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Entrevista

'Me assusta a falta de estrutura dos nossos clubes', diz Otacílio, ex-volante do Ba-Vi

Por Felipe Santana

'Me assusta a falta de estrutura dos nossos clubes', diz Otacílio, ex-volante do Ba-Vi

 
O Bahia Notícias, desta vez, resolveu voltar no tempo. E o entrevistado da Coluna Esportes da vez é o volante Otacílio, de 40 anos. Carioca, mas apaixonado pela Bahia, o ex-jogador da dupla Ba-Vi, relembra os bons tempos dentro das quatro linhas, títulos conquistados, os grandes treinadores e a atual função de empresário.

Bahia Notícias: O que aconteceu no rebaixamento do Bahia em 2003?
Otacílio: Planejamento, cara. Era um time muito bom, com jogadores qualificados, mas foram muitas mudanças de treinadores. Foram sete técnicos em um ano só, e assim fica muito difícil ter um conjunto dentro de campo. Era, que era um dos líderes, posso dizer que foi uma coisa muita técnica. Não vi problemas dentro do grupo. Quando estávamos pegando uma forma de jogar, com Lula Pereira, chegou o Edinho Nazareth. Foram muitas alterações.

BN: O Vitória, em 1999, era muito bom tecnicamente ou o conjunto prevaleceu?
Otacílio: Era um grupo muito forte, que se tornou um conjunto especial. O Vitória, naquela época, tinha uma equipe desde o estadual. Com a chegada de Toninho Cerezo, um cara do bom, chegaram reforços e deu no que deu. Teve uma partida contra o Botafogo, depois de um problema de Toninho com um dos jogadores, que jogamos para ele ficar e depois o time engrenou. Poderíamos, com certeza, ter tido uma sorte maior naquele campeonato.
 

BN: Você pensa em ser treinador?
Otacílio: Não é a primeira vez que ouço essa pergunta (risos). Hoje, cara, o que me assusta é a falta de estrutura dos nossos clubes. Não dar sequência, estabilidade ao técnico é uma coisa que me deixa assustado. Eu, que joguei em Portugal, sei que os treinadores precisam de sequência, manutenção, ter espaço para trabalhar. Eu acredito ter perfil para treinar, mas, hoje, esse lado do futebol me deixa assustado.
 
BN: Bahia, Corinthians e Grêmio. A torcida de ambos são diferenciadas das demais?
Otacílio: Cara, era gostoso demais. Até hoje eu sonho em atuar de novo, ouvir os torcedores no estádio. Sinto muita falta. Joguei clássicos na Bahia, em São Paulo, Porto Alegre, Campinas, e sei o quanto o torcedor é importante. Não foi à toa que sempre por onde passei era conhecido pela vontade, raça e dedicação. A energia passada por esses caras (torcida) é fantástica.

BN: Agora, fora das quatro linhas, como você se tornou empresário?
Otacílio: Eu recebi um convite de Assis, irmão de Ronaldinho Gaúcho, e passei um tempo no Porto Alegre, que é um projeto dele. Depois, ao voltar para Salvador, passei um tempo ajudando, e muito, o Renato Gaúcho no Bahia. Começamos a observar o mercado, ajudei a trazer o Rodrigo Grahl e entrei de vez nisso. Surgiram outras coisas, indicações e ajudando, tanto Bahia como Vitória na base, estou nesse caminho.

BN: Você seria capaz de destacar um treinador que marcou sua carreira?
Otacílio: Eu, graças a Deus, tive o grande prazer de passar pelas mãos de inúmeros excelentes treinadores. Eu, em 95, trabalhei com Telê Santana e logo depois fui comandado por Joel Santana. Trabalhei com Celso Roth, Toninho Cerezo, Parreira e, com certeza, posso dizer que Vanderlei Luxemburgo foi o mais completo. O método de trabalho dele era diferente, além dele conseguir se impor de forma positiva em todos os sentidos.

BN: O que você acha da Seleção Brasileira e, em especial, o atacante Neymar?
Otacílio: Neymar? Um fenômeno. É bonito de ver o cara jogando. Muitas falam dele, mas Neymar serve de exemplo pelo talento, disposição de jogar. Gosta do que faz, demonstra prazer e, para mim, já poderia ser indicado ao melhor do mundo. Quanto ao Brasil, eu acredito que fizemos testes demais. Conquistar o hexa será bem complicado, mas, com o Felipão, será uma outra forma de trabalhar. Já passou da hora de estarmos com uma seleção bem formada, com menos testes no time. A mudança foi no momento correto.

BN: Você, agora aposentado, tem ou teve grandes amigos no futebol?
Otacílio: Amigos? Graças a Deus. Neste mundo eu consegui fazer grandes companheiros como o Preto Casagrande, Rodrigo Chagas e o André Silva. São vários e posso até esquecer se ficar citando nomes. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, eu vi crescer. Ele andava comigo e, até hoje, me agradece por todos os conselhos. Eu fico muito feliz com tudo isso. Foram momentos muito bons, com pessoas muito legais.

BN: Qual jogador você, por atuar no mesmo time, destacaria como ‘o cara’?
Otacílio: Ronaldinho Gaúcho (risos). Eu, uma vez, me peguei falando exatamente isso. ‘Graças a Deus eu não tenho que marcar ele’. Na passagem dele pelo Grêmio, quanto eu joguei por lá, só dava para parar aquele garoto no tiro. E, em 2002, foi a dupla formada por Ricardinho e Marcelinho. Esses caras eram demais. Marquei jogadores como Raí, Djalminha, e sinto falta de ver jogadores como esses no futebol atual. Hoje, infelizmente, é muita marcação e tática.