Realidade paralela
Gosto de pensar que a maior dádiva de uma pessoa não é a inteligência e sim a capacidade de utilizá-la. Saber analisar, interpretar e usar os conhecimentos de uma maneira que ajude a elucidar as questões e fazer um mundo melhor. Isso serve para tudo, seja religião, política, estrutura da vida em sociedade e, claro, a paixões como o futebol. Tenho orgulho de ter muitos amigos assim. Um deles, que conheço há mais de 20 anos, Rógere Lemos, mais conhecido como Roginho – já foi Rojão na época da malhação pesada e dos sucos fortalecedores – é chamado de ranzinza pela galera por sempre agir assim. A turma tomando uma frente ao prédio dele e ele, mesmo se estiver no bolo, fala: “Ô Betinho (outro amigo), abaixa essa porra desse arrocha, que está incomodando quem não quer ouvir”. Tudo na resenha! O sujeito é um eterno indignado! É impressionante a capacidade dele de sempre ver o outro lado da moeda. Não pense que quero seu mal, meu brother, mas você deveria ser jornalista!
E, apesar de ser um pensamento óbvio, que deveria permear a mente de todos, a pedra foi lançada por ele. Pelo menos no meu enorme grupo de amigos. Vejam o que Roginho escreveu no Facebook. “Imagine você torcendo para uma empresa dar certo. Só que a empresa não paga os salários dos funcionários, tem processos trabalhistas de centenas de milhares de reais, contraem dívidas astronômicas com bancos e não pagam, deixam seus colaboradores de destaque chegarem atrasados, encherem a cara e prejudicar o andamento dos trabalhos. Pronto, essa empresa tem várias filiais: Corinthians, Vasco, Flamengo, São Paulo, Palmeiras, Botafogo... e por aí vai. E a gente aqui torcendo e brigando por elas”. Foi daí que tirei a pauta para esse artigo. O que passa em nossa cabeça quando o assunto é futebol, principalmente no nosso clube, é surreal! Somos quase todos hipócritas da bola!
Não se trata de questionar a paixão que sentimos. Não quero que ninguém abra e nem eu abrirei mão, mas o debate cabe e essa benevolência precisa ser revista. Os dirigentes estão acabando com nosso prazer e não percebemos. A bola de neve está de um tamanho quase sem volta. E somos nós quem a alimentamos. Vejo muitos torcedores dizendo coisas como: “tem de pagar R$ 250 mil por Hugo. É mais ou menos o que pagamos a Zé Roberto. Tá barato. O mercado é assim”. É uma realidade paralela. Aí, quando acontece o inevitável atraso nos salários, retruca: “jogador tem mais é que se fuder mesmo. O cara ganha milhões pra jogar bola e não pode atrasar um mês? Eu que ganho salário de fome que não posso receber atrasado”. Conveniência pouca é bobagem! Ou o caminho natural de apontar o culpado. “Diretoria incompetente. Só faz merda nas contratações. Quer pagar o que não tem!”. Mas não foi você quem pediu para contratar jogadores de “peso”? Depois resolve na justiça!
Os clubes brasileiros nunca arrecadaram tanto, porém, em contrapartida, continuam agindo da mesma maneira incompetente e irresponsável de sempre. Até pior! O que levou Roginho àquele pensamento foi o caso Ronaldinho Gaúcho. Um clube atolado em dívidas, sem estrutura e com uma política interna mais esculhambada que cabelo de mendigo, vai e assume a responsabilidade – inicialmente dividida com uma empresa de marketing esportivo – de pagar um salário milionário, de jogador top na Europa, a um cara em fim de carreira que só pensa em aproveitar a fortuna conquistada com o dom. Por sinal, dom esse, que ele fez questão de tratar com descaso. Era óbvio que iria dar problema mais cedo ou mais tarde. O Flamengo já tinha dívidas com o elenco. Como é que você não tem dinheiro para pagar o que tem, vai e faz um negócio desses? Só o futebol permite esses absurdos. E nós batemos palmas para isso! Para ser campeão vale tudo! O resto depois à gente resolve. Ou não.
O jogador não tem culpa. Se tem doido que paga, por que ele não vai pedir? Isso não é uma exclusividade flamenguista. No Bahia, quando chega novembro, se o cara não interessa para a temporada seguinte, pode se preparar. Vai ter de entrar na justiça para receber dezembro, às vezes novembro, e premiações. É que início de ano é sempre de vacas magras, né? Somos os coitadinhos do Brasil! É melhor guardar essa grana para pagar quem vem no ano seguinte. O Vitória, quando Alexi Portela assumiu, disse que não iria pagar as dívidas da gestão anterior e assim o fez. Como assim? Queria o que com isso? Seria um passe de mágica e os débitos sumiriam? Uma hora a bomba estoura! Vimos isso no caso do lateral direito Maurício. Por esse pensamento do presidente rubro-negro, o ex-jogador se armou e levou uma bolada. Outros casos assim vão aparecer.
Se você deve R$ 100 e arrecada R$ 10, você nunca poderá gastar R$ 15. Parece estupidez explicar isso, né? Todo mundo sabe que dois mais dois é igual a quatro. Para os dirigentes a soma dá sete. E a bola de neve vai descendo a ladeira. Nosso futebol precisa ser repensado. E o torcedor precisa ajudar. Uma amiga de Roginho disse na postagem que levamos o futebol muito a sério e esse é o problema. Acho exatamente o contrário. Toda indignação se resolve com um gol. Isso tem de acabar. Comemore dentro e grite fora! Transparência e responsabilidade têm de ser cobradas independente da próxima partida. Não pode existir essa realidade paralela. Se cobrarmos compromisso e competência em nossa paixão, todo o resto do pensamento e atitudes em sociedade vai fluir para melhor. Precisamos acordar, nos indignar e tomar atitudes. Essas ondas não podem mais ser tratadas como normalidade! Temos de ser como Roginho. Nosso país está com os conceitos aloprados. Os fins efêmeros não podem justificar os meios. A conta sempre chega! Muitos clubes vão acabar! Uma hora a barriga rasga e não dará mais para empurrar!
