Incompetência e estupidez
Dia 23 de fevereiro de 1997. Essa é a inesquecível data do meu primeiro BaVi no estádio. Fonte Nova completamente lotada, com o Vitória bem servido em campo, enquanto o Bahia era muito ruim. Comigo no saudoso estádio, meu pai, meu irmão (rubro-negros) e outra galera dividida entre os dois clubes. Sem traumas, ficamos juntos e comemoramos e lamentamos – cada um na sua – o contundente 3x0 aplicado Leão. Assim como chegamos, fomos embora todos juntos sem medo algum, apesar de sempre ter uns babacas frustrados, mas nada demais. Não se trata aqui de saudosismo de marido abandonado e sim de mostrar que há pouco tempo funcionava. O que mudou?
Peço desculpas aos milhares torcedores corretos e que levam ao pé da letra o espírito esportivo, mas terei de generalizar ao citar as maiores Torcidas Organizadas (facções?!) do estado. Sei que vocês existem e são muitos, mas acabam engolidos pelos idiotas. Episódios esporádicos sempre existiram, mas esse clima de tensão, de guerra e o fim da torcida mista começaram no surgimento da torcida Os Imbatíveis. O nome já remete a um sinônimo de batalha. Não se trata de um torcedor do Bahia com mimimi. A Bamor é do mesmo nível de imbecilidade e intolerância. Estou apenas rastreando o processo da criação dessa estúpida cultura de brigas de gangues. Passa também por uma questão cultural, de mudança no perfil dos nossos jovens e de nossa sociedade. Tudo está muito raivoso, intransigente, impaciente e extremista.
Dois problemas também ajudaram a empobrecer ainda mais esses grupos, que deveriam ser de apoio ao clube do coração. Um deles são os chamados “Comandos”. Como funcionou isso? Os grandes bairros de Salvador criaram espécies de filiais da TUI e da Bamor, com pouquíssima ou nenhuma fiscalização. Prato cheio para rivalidades locais serem travestidas em duelos de “torcedores” de Bahia e Vitória. Se duvidar, os moleques – maioria crianças e “aborrecentes” entre 10 e 20 anos – nem sabem a situação do time. Outro fator são as alianças com bandos semelhantes de outros estados. “União do terror, a Coral e a Bamor”. Os cantos e o pensamento estúpidos de lá, foram trazidos para cá. “Temos de nos unir lá fora senão, quando formos para lá, vamos apanhar”. Esse é o argumento. Eu me pergunto: que porra é essa? O que se passa na cabeça desses caras? Vão ganhar o que com isso? Por que vão apanhar?
Toda essa questão é um problema de segurança pública e não esportiva. Por isso sou contra torcida única. Seria tapar o sol com a peneira e olhe que eu tenho experiências ruins. Final do Campeonato Baiano de 2009. Só deixei o Barradão – estava de folga e fui como torcedor – mais de uma hora após o final da partida. No estacionamento dentro do CT rubro-negro, onde tinha aquele antigo campo de barro (não sei se ainda existe), cinco ou seis rapazes vestidos com a camisa da TUI, me cercaram e, após rápidas ameaças, me deram tapa na cara, chute nas costas, murro na barriga, etc. Chovia muito e eu estava de óculos e sozinho. Com carros ainda deixando o estacionamento, nem tinha como correr. Não tivessem aparecido dois homens mandando parar - até hoje não sei se eram seguranças do clube, policiais ou membros da T.O -, o que teria acontecido comigo?
Ano passado, vestido a paisana e procurando ser o mais discreto possível, tomei cacetada da Polícia Militar na entrada e durante jogo, sem que eu ou as pessoas ao meu redor tivessem feito nada para justificar as agressões. No estádio, a PM, simplesmente, bate para depois perguntar. O servir e proteger virou bater e oprimir. “Crianças” imbecis e poder público despreparado e pressionado. Resumo da ópera? Torcida única! Seria a mesma solução vaga de proibir bebidas alcoólicas nos estádios. Quem faz essas merdas, chega já pronto para isso, do lado de fora. Os confrontos nunca acontecem dentro do estádio. O problema passa longe disso. Exemplo: torcedor do Bahia e integrante da Bamor, conhecido como Coelhão, estava em um aniversário. Para infelicidade do rapaz, foi reconhecido por cerca de 20 membros da TUI e acabou internado em estado grave. Do outro lado acontece o mesmo. Certo dia voltava para casa pela orla, quando vi um torcedor do Vitória passando tranquilo em frente ao SESC, em Piatã, em dia normal de semana e, do nada, acabou agredido por quatro jovens, sendo que três estavam com camisas do Bahia ou da Bamor. O pior é que desceram do buzu só para bater no cara, apenas por estar vestido de rubro-negro. Torcida única no estádio seria a solução para isso?
Por essas e outras sou contra torcida única e comemorei a decisão do Ministério Público. Seria presentear a marginalidade, que está entranhada em nossa sociedade, em detrimento ao espirito e a confraternização do esporte. Parece um pensamento ingênuo, mas precisamos manter coisas assim vivas para não nos afundarmos de vez. Em uma comparação tosca, seria o mesmo que lutar contra o capitalismo proibindo compras de natal. Em contrapartida, não sou cego em achar que medidas não precisam ser tomadas. Nossos estádios são pequenos e pouco preparados para grandes públicos divididos, mesmo com a limitada taxa de 10% da arquibancada para quem joga fora de casa. Os visitantes sofrem muito em Pituaçu e, principalmente, no Barradão. No Manoel Barradas, na intenção de setorizar o estádio, criaram um curral com cara de corredor polonês. Um completo absurdo! Algo a ser estudado antropologicamente. Tem de derrubar e criar alternativa para quem não é rubro-negro. Querendo ou não, o fato é que a diretoria do Vitória, ajudada pela PM, estimulou o clima de medo e opressão. Isso não pode existir no esporte! Assim como não se deve quebrar a propriedade do clube rival, da forma que já fizeram nos banheiros destinados à torcida do Bahia. Talvez como uma vingança, no último BaVi os banheiros estavam imundos.
Não quero parecer presunçoso e me colocar como dono da verdade ou que seria capaz de resolver esse grave problema social. É uma coisa profunda, que passa pela falta de educação e qualidade de vida da maioria dos brasileiros, porém existem medidas até de certa forma simples que resolveriam os problemas. Falo da Bamor e da TUI, mas poderia citar a Falange, do Fluminense de Feira. É só uma questão de ficar nas maiores. Existem muitas pessoas corretas nesses grupos. O que se deve fazer é acabar com os “Comandos” e mapear os marginais infiltrados. Muitos já têm passagem pela Polícia e não deve ser tão difícil identificar. Criem uma lei que, quem for pego fazendo essas palhaçadas, seja obrigado a prestar serviços sociais na hora dos jogos, por exemplo. Existem várias soluções para isso, que eduque e desmistifique esse enfrentamento ridículo. Só é preciso ter atitude para querer e não tirar, mais uma vez, o lazer de quem respeita o direito e os deveres da vida em comunidade. Há várias medidas mundo a fora que podem servir de modelo. Basta ter iniciativa. Guardadas as devidas proporções estruturais e de seriedade dos dois países, a Inglaterra venceu essa guerra!
