O ERRADO QUE DEU CERTO
Nos meus dois últimos artigos procurei dar a Cesar o que é de Cesar, com relação ao sucesso do Bahia em retornar a Primeira Divisão. Nada mais do que justo: não se tratava de ufanismo. Aliás, longe disso. Quem me acompanha aqui sabe que eu não fecho os olhos para os erros só por que o resultado final foi positivo. Peço desculpas a vocês por soar redundante e um pouco clichê, mas vou repetir um ditado boleiro para explicar o acesso. No futebol, existem dois fatos incontestáveis: muitas vezes o errado dá certo ou o certo dá errado. A temporada de 2010 do tricolor se encaixa na primeira máxima.
Todo mundo sabe que hoje em dia um clube de futebol dificilmente vai pra frente sem um planejamento redondo. Às vezes, por outras circunstâncias como uma contratação especial, força da torcida, união dos jogadores e comissão técnica no objetivo maior, superam a falta de tato da diretoria na condução de toda a temporada. Me orgulho de minha memória e coerência. Por isso, não consigo ficar apenas jogando confete sabendo que muita coisa foi conduzida de forma errada. Vou tentar enumerar aqui alguns destes fatos. Tudo começou sem critério desde o início do ano. Lembram quantas vezes Renato Gaúcho reclamou da morosidade do departamento de futebol? Dá demora em regularizar jogadores, nos seguidos atrasos de salários e na falta de condições da sala de imprensa e dos campos no Fazendão? O Bahia jogou o Campeonato Baiano com contratações estapafúrdias como Rafael, Abedi, Lima e Edílson, todos estes, basicamente, ex-jogadores.
Por falar em contratações, sabem quantos jogadores o Bahia trouxe para o grupo principal e o do Nordestão? Nada menos que 45! O erro fica maior, quando se trata de contratações para o grupo de Chiquinho de Assis. Até hoje procuro uma explicação lógica para a formação de um time separado e das férias de 15 dias no meio da temporada. A única justificativa que vem em minha cabeça, é que Renato Gaúcho não queria “sujar as mãos” com times mistos no campeonato regional. Deu no que deu: humilhações como o 5x1 para o Vitória, em Pituaçu, e a eliminação na primeira fase de uma competição com um nível técnico de envergonhar. Isso sem falar que deram folga para jogadores machucados – Omar, Marcone e Morais – e o time, que já era desorganizado, voltou ainda pior depois da parada para a Copa do Mundo. E os salários continuavam e continuam a serem pagos, em média, a cada 55 dias.
Vejo muita gente falando que a imprensa tem de ajudar os clubes. Depende de que imprensa eles falam. Por que eu, jornalista, aprendi na faculdade que nosso principal dever é fiscalizar e reportar os fatos doa em quem doer. Às vezes, por estar no dia a dia, você passa a ter os funcionários do clube não só como colegas de trabalho, mas como amigos e, por isso, fecha os olhos para determinados erros. Isso não é antiético, mas uma característica do ser humano. No entanto, isso não pode impedir a visão crítica sobre os acontecimentos. Como respeito muito minha profissão e meu trabalho em si, não posso deixar a satisfação pelo sucesso de alguns amigos, me impeça de ser responsável. O Bahia subiu, ótimo! Mas foram mais erros do que acertos em 2010. Por último, deixo um conselho para Marcelo Guimarães Filho. Não trate o cargo de presidente como se fosse igual ao de deputado federal. Os assessores do mandatário de um clube são seus funcionários: o gestor de futebol, o diretor de marketing, o supervisor... Os assessores que cercam o deputado têm de passar longe do presidente. Não são profissionais da área e só atrapalham, com idéias mirabolantes e tapinhas nas costas.