Conceitos imutáveis!
Eu era um garoto ainda, com 12 anos, durante a Copa do Mundo de 1994. No Mundial anterior, acompanhei, mas ainda não me entendia como gente. Lembro mais dos jogadores. Maradona, Caniggia, Careca, Dunga, Ricardo Rocha, Branco, Totò Schillaci, Roberto Baggio, Gary Lineker, Roger Milla, Lothar Matthäus, Paul Gascoigne, Frank Rijkaard, Van Basten, Ruud Gullit, Andreas Brehme, Rudi Völler, Klinsmann, Omam-Biyik (mito que brocou a Argentina na estreia), Goycochea, Walter Zenga, entre outros que esqueci ou fico na dúvida se foi dessa competição ou da do “É TETRAAAA! É TETRAAA!”. Por isso, não conseguia compreender toda a cornetagem em cima de Dunga. Na época, achava - continuo achando - o capitão da Seleção um grande jogador. Raçudo, líder, preciso nos desarmes, excelente posicionamento, bons chutes de fora da área, visão de jogo e muita qualidade no passe – três dedos na fôrma. Foi fundamental na conquista! Pesava contra o fato de ser lento, turrão e às vezes brucutu demais.
Lembrei disso por que Dunga foi o primeiro jogador a me mostrar como, muitas vezes, a galera – me incluo nisso - parece ter conceitos imutáveis sobre a qualidade dos atletas. Uma vez tido como ruim, dificilmente conseguirá convencer as pessoas do contrário. Ainda mais se ficar marcado por algum lance. Dunga levou a culpa pelo esquema tático, pela falta de habilidade para gerir o elenco de Sebastião Lazaroni e por não ter dado uma cacetada em Maradona no gol que eliminou o Brasil em 1990. A maioria - novamente estou no bolo - fica esperando uma atuação fraca para manter a razão. Tive problemas com meu sogro ano passado por causa disso. Enquanto ele era um defensor ferrenho de Nikão no Bahia, eu preferia Maranhão, Gabriel, Lulinha, Carlos Alberto, Magno... Depois do jogo contra o São Paulo (o Bahia ganhou de virada por 4x3 e Nikão foi decisivo), seu Normando tirou meu couro e, no meio da discussão, largou algo que me fez pensar diferente: “você é teimoso e não muda seus conceitos”. Vá, sacana, pense não!
Como na época de Dunga como jogador na Seleção, hoje vivemos situação, guardadas as devidas proporções, semelhante no Bahia. Danny Morais, Jussandro, Jones e, principalmente, Hélder, saíram do desgosto para os elogios “tensos”. A desconfiança, naturalmente, ainda é grande. Muita gente prefere ironizar a elogiar. Dessa galera, começo a tirar o corpo fora. Volto ao tempo de guri. Um amigo de infância, Paulinho Cesar, vulgo Mescla, não jogava nada! Ele se mudou de bairro, em Ilhéus, e passei um tempo sem vê-lo jogar. Do nada, com ironias minhas e da galera da rua que o conhecia de antes, disputamos um torneio de três jogos com 10 minutos cada tempo. Paulinho estava jogando no Força Jovem (timinho!), talvez o maior rival do meu time, o Albatroz. Era final de um torneio preparatório para um campeonato maior. O sacana chegou e jogou muito! Parecia ser outro guri! De menino amarelo, virou ponta esquerda rápido, raçudo e decisivo. Levou fumo no final das contas, mas deu um trabalho da porra! Eu deveria ter aprendido com Dunga e Paulinho! Vai se achar, em meu brother?
O futebol é uma das coisas menos estáveis que existe! Deveríamos, todos nós, ter consciência disso, porém, talvez pelo eterno espírito competitivo, não abrimos mão de conceitos pré-concebidos. Tem muita gente, mas muita gente mesmo, torcendo para “Hélder voltar a ser Hélder”. Não estou nesse nível, mas espero conseguir ser menos desconfiado. Me faço de doido, reconheço o crescimento e torço para ele manter o nível. Não me arrependo de todas as críticas que fiz. Penso que elas foram juntas. Não se trata disso e sim de ter mais cuidado nas análises e ser menos incisivo nas definições. Canso de falar sobre as circunstâncias e, muitas vezes, simplesmente julgo o sujeito ser sem condições. Não estou querendo me tornar um cara sem convicções, contudo a observação precisa ser mais profunda e menos emotiva. Por que, como sabemos, o errado muitas vezes da certo e deixa de ser errado. Futebol é isso!
Flamengo 0x0 Bahia
Teria muita coisa para falar desse jogo, mas achei melhor deixar meu ponto de vista resumido. O 0x0 foi um pecado! Estrategicamente, faltou pouca coisa ao Bahia. Um posicionamento errado aqui, outro ali, mas nada que não aconteça em qualquer jogo. O que os tricolores podem reclamar é de impaciência, capricho e qualidade técnica nas definições dos contra-ataques, entre outras coisas dentro da limitação do elenco. Elias, que é tão criticado, fez falta ao ser substituído por contusão. Cláudio Pitbull não conseguiu produzir taticamente e tecnicamente metade (talvez esteja exagerando) do que Elias produz (iria). Não é muito, mas, o “SE” dando as caras, fez diferença. Como Souza faz falta. E, para resumir de vez, concordo com Jorginho: o tricolor perdeu dois pontos!
