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Entrevistas

Entrevista

Emerson Ferretti

Por Cláudia Callado

Emerson Ferretti

Nesta semana, o Bahia Notícias entrevistou o ex-goleiro Emerson Ferretti. Figura bastante conhecida no futebol baiano, o ex-jogador foi ídolo do Bahia durante seis temporadas e se aposentou vestindo a camisa do Vitória, em 2007. Nesta entrevista, Emerson fala sobre os tempos de atleta, as passagens pela dupla BAVI, o trabalho atual como comentarista esportivo e as expectativas para a Copa do Mundo de 2014.

Bahia Notícias -Nas suas seis temporadas no Bahia, você se tornou ídolo do clube e o goleiro que mais vezes vestiu a camisa do tricolor, durante um período de instabilidade, onde o time acabou rebaixado novamente para a Série B. Qual era o maior inconveniente de ter o status de ídolo nesse período? Era difícil lidar com a pressão de uma torcida tão grande como a do Bahia?

Emerson Ferretti –Foram seis anos no Bahia, os três primeiros muito bons, tanto meu quanto do clube, e isso foi o que cativou a torcida. Fez com que a torcida criasse um carinho, gostar de mim, tanto do profissional quanto a pessoa. Quando teve a queda do time, o rebaixamento, e uma queda também do meu rendimento, o fato de ter sido um ídolo na época, de ter serviços prestados ao clube, facilitou. E as pessoas sabiam da minha qualidade, já percebiam que eu jogava por amor a camisa, eu não estava ali para roubar o clube.  Eu tinha encarnado o espírito do clube, então acredito que isso me favoreceu bastante nos momentos de crise. Por isso,nesse ponto, eu acho que inconveniente não teve, o que poderia ter acontecido quando o time caiu de produção e eu cai também. 

BN - Aquele 7 a 0, em 2003, selou o rebaixamento do Bahia para a série B. Esse é um dos jogos da lista para se esquecer? Lembra de algum tão traumático quanto? 
 
EF - É, esse com certeza. Mas talvez não tenha sido o mais traumático, porque ali a gente já estava derrotado, ali a gente já era um time derrotado. Então a gente só estava esperando chegar o último jogo para acabar porque quem vivenciava o dia-a-dia sabia que ali era jogar para cumprir tabela. Os outros jogos foram mais traumáticos na campanha porque deixaram nítido que a coisa não ia, o ano seria uma tragédia. Então esses jogos que você percebe que a coisa está feia, que não vai andar, que não tem solução, são muito mais traumáticos do aquela partida final, porque já estava selado, entendeu? Pelo menos foi o meu sentimento.
 
BN - E de maneira positiva, qual foi o seu jogo inesquecível?
 
EF - Não sei, tirar um jogo é difícil. Eu tive jogos memoráveis em outros clubes, no Grêmio, no Juventude, no Bahia. Eu posso botar um do Bahia, que seria a final da Copa do Nordeste em 2001 e a final da Copa do Brasil pelo Juventude em 99.  
 
BN - Como foi se transferir para o maior rival do clube no qual você se tornou ídolo? Como foi a adaptação ao Vitória? As reações das torcidas?
 
EF -Fui muito bem recebido, tanto pelo torcedor quanto pelo clube. Lógico que a minha adaptação demorou um pouquinho, eu me sentia bem no clube, mas entender que ali era minha nova casa, que ali era meu novo clube depois de tanto tempo no Bahia, demorou um pouquinho, apesar de ter me sentido bem no grupo desde o início. 
 
BN - Atualmente, você exerce a função de comentarista esportivo. Você acredita que consegue analisar melhor a situação dos jogos e dos jogadores por já ter estado no lugar deles?
 
EF -Com certeza ajuda bastante para essa função de comentarista ter vivenciado o campo, ter estado lá dentro. Uma coisa é você observar de fora, outra coisa é você está lá dentro e sentir o que acontece. Então facilita e muito. Só o fato de ter sido jogador não quer dizer que, necessariamente, será um bom comentarista, mas facilita muito. Também o fato de ter jogado nos dois clubes daqui de Salvador também me ajuda muito para analisar o futebol baiano, porque eu conheço o dia-a-dia, a realidade e as pessoas dos dois times. 

BN - Independentemente do resultado final da dupla Ba-Vi, quais você considera os principais erros que os dois cometeram durante este ano? Nenhum título foi conquistado nesta temporada.
 
EF - Eu acho que o Vitória começou errando quando manteve Antônio Lopes, que não tinha conseguido o objetivo de ter mantido o time na série A, para 2011. Com isso perdeu dois meses de trabalho, ainda no Baiano, para depois trazer outro treinador. E o Bahia quando adotou a estratégia de montar um grupo, desfazer a base do ano passado e contratar jogadores jovens que não deram certo em seus times de origem. Eu acho que a estratégia foi errada, o que se comprovou depois. Por isso, teve que arrumar durante a competição e isso não é bom.  
 

BN - Além de comentarista, você também é vice-presidente do Ypiranga, e luta para reerguer o clube, que é um dos mais tradicionais do futebol baiano. Qual a situação atual do Ypiranga e como está o planejamento para o ano que vem?
 
EF - Dia 15 de dezembro tem eleição e muito provavelmente eu vou ser eleito e vou está assumindo a presidência do clube e com o objetivo de seguir o trabalho que já está sendo feito, inclusive com as pessoas que estão no projeto. Continuar o trabalho, porque dois anos apenas é muito pouco para um projeto deste tamanho, desta dificuldade, que é reconstruir um clube que estava praticamente fechando as portas. Então o objetivo do ano que vem é, dentro de campo, conseguir o acesso para a primeira divisão do Baiano e fora de campo continuar o trabalho de organização e estruturação do clube. 
 
BN - Você trabalha também como Coordenador de Esportes do Escritório Municipal da Copa do Mundo (Ecopa) Fifa 2014 de Salvador. A cidade precisa cumprir o prazo estabelecido pela Fifa para sediar a Copa das Confederações e provavelmente não receberá jogos da Seleção, o que não era esperado, já que havia a expectativa de sediar a abertura do Mundial. Você acredita que Salvador terá condições de cumprir esses prazos?
 
EF - Com certeza absoluta eu sei que a Arena (Fonte Nova) vai está pronta. Até porque se não tiver o estádio não tem Copa do Mundo na cidade. O que eu posso falar estando dentro da prefeitura é que existem pessoas e alguns órgãos que estão trabalhando forte para que der certo. As dificuldades que acontecem deviriam ser menores, mas acontece porque tem toda a parte política e fazem com que as coisas andem mais lentamente do que o necessário. Então isso pode atrapalhar. Eu acho que Salvador vai evoluir bastante, mas se não fosse todas essas coisas que atrapalham a cidade iria ganhar muito mais com a Copa do Mundo. É uma pena, porque era um momento para dar um grande salto de qualidade, que vai existir, mas que poderia ser melhor aproveitado.
 
BN - Qual é o aspecto que precisa ser melhorado com maior urgência para o Mundial?
 
EF - Eu acho que o problema de mobilidade urbana e de segurança são dois problemas que estão latentes, né? 
 
BN - Por fim, uma questão mais polêmica. Recentemente, o treinador Vanderlei Luxemburgo se referiu a você como um jogador que assumiu a homossexualidade, e houve comentários de que você foi hostilizado após essa declaração. Primeiro gostaria de saber se você foi realmente hostilizado por isso e, depois, se ainda hoje existe homofobia no futebol... Como você enxerga essa questão?
 
EF - Eu fui pego de surpresa sobre essa questão, porque graças a Deus eu nunca fui hostilizado aqui em Salvador, nem como profissional, nem agora. As pessoas sempre me trataram com muito respeito e isso para mim é uma conquista que eu preservo muito. Então em nenhum momento eu fui hostilizado e nesse episódio também não. E a homofobia eu acredito que existe em qualquer setor, apesar dessa barreira está sendo quebrada, mas acho que ainda tem. Em todos os lugares sempre terão pessoas mais radicais que não aceitam a diferença, que não respeitam as outras pessoas do jeito que elas são. Não só no futebol, mas em todas as outras profissões. Faz parte do mundo, infelizmente.