MANIA DE PERFECCIONISMO
Não pensem que estou me eximindo, porque acho que tudo que é cronista e torcedor se perde quando gruda na mania do perfeccionismo. Este 3 x 3 de Vitória-Flamengo foi um festival disso. A maioria das pessoas tinha a receita exata de como o Vitória não ter deixado o Flamengo empatar em cima da hora. Engenheiros de construções mal acabadas, advogados de causas perdidas.
Outro dia, li em determinado artigo que ser perfeccionista não é fazer alguma coisa mais ou melhor, ou buscar sempre a excelência, mas, sim, ter a convicção emocional errônea de que a perfeição é o único caminho para a aceitação pessoal. É a convicção de que as coisas só aceitas da forma que nos satisfazem. E neste jogo, o que satisfazia ao torcedor do Vitória e a nós cronistas era manter o resultado de 3 x 2.
Foi um jogão, até melhor do que aquele Vitória 3 x 3 Cruzeiro. Seguramente o torcedor do clube baiano vibrou mais com aquela partida, porque o Vitória perdia de 3 x 1 e chegou ao empate no finzinho. Mas, agora, esta alegria ficou com os do Flamengo, que já estavam contabilizando uma derrota e no último estertor pode comemorar um empate com sabor de triunfo.
Eu já disse que estão querendo mais do que o Vitória pode dar. Sua campanha é boa, praticamente está garantido em outra Copa Sul-Americana, devendo terminar entre os 10 melhores do campeonato. Só que o torcedor critica alguns resultados, que o time até poderia ter alcançado e não alcançou, mas isso é inerente do próprio futebol que, por isso mesmo é um esporte imprevisível e apaixonante, principalmente entre forças emergentes e de boa qualidade pra cima. Porque os de baixo nível têm mais é que ficar amealhando pontinhos aqui e ali para sair do grupo dos degoláveis, como está acontecendo com os “poderosos” Botafogo e Fluminense e os imprevidentes Náutico e Sport, que fizeram bonito no ano passado e caíram na cilada de pensar que tudo era muito sólido e permanente, não melhorando a sua política de contratações e de metodologia.
Não sou adepto de avaliar campanhas pelo que se paga a jogadores, porque quando o Bahia foi campeão não tinha nem a décima folha do Brasileiro; e o Vitória chegou a uma decisão com o Palmeiras com uma folha de merreca. É questão de se encaixar as percas – a escolha do grupo, a sinergia do treinador com os jogadores, o compromisso deles em jogar tudo que podem e de os dirigentes honrarem os seus compromissos, o esquema de jogo fluir com naturalidade e sem invencionices. O Fluminense tem uma folha de mais de R$ 3 milhões, jogadores que ganham até R$ 300, 400 mil, mas os dirigentes não pagam, a administração é bifurcada por decisões da diretoria e do patrocinador, funcionários insatisfeitos, por isso nada tem dado certo.
Mas voltando às vacas pés duros, não vejo motivos para tanto bafafá porque o Vitória cedeu o empate no último minuto. Ou melhor: o Flamengo conseguiu chegar aos 3 x 3. Já vi este filme várias vezes, com o Vitória, com o Flamengo e com muitos outros times.
O Mauro Betting, excelente comentarista de SP, andou levantando estatística sobre pontos fáceis perdidos ou árbitros que subtraíram pontos dos times no campeonato. O Vitória é um dos vanguardeiros nisso, com 14 pontos que bem poderia ter somado. Com os 40 que tem, estaria em primeiro lugar com 54. Mas isso é muito flácido, sem sustentação, apenas um meio de se mostrar que o futebol não é ciência exata. Porque até, o Palmeiras, que já ultrapassou os 50 pontos, também teve seus desapontamentos em 10 outros deles e estaria com mais de 60 e praticamente campeão antecipado.
Ainda agora, portanto, fico a pensar naquela argamassa jogada no ar da Itapoan FM por um torcedor: se o Apodi marcasse firme em um gol, o Magal não tivesse sido batido em outro e o Gleguer defendido aquela bola da falta do Pet, o resultado teria sido diferente – como, digo eu, o jogo teria sido outro, em outro lugar e em outra data.
Não se pode negar que o técnico e os jogadores tenham passado por uma ótima lição. Quem sabe, nas próximas partidas todos esses sofismas se transformem em realidade e não se tenha mais que lamentar um empate ou uma derrota em cima da hora.
Mas é preciso dizer que foi um dos melhores jogos do Brasileirão 2009!