Não vendam Ávine!
Só estou a começar esse artigo desta forma por “culpa” de um professor na faculdade que me disse ser de “extremo mau gosto”, iniciar qualquer texto com uma data. Segundo ele, dá a impressão de relatório policial. Pois bem, puxo na memória o dia 28 de outubro de 2006. Lá estou eu, como sempre, na velha e sofrida Fonte Nova, com meu amigo Danillo, vulgo Chupetta – se o nome é com “ll”, o apelido tem de ser com “tt” – assistindo mais um famigerado e fracassado duelo do tricolor na “Cerie C”. Do outro lado, o pequeno Ipatinga vence sem muito esforço um combalido Bahia por 2x0. Exatamente naquele jogo que uma parte da torcida invadiu o campo e gerou um quebra quebra. A queda e o coice!
Naquele jogo, que não me traz nada de bom, um personagem chamou minha atenção pela ruindade. Com apenas 18 anos, o lateral esquerdo Ávine já apresentava a vontade atual, porém o moleque não acertava absolutamente nada! Tudo que tentava fazer era em vão: parecia um maluco do mal e não do bem como hoje! Era irritante e, naquela situação, não tinha como separar as coisas. O desespero era grande, o pensamento não tinha como ser claro, sensato. Era uma desgraça e pronto! Chupetta, corneteiro como poucos, não aliviou. “Essa carniça vai ter de voltar pra escola: futebol não é a dele!”. Mesmo descrente, tentei argumentar, mas seria exigir demais de qualquer torcedor levar em conta à completa imaturidade física, técnica e psicológica do jogador, os salários atrasados, a estrutura amadora administrativa e de treino do clube, o treinador xarope e companheiros “Cerie E” ao lado.
Naquele ano, o pior da história do clube, em um irresponsável desespero, subiram vários garotos sem a menor condição de jogar no profissional e, muitos, ficaram pelo caminho. Ávine foi o principal sobrevivente! Seguiu apanhando - muitas vezes com razão, diga-se de passagem – da torcida, da imprensa, levou broncas públicas de treinadores, principalmente de Arturzinho, abraçou a fama de barqueiro, desligado, teve o nome envolvido em polêmica de programa sensacionalista e chegou a ser emprestado para o Santo André em 2009, que acabou rebaixado no Brasileiro. No interior paulista, apesar de ter sido dispensado por indisciplina junto com o zagueiro Rogério – faltou treino ou coisa do tipo -, voltou mais maduro e disposto a recuperar de vez a carreira. Em meio a tudo isso, fez bons jogos, destacou-se em Ba-Vi’s e, para deixar o nome na história, marcou o último gol da velha Fonte.
Para não chatear meu professor repito a estratégia do primeiro parágrafo, para dizer que, em 2010, finalmente, Ávine virou o jogador que se imaginava na Copa São Paulo de 2006. Mais tranquilo, o lateral foi o principal jogador da temporada que marcou a retomada do clube a elite do futebol brasileiro. Conseguiu regularidade e demonstrou maturidade técnica, tática e psicológica, claramente com potencial para evoluir ainda mais em todos os fundamentos. Parecia óbvia a despedida, mas ele fez questão de renovar para “depois de roer o osso, comer o filé mignon”. Reconhecendo a evolução, o descarado flamenguista do Chupetta, puxou a bola para o lado do Urubu. “Queria Ávine no Flamengo!”. Ah, vá!
Por circunstâncias do futebol, a temporada de 2011 não foi boa para Ávine. Arrisco a dizer que o lateral não jogou uma única partida 100%. Ficou muito tempo fora e muitas vezes, como contra o Santos, esteve em campo no sacrifício, com risco de agravar as lesões. Imaginem Carlos Alberto fazendo isso? O ano que seria da explosão nacional, da chance de convocações para a Seleção e de uma provável Bola de Prata, foi atrapalhado pelo joelho, pelo ombro, pela coxa e pelo púbis. Ainda assim, está entre os oito melhores do Brasileiro. Dodô conseguiu compensar a ausência em alguns momentos, mas faltavam outras coisas! Faltava à identificação, o espírito, alma tricolor. Não que Dodô fosse frio nessa relação, porém, a figura é outra! Ávine sofreu com e como o torcedor todas as amarguras recentes.
Por isso mesmo, acho uma irresponsabilidade vendê-lo em “baixa”. Tem apenas 23 anos e o auge ainda está longe. Recuperado completamente dos problemas físicos, pode ser em 2012 o que prometia em 2011. A valorização seria óbvia. Entendo fazer parte do futebol atual a negociação de jogadores, no entanto, nesse caso, sou muito contra! É a posição mais carente no Brasil e, o valor proposto, vai pagar, com números baixos, uns dois meses de folha salarial. Será que vale a pena abrir mão de Ávine por esse valor? Toda equipe precisa do ídolo de berço. Se não me engano, o “maluco” chegou ao Fazendão com 11 anos. Conhece profundamente o coração tricolor. É o torcedor em campo, que sacaneia o rival, que deixa o sangue no gramado, que viveu a saúde e a doença. Esse é um casamento que não pode acabar por qualquer milhão. Vendam outros! Busquem dinheiro de outro jeito, mas não tirem Ávine, agora, do Esquadrão. Talvez nunca!
