Jogo dos três erros
Quatro jogos em Pituaçu. Na conta de qualquer tricolor consciente era para se ter, pelo menos, dois triunfos, devido à força dos adversários. O Campeonato Brasileiro é equilibrado e, qualquer qualidade a mais como entrosamento, deixa o brother com vantagem. O Bahia está iniciando a competição com um mix de incompetência (formar o time com a bola rolando) e azar (contusões, suspensões e cláusulas contratuais). Quando isso acontece, o cara não pode errar de jeito nenhum. Se vacilar, paga o preço! Foi isso que aconteceu com René Simões na partida contra o Botafogo: errou três vezes e facilitou e muito a perda dos dois pontos!
O primeiro equívoco começou na escalação. Quando vi Ricardinho no lugar do, infelizmente, canela de graveto Carlos Alberto, olhei para meu amigo Eduardo Rocha, editor de esportes do Correio*, que estava ao meu lado em Pituaçu e falei: “Ranzinza, Lulinha tá lascado!”. Venho repetindo isso não por chatice, mas por que René continua escalando Ricardinho como quarto homem. Ele não finaliza, não entra na área, não puxa contra-ataque e não encosta nos atacantes. Tem um excelente passe, acalma o jogo, vira a bola, mas olha para frente e vê apenas os atacantes. Dá o passe e não tem velocidade e dinâmica para chegar. Quando Jobson, que faz a vertical da esquerda para o meio, não joga, piora. Gabriel e Lulinha foram mais um quinto meia do que um atacante. O que acontece? Atacante(s) isolado(s) e exaurido(s) fisicamente pelo sacrifício.
Falei de Lulinha por que estava óbvio para mim que ele seria o único responsável por puxar os contra-ataques. No segundo tempo não segurou a onda e boiou. Mas isso se deu, também, ao segundo erro: a estratégia tática. Não dá para jogar em casa preocupado apenas em anular o adversário. A torcida se irrita e joga contra. Nesses quatro jogos, até que os tricolores seguraram a cornetagem, porém, acredito que chegaram ao limite. Marcone em Elkeson e Fahel em Maicosuel. Merecem ser vigiados, porém não era para tanto. Marcações individuais que esvaziaram o meio de campo e deram ao cauteloso Botafogo, o domínio absoluto na primeira etapa. Não fosse o pé torto de Herrera, o buraco estava mais embaixo. Acabou que Lulinha teve de fechar o meio para agrupar. Com os laterais em mais uma tarde infeliz, sobrou para o feijão com arroz de Diones carregar o piano. Falta sal e um bifezinho, pelo menos, ao ex-volante do Bahia de Feira. Quer marcar homem a homem? Beleza! Agora, avance a marcação e encurte o espaço dos volantes adversários. Continuar deixando os caras a vontade não dá!
A última escorregada de Simões veio após dois acertos. Agiu certo ao colocar Gabriel e Maranhão no intervalo. Não apenas isso. René posicionou Fahel com zagueiro/volante pela esquerda e deu liberdade para Maranhão do meio para frente. O time ficou equilibrado com variações e alternâncias de jogadas – sem redundância. Foram 11 minutos de empolgação. Velocidade, habilidade, ousadia e marcação por pressão. Entretanto, em um lance infeliz de excesso de atrevimento, tudo mudou. Maranhão caiu por cima do braço e teve de sair. Pelo posicionamento, a opção óbvia era o esquecido Zezinho. No mínimo, manteria a postura tática. No entanto, o treinador fugiu sem sentido do evidente e colocou Rafael. Quebrou tudo! A desculpa foi que Júnior estava muito cansado, jogando no sacrifício. Ajudou em quê? Júnior foi obrigado a sair ainda mais da área e se acabou de vez. Até câimbras teve! Ainda demorou um tempão para deslocar Gabriel, que estava embolado com Lulinha na direita e sem articulação.
Erros acontecem e servem de aprendizado. Mais uma vez eu falo isso: René precisa rever alguns conceitos! Não dá para jogar do mesmo jeito em Pituaçu e fora de casa, ainda mais com alterações das principais peças. Os exemplos foram às modificações ousadas táticas e técnicas contra Corinthians e Botafogo. Pode parecer incoerência o que vou falar, mas é apenas futebol. O Bahia não tem time para disputar título, mas tem para ganhar das outras 19 equipes. Não venceu os dois alvinegros, entretanto foi muito superior no momento da ousadia. Respeito é bom e é preciso ter sempre! Contudo, quando a bola rola, esse sentimento não pode virar covardia, mesmo que seja no subconsciente mascarado por estratégia de jogo. Penso que René não acredita estar sendo retranqueiro, como muitos acham. Ele simplesmente acha ser a melhor forma de jogar sem se expor. E, como todas elas, estão propensas a erros e acertos. O importante é ter visão e humildade para reconhecer e corrigir o que degringolou. Já passou da hora!