Eduquem e não machuquem!
Divisão de base, nesse futebol absurdamente caro e burocrático, para mim, é o caminho mais promissor de glória, retomada. O Santos, o Inter e o Barcelona, por exemplo, que o digam! Talvez por isso, me interesse tanto pelo trabalho de formação. Penso que, ali, nos Sub`s, está à solução para a falta de dinheiro, investimento, qualidade e criatividade dos clubes e da bola praticada nos campos tupiniquins. Na produção, você deve educar, corrigir os defeitos técnicos, táticos e de fundamentos, fortalecer fisicamente e, não menos importante, criar uma maturidade emocional para suportar a pressão. O bicho pega!
Assim, fico indignado com uma parte da torcida do Bahia. Outros torcedores também agem dessa forma, mas não cabem comparações e sim a busca por uma explicação. Só lembram dos garotos na hora do sufoco e, caso não resolvam, tome vaias e cornetagem. “A base não presta”; “menino é pra jogar com menino”; “uma porra dessas, tripa seca, mascarado. Empresta essa miséria!”. Alguns exemplos dos afagos que cansei de ouvir nas arquibancadas. Quando se pede calma, a resposta costuma ser divertida. Menos para os moleques. “Paciência? Já basta a que eu tenho com o corno do meu chefe”; “tenho dez anos sem ganhar nada vou ter paciência? Me deixe!”; “Ele que tem de ter paciência comigo! Tem tudo na mão, só faz jogar bola, é uma carniça, e ainda quer paciência? Piiiiiiiiiiiii”.
Poucos são os diferenciados que saem direto da base para o profissional e arrebentam. Podem até chegar brocando, mas, com o tempo, vem a natural irregularidade e os questionamentos. Neymar demorou uma temporada para se firmar. Messi levou mais que isso. Somos muito rápidos para mitificar e bestializar. Talvez sejamos mais ligeiros no segundo caso. Claro que, por exemplo, de 25 garotos que formam o grupo de juniores – teoricamente último estágio antes do profissional – uns quatro ou cinco conseguem jogar no time de cima e olhe lá. É o tal processo de seleção. Existem casos de mais, porém, poucos conseguem se firmar no clube formador. E, evidentemente, muitos deles, apesar do esforço e de algum talento, na transição, mostram não terem nascido para aquilo. Uns peregrinam por times menores, sem sucesso. Outros abandonam a carreira e alguns obstinados, seguem, correm atrás e estouram depois de velhos. O trauma é grande!
Madson, Gabriel, Vander e Rafael, para falar apenas nos que estão atuando no momento, todos, queiram os amigos dos apupos ou não, têm muito potencial. São craques, diferenciados? Não! Entretanto, o futebol não é feito só de gênios. Todo Barcelona precisa de um Pedro, um Abidal, um Puyol, etc. Guardadas, aqui, as devidas proporções. Acontece que, para a torcida, não interessa! A galera pensa da seguinte forma: se for da base é craque! Naturalmente, passam alguns jogos e a expectativa não se cumpre. E aí, o que acontece? Pronto: é mais um menino amarelo que não vai para lugar nenhum! Difícil controlar essa pressão. Na verdade, é mais complicado ainda suportar. O garoto sobe cheio de esperança, esperando para sentir o calor da torcida, se firmar e o que recebe é pimenta naquele lugar.
Serei específico sobre esse quarteto. Cada caso é um caso, como adoro dizer, mas servem de exemplos para o que há por vir. Depois de quase um ano inteiro parado no Flamengo, por lesões ou falta de espaço, Vander voltou e, em três jogos, já caiu em desgraça com a torcida. O individualismo, a imaturidade e a máscara têm de ser questionados para curar e não machucar. Falta ritmo, condicionamento e entrosamento. Já mostrou muitas vezes que pode ser útil. Cabe a Joel, como ele próprio adora vender a imagem, agir como um pai e educar o garoto. Madson, coitado, fez apenas o segundo jogo como titular no profissional e neguinho já queria ali rendimento de Daniel Alves. Esse, aliás, outra vítima dessa relação. O time está completamente perdido em termos de conjunto e sobra para os garotos. Gabriel, coitado, joga em todas menos na dele. Seu caso começa a se assemelhar demais com o de Ananias. Só espero que também não precise sair para ser reconhecido. Já Rafael, nunca tem sequência, sempre joga nos piores momentos e, mesmo com média de gols superior aos medalhões, é tido como o maior dos pernas de pau. É um garoto com muito a evoluir e que precisa de confiança. Sugiro novamente: por que não o entregam a Uéslei para um trabalho semelhante ao feito com Leandro Damião? Não joguem fora um guri que tem tudo para ser um artilheiro competente. Eduquem e não machuquem!
