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Dedo

Por Éder Ferrari

Dedo
Qual a real importância de um treinador? O que ele precisa fazer, de fato, no comando de uma equipe? Bom, não sou daqueles que acham sempre serem eles os responsáveis pelo bem ou mal de um time. Em contrapartida, sei como é fundamental um trabalho técnico seguro no desenvolvimento de um grupo. Tostão costuma dizer que o melhor técnico é aquele que não atrapalha. No Brasil temos vários que atrapalham. Querem aparecer mais do que o time ou superestimar a importância das escolhas. 

A primeira função do “professor”, por mais estranho que possa parecer, é dominar o elenco. Não adiantará nada ser um gênio da tática e dos treinamentos caso não saiba se relacionar com os comandados. Depende da preparação física e do departamento médico. Precisa do apoio da diretoria principalmente em termos de estrutura. Tem de se impor sem ser ditador. Tem de ter bom relacionamento sem ser amigo. Saber individualizar o trabalho demonstrando ser para o bem coletivo e não do individual – dar mais atenção ao jogador A em detrimento aos outros é cabeça cortada na certa! É sempre uma panela de pressão de egos e disse-me-disse.
 
E quanto tempo leva para um treinador poder dizer que tem (a palavra da moda) o “dedo” no time? Depende de muitas coisas. Facilita quando o elenco é conhecido e o trabalho é simplificado dentro de campo. É mais fácil reestruturar um time já estruturado. Faltava muita coisa ao time de Falcão, mas o padrão tático estava lá. Essa questão me veio à tona em um debate no Twitter com alguns amigos, entre eles o jornalista André Uzeda. Para ele, com uma dose grande de razão, é muito cedo para dar a Caio Júnior méritos sobre as mudanças táticas na equipe. Acredita que houve retrocesso: “jogar com Fahel, Fabinho e Hélder (ou Diones) isso Joel já fazia. E era taxado de retranqueiro”. André também questiona a propalada evolução defensiva e pensa os dois jogos sem levar gol como mera coincidência, casualidade. Vejo coerência em alguns pensamentos, exageros em outros e nomenclatura clichê no comentário dos três volantes. Mas, pera aí, não são realmente três volantes?
 
Nesse debate não existe certo ou errado e sim muito achismo das duas partes. O que podemos fazer é analisar todo o contexto desde a saída de Falcão. O que realmente mudou? André acredita que o time atual não tem mais vontade. “Colé, Eder! Faltou raça contra Fla e Internacional? Em que o jogo contra o Corinthians teve mais em entrega que esses aí?”. Para mim o espírito é outro! Penso que Uzeda confunde evolução técnica com determinação. Como esses foram os melhores jogos sob o comando de Falcão no Brasileiro, é fácil confundir. Nessas duas partidas, simplesmente o jogo encaixou mais, porém o aspecto “entrega” apresentado foi de obrigação e não do algo a mais. A postura mais aguerrida, com os setores do time mais próximos, retomou antes da chegada de Caio Júnior, no jogo contra o Coritiba. Tecnicamente foi lamentável contra o Corinthians, mas travou o time paulista na determinação. Veja a diferença de postura!
 
Eduardo Barroca, com apenas um treino mudou toda disposição tática. Saiu do tornado frágil esquema com duas linhas de quatro (fragilidade essa por falta de característica do elenco para fazer esse sistema funcionar) para o tradicional 4.4.2 com o meio de campo em forma de losango. Todos os jogadores conhecem a dinâmica desse esquema. Aí volto à questão dos três volantes. Sim, Joel Santana usava os três – às vezes quatro -, entretanto, com o ex-treinador tricolor, nenhum deles tinha função ofensiva. Era marcar e marcar, sempre o mais recuado possível. Isso é retranca. Contra Coritiba, Palmeiras e Corinthians as duas pontas laterais do losango eram usadas na transição defensiva e ofensiva. São peças fundamentais nesse esquema e têm liberdade para atacar.
 
É aí que está confusão. Muitos se apegam a nomenclatura sem observar o posicionamento. Veja como Kléberson conseguia fazer bem essa função. Perdeu quatro gols nos dois primeiros jogos? Sim, mas pelo simples fato de saber o andamento da posição e chegar com facilidade à frente. Fabinho e Hélder não têm capacidade para isso e essa é a razão de parecer ser mais do mesmo. Não é! Avançam, mas não têm o cacoete. Como Fabinho não arrisca passes mais difíceis, arrancadas ou dribles, Hélder fica sobrecarregado e se enrola para usar essas ferramentas. Acaba que erra passes demais e perde muitas bolas. Rende mais quando faz apenas o simples. Para manter o losango é impreterível que jogue apenas um desses três. Dois só com ausências, como deveria ter sido contra o Corinthians. Os três é loucura!
 
Voltando ao assunto inicial, não sei se vocês perceberam, mas quando falei taticamente do time o nome de Caio Júnior não apareceu. Pelo Twitter, por serem apenas 140 caracteres, muitas vezes opiniões parecidas parecem divergentes a depender do ponto de vista. Não dou a Caio grandes méritos no esquema. O que está aí, com exceção de Gil Bahia, foi bancado por Barroca e Caio faz bem em aproveitar. Claro que deve ter feito e/ou tentado alguns ajustes no posicionamento, mas a base foi implantada pelo auxiliar. 
 
Agora, acredito que ele errou em algumas escolhas, muito pelos desfalques e/ou desconhecimento do elenco. Além de usar o trio já criticado acima, adiantou Zé Roberto para o ataque e tirou o que ele apresentou de melhor contra Coritiba e Palmeiras: sem estar de costas para a defesa adversária, carregar a bola tendo duas opções à frente. Acabou se desgastando mais rápido sem opções de progressão. Magno ficou muito preso a marcar os volantes do Corinthians e o fez bem, o que prova uma evolução no jogo dele. Porém, pela qualidade técnica que tem, precisa chamar mais a responsabilidade, buscar ser ele mesmo e parar de querer ser Ronaldinho Gaúcho. Mais uma vez digo, enquanto mantiver esse pensamento, estará desperdiçando um dom. Talvez falte o "dedo" de um treinador para orientá-lo. 
 
O banco também foi armado errado. Faltou pelo menos mais uma alternativa do meio para frente. Não interessa que seja Jones, Ryder, Diego Varejão ou talvez um dos garotos da base. É preciso levar em conta os desfalques, obviamente, mas ficou sem opções. Quais alternativas ao trio cintura dura? Para começar, Diones vinha em uma sequência melhor e está mais adaptado à função que Fabinho. Tem mais mobilidade e chegada. Isso dentro do medíocre pensamento de não perder, claramente exposto por Caio Júnior na coletiva pós-jogo. O time ficou sem recursos e velocidade. Eu tentaria manter Magno por ali, como aconteceu contra o Palmeiras, com Vander no ataque desde o início. Ficaria mais leve e com mais capacidade técnica e arranque para puxar os contra-ataques. Pelo menos as laterais começaram a encaixar e me parece ser apenas questão ganhar ritmo de jogo. Como contratações parecem distantes, é preciso sugar tudo que o elenco pode dar, usando também a base.