Tapas e tapas
Após vencer o Bahia, em Pituaçu, o treinador do Fluminense Abel Braga falou. “Eles não acompanham as subidas dos laterais, mas também deixam aqueles três jogadores lá na frente. Então, é complicado lidar com esse time”. O colega de “Abelão” do Coritiba, Marquinhos Santos, aprendeu a lição e, principalmente no segundo tempo, soube aproveitar os espaços. Avançou a marcação, os laterais foram liberados e os volantes ficaram um pouco mais presos, no entanto, também se revezavam no apoio ao ataque. O tricolor foi pressionado e Jorginho, que costuma encaixar o time na volta do intervalo, demorou demais a mudar e o fez de maneira equivocada. Lembrou e muito o Bahia acuado e sem recursos do primeiro turno.
Até chegar ao empate, o Bahia ia bem, apesar de faltar profundidade e chegada dos laterais e volantes. Conseguia encaixar um jogo e não dava espaços para os três meias de o Coritiba jogar. Jones e Zé Roberto bem abertos pelos lados, mas sem extrema fixa. Invertiam o tempo todo de posição e eram, basicamente, os únicos responsáveis por organizar as jogadas de gol. Rafael se movimentava bem, porém só recebeu passes muito longe da área. Se frente ao Fluminense a bola rodou a área do adversário o tempo todo sem ninguém para finalizar, contra o Coxa ela só chegava lá em faltas da intermediária ou escanteios. Kléberson, que seria o homem da articulação, foi peça nula. Diones e Fahel se limitaram a tentar marcar. Jussandro não foi bem e ainda teve de lidar o tempo todo com perigoso Rafinha. Neto jogou bem, contudo chegava no estilo cadenciado característico.
A situação de Rafael hoje é pior que a de Ávine antes de sair para o Santo André, em 2009. Duas diferenças: o extracampo e a sequência de jogos. O atacante deixa a impressão de ser um cara caseiro e fica longe de polêmicas. Nunca fez duas partidas seguidas como titular, diferente dos concorrentes na posição. Impressionante como 90% das vezes entrou no esparro. Quase ninguém lembra os acertos, mas os erros são lançados com ódio, como se o rapaz fosse um inimigo. Boa parte da torcida simplesmente esquece o que se passa no jogo e vê apenas o que quer: Rafael não presta! Meu sogro me ligou, revoltado. “Rafael provou que não serve para o Bahia. Pisava na bola, não acertava um passe e quando conseguia milagrosamente dominar uma bola, perdia e cometia falta. Só fez falta! O Bahia perdeu por que Jorginho escalou errado – ter colocado Rafael – e mexeu errado. Era para ter tirado Rafael e ter colocado Lulinha no intervalo. Botou aquele Romário pra quê?”.
Se eu chegar aqui e escrever que ele foi bem, estaria como advogado e não analista. Entretanto, falam ter sido muito pior do que realmente foi. Para ter noção como a cornetagem em cima dele é cega, foram duas faltas cometidas, sendo que uma foi inventada pela arbitragem. Rafael ganhou no corpo e ficou cara a cara com o goleiro. Finalizou duas bolas, de pé trocado, com pouco ângulo e de fora da área, por méritos na movimentação. Só Jones chutou “tanto” a gol. Conseguiu fazer tabelas e mostrou estar amadurecendo. Ainda foi ele quem sofreu a falta no lance do gol. De fato, foi o segundo jogador tricolor que mais errou passes. Quatro no total. Mesmo número de Jussandro. Kléberson errou um a mais.
Apresentei os dados do ocorrido para provar não ter sido a miséria cantada. O time não ajudou. Quantas bolas ele recebeu dentro da área? Enquanto a equipe conseguiu jogar, ele estava participativo, acertando e errando como os outros. Depois da queda de rendimento, o que o centroavante sem ritmo de jogo e entrosamento poderia fazer, se o conjunto ficou acuado e sem nenhuma criatividade? É Messi, Ronaldo no auge, para pegar a bola na intermediária e sair driblando todo mundo? Vamos devagar com as pedradas. Só um estudo antropológico para conseguir entender essa perseguição com um rapaz esforçado, que já fez gols difíceis de se fazer e importantes. Para mim, definitivamente, Rafael precisa ser emprestado ano que vem. No Bahia não vão deixá-lo jogar!
Jorginho tem me lembrado, cada um com o conceito próprio de jogo, Márcio Araújo. Está abraçado no sistema e não muda por nada! Isso, muitas vezes, é um mérito, no entanto é preciso analisar a característica dos jogadores. As mudanças foram ruins. Foram dois jogos seguidos que a circunstância cobrava uma modificação ousada e ele preferiu a manter o sistema cautelosamente. Com dez minutos do segundo tempo, já estava óbvio precisar de uma sacudida. Com Jéferson, Lulinha e até Mancini no banco, a escolha não poderia ser o menino Romário, improvisado, para tentar fechar o forte lado direito do Coritiba, só aos 24 minutos. Ainda mais no lugar de Jones. O time perdeu velocidade e o que restava da criatividade. O garoto entrou perdido.
Jorginho tem feito um grande trabalho e muito, mas muito mesmo da arrancada tricolor passa por ele. Entretanto, isso não o isenta de erros, mas o quadro precisa ser todo pintado. O Bahia poderia ter perdido do Coritiba mesmo se as modificações fossem feitas mais cedo e da maneira que eu e a maioria da torcida imaginávamos. Futebol é subjetivo e o certo muitas vezes dá errado e vice e versa. O treinador é mais cobrado quando os jogadores não correspondem. E a entrada do Romário levanta um questionamento. Quais as condições atuais de Jéferson, Caio (não estava no banco de reservas) e Mancini? Não estão servindo nem para uma situação como a contra o Coxa? A demora em fazer as substituições e acabar improvisando leva a imaginar existir falta de confiança do treinador nas opções. Alguns argumentos podem parecer complacência, mas não o é. Você pode, mas eu não tenho o direito de analisar o ocorrido superficialmente. Se o fizer, caiu no lugar comum e fico entre tapas e tapas sem saber o por quê.
