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Aula

Por Éder Ferrari

Aula
Meu sofá foi a carteira, meus cachorros e meu irmão Elizeu os colegas e, a TV, o quadro negro com o professor. Assim me senti assistindo a Santos e Barcelona. Foi didática pura, como Neymar reconheceu em entrevista ao final do jogo: “Foi uma aula. Hoje, aqui, aprendemos a jogar futebol”. Nada mais a declarar, né? O grande craque brasileiro da atualidade reconheceu que, agora, o esporte praticado no Brasil é outro! Bola parada? Contra-ataque? Zagueiros dentro da própria área e intermediária aberta? Isso é um híbrido enfraquecido e não o que levou a nosso talento nato ser considerada a arte em favor do esporte. O Barça é o que, por DNA, deveríamos ser!
 
A diferença entre Barcelona e Santos foi abismal! Eu pouco acreditava no triunfo santista, mas não esperava uma postura tão infeliz. Muricy teve cinco meses para se preparar, analisar e observar o que poderia ser feito. Vejo poucas soluções na filosofia de jogo de Ramalho, porém, o que ele fez foi basicamente anular qualquer possibilidade de vitória. Todo mundo sabe que o grande mérito do time catalão é ocupar a intermediária com muita movimentação, troca de posições, ter a posse e pressionar a saída de bola. O que faz o treinador santista? Tira um meia e coloca mais um zagueiro para jogar em linha,  encostado no goleiro. Ou seja, ele não criou um veneno e sim deu mais um doce ao adversário. 
 
Escrevi um pouco disso no artigo anterior, mas vale a pena repetir. Algumas pessoas dizem que a mudança de filosofia de jogo no Brasil aconteceu depois da Copa do Mundo de 1982. Falam que, mesmo com o melhor futebol, a equipe não conseguiu conquistar o título. Foi o ano que eu nasci e não pesquisei como os torcedores e a mídia tratou a derrota na época, porém, hoje, todos que falam sobre o time de Falcão, Sócrates, Zico e Júnior, comandados por Telê Santana, o fazem com referência. A derrota de 1982 foi colocada ainda mais em questão, quando o futebol brucutu dos campeões de 1994, com três volantes e um meia que pouco produzia ofensivamente, mesmo com os craques Romário e Bebeto no ataque. A dita eficiência superou a arte.
 
É sempre assim: os fins justificam os meios. O que aconteceu em 1986 e 1990 não importa. Como bem disse o jornalista inglês que cobre o futebol sul-americano, Tim Vickery, não foi uma vitória de Messi sobre Neymar e sim da filosofia de jogo. Aqui volante tem de “morder”. Na Espanha ele é o primeiro armador. Muito da decadência técnica dos meio campistas brasileiros passa por isso. Os laterais, que eram para serem alternativas, passaram a ter uma importância maior do que a posição permite. Os treinadores brasileiros acham que preencher o meio de campo é encher de marcador sem recursos e não compactar o time desde os zagueiros. Na base, dar noção tática é, na cabeça dos formadores, o mesmo que aprender a marcar. Pensamento completamente distorcido.  
 
Sinceramente, estou frustrado com o futebol brasileiro. Ainda temos recursos para formarmos grandes times, mas o pensamento precisa mudar. Nossos treinadores estão em um nível quase amador, contudo, o processo tem de ser iniciado na base. O Santos é quem melhor produz atletas fora dos padrões atuais de estrutura corporal de jogadores de basquete. Tem de separar as coisas! Os boleiros são quem fazem a bola balançar as redes, porém, sem direção, vira baba. Ter de aguentar Joel Santana, Muricy Ramalho, Celso Roth, Tite, Wanderlei Luxemburgo, Felipão e cia é complicado. Todos tiveram seus auges, porém, mesmo que pensem em mudar o mais do mesmo, ficam entregues as cabeças viciadas. Duas derrotas e tudo volta à mediocridade atual. Voltem para a sala de aula!