Filosofia e planejamento
A distância financeira entre o Bahia e clubes como Corinthians, São Paulo, Santos e Fluminense, por exemplo, só tende a aumentar ainda mais com as novas cotas de TV e patrocínios. A tendência é que uma nova conquista nacional vire algo praticamente inalcançável. O que fazer para diminuir, dentro de campo, esse abismo? As primeiras coisas a se fazer são mudar a filosofia e o planejamento. Em minha visão, o tricolor só terá chances de gritar tricampeão caso use um trio fundamental de conceitos, que se completam: tática, determinação (vontade, raça, amor à camisa ou qualquer termo que o valha) e divisão de base.
Como assim a tática? Aí entra a questão da filosofia. Desde a categoria mais nova, trabalhar um estilo de jogo, para formar jogadores e treinadores. Sim, o modelo é o Barcelona. Não no jeito de jogar, até poderia ser, mas preparar um estilo, um conceito, uma maneira de forjar nos garotos uma cultura de consciência tática. Resumindo para os finalmentes, é buscar sempre ter um time arrumado, organizado e não um bando como tem sido nesse Brasileiro, por exemplo. Isso não é uma utopia e sim uma maneira, inclusive, de agregar o departamento amador com o profissional.
Em cima disso, o Bahia deverá criar um planejamento de aproveitamento da divisão de base. Formar um time com o alicerce preparado nas trincheiras tricolores leva tempo, mas hoje já teria recurso técnico para tal perspectiva. É um trabalho a médio e longo prazo, que deve começar na próxima temporada, mesclando com jogadores mais experientes. Não confundir experiência com fim de carreira. Não se trata de iniciar 2013 com cinco, seis garotos como titulares e sim como opções e, claro, para serem utilizados. Se Ítalo Melo estiver em um momento melhor do que Zé Roberto, não ter medo de jogá-lo as feras, independente se Anderson Talisca já for titular. São apenas exemplos. Da união de formação em casa de jogadores e filosofia de jogo, nascerá a determinação, superação, exigida para superar a superioridade financeira dos rivais abonados pela TV e marketing.
Ponte Preta
Ufa! Nada resume melhor o triunfo por 2x0 contra a Ponte Preta. Foi um sufoco muito mais pela agonia de voltar a vencer do que devido à pressão sofrida. O adversário é fraco e vai, com certeza, lutar exclusivamente pelo “título” de permanecer na Primeira Divisão. O Bahia iniciou uma espécie de triangular nesse jogo. Frente a rivais no máximo do mesmo nível, o tricolor terá de fazer todos os pontos possíveis. Garantiu frente à Macaca e terá de buscar o mesmo contra Náutico e Atlético Goianiense. Será um campeonato a parte e o time de Caio Júnior vai ter de ser “campeão”!
Para isso, algo que apareceu no segundo tempo contra a Ponte Preta terá de ser mantido. Fazia tempo que não via esse elenco jogar com tamanha entrega. Se uma equipe deixa a desejar tática e tecnicamente, tem carências em várias posições e ainda busca entrosamento, a vontade de vencer não pode faltar. É a partir daí que o alívio pode vir. Uma coisa puxa a outra. Esse espírito estava faltando. É a prova que não precisa desespero, precipitação e violência para jogar com raça.
Sobre o time, taticamente, pouco há a acrescentar. A postura foi basicamente à mesma utilizada nas partidas contra Palmeiras e Corinthians. Time recuado, apostando nos contra-ataques a base de lançamentos longos. A articulação seguiu quase nula. Zé Roberto esteve apagado e Mancini, mais uma vez, destoou do resto do time. Em determinado momento, chegou a se posicionar como terceiro volante e conseguiu ser ainda pior. A condição de titular absoluto e insubstituível é injustificável! Nem substituído durante o jogo ele é. Quais partidas Caio Júnior assiste? A esperança fica em cima de Caio Cesar, que ainda está longe da forma física e do ritmo de jogo ideal, mas conseguiu demonstrar a visão de jogo e qualidade no passe. Kléberson e Jefferson também geram boa perspectiva técnica. É superar as lesões. Espero que seja apenas uma questão de tempo. De pouco tempo!
Os laterais improvisados passaram incólumes pelo estilo centralizador de jogo da Ponte Preta. A Macaca não explorou as jogadas pelas pontas e o Bahia se safou nisso. Ainda assim, no segundo tempo, Nikão fez duas jogadas em cima de Hélder com muita facilidade. O triunfo não pode apagar os erros e a apresentação ruim no geral. Marcelo Lomba mais uma vez foi o destaque, junto com Souza e Gabriel. Esse trio faz a diferença. O “Caveirão”, por sinal, foi decisivo com um lançamento digno de Ronaldinho Gaúcho nos bons tempos no primeiro gol e, mesmo após ter perdido uma chance da mesma posição, teve frieza para matar o jogo com muita tranquilidade.
Vale uma analise individualizada de Alysson, Lucas Fonseca e Victor Lemos. Todos começaram muito nervosos, mas foram tranquilizando com o tempo e deram conta do recado. Alysson deixou muitos espaços entre ele e Diones. Quase todas as grandes chances da Ponte saíram por ali, porém, percebeu e conseguiu fechar o setor. Mostrou que pode ser utilizado sem receio. Seu companheiro de zaga provou mais uma vez que merece ser titular. Depois de ter tomado um cartão amarelo infantil, cresceu e confirmou o momento melhor que o de Titi. Deveria ser mantido! Já Victor Lemos parecia perdido no início. Errou dois passes bobos e não achava o lugar em campo. Quando o nervosismo passou, Victor se posicionou muito bem e conseguia antecipar várias jogadas. Volante bom não é o que corre de um lado para o outro atrás da bola. Bom é aquele que sabe aonde ela vai. Victor demonstrou ter essa qualidade. Promissor.
