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O TEMPO URGE

É deprimente ter que assistir mais uma vez o grande projeto do Bahia, de voltar à primeira divisão sob os aplausos de sua imensa torcida, se desfazendo jogo a jogo, tropeço a tropeço, em um campeonato onde ele entrou como um dos dois maiores favoritos, porque o outro é o Vasco da Gama que, também, por imprevidência de seus dirigentes, caiu neste submundo de divisão inferior, tendo que desbravar sertões e chapadas brasileiras. 


O mais desolador é que, desde o início, a prudência avisava que esses anseios de retornar à elite pareciam muito improváveis, porque, numa demonstração de forças minadas, o Bahia teve que recorrer a um velho inimigo, Paulo Carneiro, cujas cicatrizes de tão declarada rivalidade sempre continuaram muito expostas – e essas feridas e anomalias não se curam de um dia para uma noite. Muitas vezes perduram séculos a fim e até se pode dizer que são desalentos eternos.


Desde o primeiro momento, externei o meu modesto ponto de vista, incompreendido pela maioria – e teve até companheiros que diziam tratar-se de um velado ciúme, porque trabalhara mais de dez anos com PC, quando ele fora presidente do Vitória. Ocorre que fui muito claro: uma decisão de risco, muito risco para quem contratava e quem estava contratando. Se tudo se encaminhasse certo, PC poderia até se candidatar a presidente do Tricolor e ganharia na primeira pesquisa de intenção de votos. Mas se as coisas fossem ficando cinzentas, tanto Marcelo Filho quanto o novo gestor seriam crucificados, acusados de traidores, essas pechas todas muito próprias de qualquer torcida ferida em seus brios.


Volto a afirmar: nenhum dirigente foi tão revolucionário e inovador quanto PC. Tudo que ele pensava durante seus primeiros 10 anos de presidente do Vitória, deu certo. Ninguém, também, pode lhe tirar o valor de sua capacidade de administrar e de sua visão sobre o futebol. Briguento, polêmico, temperamento forte e imprevisível, não raras vezes intolerante, tudo bem; mas foi, até hoje, um dos mais vitoriosos dirigentes de clubes. Só que no Bahia nunca foi dirigente, mas um empregado, um gestor  submetido ao desconfiado crivo da torcida e da imprensa.


Agora mesmo, quando o time volta a beirar o fantasma da terceira divisão, os acontecimentos mais recentes mostram uma imensa fissura entre o presidente Marcelo e o executivo Carneiro. Nas entrevistas, nas atitudes, nas contratações, em tudo que diz respeito ao andamento do projeto que, em janeiro, contrariando todas as tendências, os mais apaixonados (ou carentes?) juravam que seria o maior sucesso. Esse novo tropeço em casa (2 x 2 Ponte Preta) e os seguidos insucessos lá fora, são apenas os dividendos naturais de tanta instabilidade e explícita incoerência: três técnicos em menos de um turno de campeonato, mais de 40 contratações, um campeão absoluto de incertezas.


Como não me julgo dono de verdade nem a última palavra da imprensa, mas apenas um observador que muito lutou por esse direito de escrever e dizer conceitos sobre o futebol, vou colocar na mesa de sugestões o seguinte: ou PC pede para sair ou Marcelo o chama e diz que tudo foi um equívoco. De forma madura, civilizada, pagando-se o ônus financeiro e da retomada de posição.


Porque do jeito que as coisas se encaminham, o time não se acerta em campo, os resultados são cada vez piores, vão continuar culpando PC porque foi presidente do Vitória e MGF porque contratou o seu maior rival. Acho que agora o Bahia tem que lutar muito é para não cair de divisão, porque subir passa a ser uma pálida conseqüência.


E me valendo daquele famoso personagem interpretado por José Wilker (Giovane Improta, em Senhora do Destino), “o tempo urge, o Bahia é grande e se ainda for encontrada uma solução a torcida agradece”.