. Mas eu acho que o Atlético pode conquistar o título sim, pois tudo acontecer em 90 minutos e a equipe é muito qualificada. São muitos jogadores que podem decidir, como o Ronaldinho, ou o Tardelli, ou o Fernandinho, ou o Jô, ou um jogador que vem da defesa, como o Réver ou o Marcos Rocha. Será difícil, mas existe chance sim.
BN: Você já mostrou que é diferenciado na hora das entrevistas coletivas. Você, fora do campo, gosta de ler? Tem algum tema favorito?
RM: Essa facilidade de falar eu acho que vem da minha criação. Meus pais sempre preocuparam com minha educação, até mesmo quando eu já estava jogando na base do Atlético-MG, pois o futebol é muito incerto e não sabíamos se eu ia me tornar profissional. Estudei em um colégio muito bom, dentro da UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais], e cheguei a começar o curso superior em Educação Física, mas tive que parar por causa dos compromissos com o futebol. Gosto de ler e ver filmes.
BN: Uma vez, no Fazendão, você brincou e convenceu Wallyson a conceder entrevista. Você acha que falta a muitos jogadores o pensamento além das quatro linhas? Por exemplo, saber usar positivamente a imagem?
RM: Eu acredito que sim. A imagem do atleta é muito importante para seu crescimento profissional. Gosto de manter um relacionamento bom com a torcida e com a imprensa. Embora não concorde com algumas críticas, sei que vocês estão trabalhando e têm liberdade de opinião. Tenho site oficial e assessoria de imprensa particular, para me ajudar quando necessário. Não quer dizer que isso vai fazer o jogador ter sucesso, mas pode ajudar. Sobre o caso do Wallyson, foi uma brincadeira, mas disse a ele que é importante ele atender vocês, da imprensa, até mesmo para explicar alguma coisa, como um posicionamento dentro de campo, que pode estar sendo mal interpretado pela torcida.
BN: Como jogador, você concorda com os argumentos e pontos apresentados pelo grupo Bom Senso F.C?
RM: Não tenho conhecimento de tudo o que eles estão reivindicando, mas eu acho muito válida a ideia. Toda classe precisa se unir para buscar seus direitos. Concordo com um dos principais pontos, que é discutir novamente o calendário do futebol brasileiro, pois o número de jogos na temporada é assustador e prejudica o atleta de alto rendimento.
