Ramon Menezes
Por Éder Ferrari
C.E - Você é uma referência para os mais jovens no Vitória, mas já esteve na mesma situação que esses garotos. Quem foram os principais jogadores com quem você jogou?
Ramon - Eu tive a felicidade de jogar com grandes jogadores, de nome, tanto aqui no Brasil como na Europa. No Bayer Leverkusen, da Alemanha, tive a oportunidade de atuar com o Schüster, atual treinador do Real Madrid, Ruud Völler, que jogou várias Copas do Mundo e era o técnico da Alemanha em 2002. Você aprende muito com esse tipo de atletas. Se for citar os jogadores brasileiros de referência, ficaremos aqui até amanhã. Mas não tem como não citar o Edmundo, o Romário, Juninho Pernambucano, Mauro Galvão, Evair. Enfim, são muitos. O que me deixa muito feliz é que jogadores desse nível sempre me respeitaram e me trataram como igual na parte técnica.
C.E - Você já atuou em muitos clubes. Qual o mais importante em sua carreira e o time mais forte?
Ramon - O Clube foi o Vasco. O time montado em 1997 foi muito bom mesmo, maravilhoso. Conquistamos praticamente tudo, além de criarmos um senso de responsabilidade e profissionalismo muito grande. Muitos daqueles jogadores estão aí até hoje sendo decisivos em seus times como o Felipe, Edmundo, Juninho. Fiquei marcado na história do clube. Passei cinco anos no Vasco e com certeza é o time mais importante da minha carreira. Claro que outros clubes foram importantíssimos em minha trajetória profissional, especialmente o Vitória, que me deu o gostinho de ser ídolo muito jovem, de assumir uma responsabilidade muito grande que até então não tinha assumido, além de abrir as portas para que eu pudesse jogar na Europa.
C.E - O que mudou de sua primeira passagem pelo Vitória entre 1994 e 95 pra agora?
Ramon - Tudo mudou. O próprio futebol mudou muito. Se você pegar o Vitória daquela época, vai ver que era um time que jogava pra cima dos adversários sem medo, sempre buscando os gols. Nosso futebol hoje virou um futebol de resultado, que não é o verdadeiro futebol brasileiro. Os próprios jogos você tinha prazer de jogar e de assistir.
C.E - Vejo que você sente muita falta daquela época.
Ramon - Eu fiz parte de um grande time aqui, embora eu tenha ficado apenas um ano e meio no clube. Naquela oportunidade, fiquei quase um Brasileiro sem jogar em 1994, porque tive um problema na clavícula. Mesmo assim, quando voltei, fui o artilheiro da equipe na competição, mesmo com o time não indo tão bem. Em 1995, sim, foi um ano maravilhoso pra mim, onde eu fiz seis meses muito intensos, com gols, passes e de um título importantíssimo que eu considero, que é o Campeonato Baiano. Aqui ou em qualquer lugar é muito importante você conquistar os torneios regionais, já que são neles que você se prepara, forma o time pro restante do ano, além de toda rivalidade. Já ganhei alguns e sei como é saboroso.
C.E - No início do ano, quando você voltou ao Vitória, as pessoas questionaram muito sua chegada devido à idade e diziam que seu futebol estava em decadência. Concorda com isso?
Ramon - Eu sempre acreditei em mim desde que comecei a jogar futebol, sempre assumi a responsabilidade. Em 2006 eu estive no Vasco, fiz um grande Campeonato Brasileiro. Se não tivesse jogado bem, não teria ido jogar no Catar em 2007. Ainda ano passado, voltei para o Brasil para disputar o final do Brasileiro pelo Atlético-PR, mas infelizmente eu sofri uma lesão, quebrei uma costela, e fiquei um mês afastado. Meu contrato era de quatro meses, então complicou muito. Outra coisa que me atrapalhou é que, quando voltei, tinha mudado o treinador. O Antônio Lopes, que me conhece muito bem desde os tempos iniciais no Vasco em 1996, saiu para a entrada do Ney Franco, que tinha as preferências dele. Mas mesmo assim eu dei minha contribuição batendo a falta que resultou no gol do Antônio Carlos, que classificou o time para a Copa Sul-Americana.
C.E - Como lidou com esta desconfiança?
Ramon - Sem dúvida nenhuma, quando eu cheguei aqui no Vitória, teve aquela desconfiança. Apesar de entender a reação, já que tem mais ou menos 13 anos que deixei o clube, não concordo porque sempre demonstrei profissionalismo, sempre me cuidei, sempre fui um cara muito dedicado. Mas no futebol isso não significa muita coisa. Você tem que provar isso dentro de campo, com muito trabalho, muita força, muita dedicação, e eu pude provar como se deve. Graças a Deus eu joguei bem fui campeão de novo, e só tenho a agradecer às pessoas que me apoiaram e sempre confiaram em mim, como o presidente Alexi Portela, o Jorginho (Sampaio), o Mario Silva, que é uma pessoa que deu muita força para que eu fosse contratado. Embora eu tivesse vindo pra cá sem ser um pedido do treinador.
C.E - Capitão do time, considerado melhor jogador do Baiano, acabou na reserva mesmo jogando bem. Achou justa a perda da titularidade?
Ramon - Cara, a minha opinião é que não foi justo. Mas sou profissional e sou pago para trabalhar em grupo. Porém, o que aconteceu é até difícil de comentar porque se você for analisar, não houve critério. Um jogo apenas que eu não joguei, fiquei de fora por contusão, e aí perdi a posição. Mas, enfim, estou aqui para jogar, trabalhando muito no sentido de voltar e isso vai acontecer. Fico muito feliz pelo reconhecimento dos torcedores da imprensa. Será uma coisa normal e natural eu voltar. Agora, o que incomoda e que é difícil de explicar isso é. Se eu for falar aqui, vou acabar falando muita coisa e acho que não é o momento ideal para isso. Portanto, prefiro continuar na minha, trabalhando, porque com certeza eu vou voltar.
C.E - O Vitória tem atualmente 10 meias (Ramon Menezes, Leandro Domingues, Jackson, Ricardinho, Williams, Bida, Marco Antônio, Héverton, Rafael e Danilo Rios) de boa qualidade. Não teme que alguns desses jogadores acabem se rebelando por não terem oportunidade de jogar?
Ramon - Eu acho que são jogadores de qualidade com condições de jogar. Um time que almeja algo importante tem que ter um elenco forte, principalmente em um campeonato longo como o Brasileiro. Mas nem todo mundo vai poder jogar e cabe ao treinador escolher. Eu respeito todos, mas sei da minha capacidade. Mais do que isso não dá para falar, porque todo mundo quer jogar e qualquer coisa um pouco fora do contexto que você fala pode virar contra você.
C.E - O prazo para transferência entre times da Série A são seis jogos. Você já jogou cinco. Não teme que as portas se fechem e você fique preso ao Vitória na reserva?
Ramon - Cara, eu penso em jogar. Isso de seis jogos nem está passando pela minha cabeça. Eu tenho contrato até dezembro e penso em jogar. A princípio minha atenção está toda voltada para o Vitória e não penso em sair. Só se chegar alguma coisa extraordinária para gente poder analisar. Não recebi proposta nenhuma, por enquanto.
C.E - Qual o papel do Vitória no Brasileiro? Acha que briga na parte de cima ou de baixo da tabela?
Ramon - Acredito que corrigindo algumas coisas, entrosando mais o time, temos tudo pra ir muito bem na competição. Mas o time está longe do ideal, e mesmo assim estamos conseguindo alguns resultados importantes. O título é complicado. Porém, a Libertadores é possível, basta que as coisas sejam feitas com critério.
