REALIDADE AMARGA
Pior de tudo é que estamos chegando à metade do campeonato e nossos dois times ainda não decolaram. O Vitória, que chegou a voar tranqüilo, dando alegrias à sua torcida, parece que entrou em pane, está difícil encontrar o ritmo de suas pretensões. Não ganha há quatro jogos, só seis pontos nos 24 últimos disputados. É provável até que tenha mudado de técnico, porque o discurso dos dirigentes após o empate com o Fluminense (2 x 2) foi que iriam se reunir para exigir uma melhor postura da equipe.
Repito o que disse antes: toda vez que Paulo César Carpegiani não inventou, o Vitória foi bem, ganhou pontos, jogou com personalidade, até quando perdeu foi como time grande, lutando e criando boas chances até o fim. Mas houve jogos em que as mudanças estranhas, muitas vezes violentando estilo de jogadores, como Apodi, Bida e Jackson, criaram um grande mal-estar no grupo. E mais ainda quando ele, contrariando o discurso da fase boa, começou a dizer que faltava qualidade técnica e jogadores de realce. Não digo que o time tenha feito corpo mole, mas que passou a jogar envelopado de desconfiança, isso não se tem a menor dúvida. E a desconfiança traz sempre a apatia, os tropeços, a inconseqüência.
Muito mais delicada é a situação do Bahia, que disputa um campeonato de segunda divisão em que todos, outra vez, apostávamos em sua condição de favorito a uma das quatro vagas para a divisão de elite. Afinal de contas, o Tricolor é um dos gigantes dessa divisão. Só ele, Vasco e Guarani, campeões brasileiros da Série A, têm uma história muito bonita a ser contada todos os dias. Mas o nosso gigante parece que está adormecido, pois faltou planejamento e, agora, ainda busca soluções com a mudança de treinador e estréia de novos jogadores.
Este jogo de Goiânia, em que o Bahia perdeu por 1 x 0 do fraco Vila Nova foi uma demonstração clara de que os problemas chegaram ao limite. Não há mais tempo para erros, não sobram mais espaços para experiências. De novo, o time não correspondeu, os estreantes tiveram participação muito pálida e a caída para a faixa do rebaixamento é uma questão agora de qualquer descuido.
A maior esperança da torcida passa a ser porque os vanguardeiros das disputas, que se encontram no G-4, estacionaram um pouco, mas a diferença já chega a entre oito e 12 pontos, o que é um largo caminho a ser encurtado. O estarrecedor é que, com 20 pontos ganhos nos 48 já disputados precisa conquistar no mínimo 40 pontos dos 66 que ainda restam (22 jogos), para tentar uma das quatro vagas.
É muito lamentável que times de grandes torcidas, como é o caso do Bahia, não tenham se planejado dentro do potencial de seus mercados. O Santa Cruz/PE é um exemplo que deve servir de alerta para os menos avisados. Ainda agora, em uma Série D, o que há de mais deprimente em disputa nacional, acaba de ser eliminado colocando a maior média de público em todas as divisões, com 42.518. Mais do que o Atlético/MG (Série A), 39.000; Ceará (B), 12.000 e Paysandu (C), também 12.000, isso só para se falar nos que lideram a estatística. Então, em quase todos os times que despencam em seu destino a causa fundamental é porque os dirigentes contrataram mal, não planejaram bem e sofismaram sob a grandeza de suas torcidas.
O nosso Bahia foi assim no ano em que foi repetente em uma Série C: foi a maior média de público em todo o país – a Fonte Nova esteve sempre lotada, entre 40 a 60 mil pagantes -, mas o torcedor está cansando com tanta imprevidência de seus cartolas.
Sei que é duro dizer isso (e tem gente até que bate na madeira para espantar o mau agouro), mas é bom Bahia e Vitória adotarem providências urgentes, seguras e sensatas, porque senão teremos que enfrentar os espantalhos de divisões inferiores.
Um precisa estancar a queda livre que abraçou, outro necessita urgentemente recuperar a velha mística de garra e de clube vencedor, que já está ficando na curva do tempo.
O amargor de uma realidade também serve de tempero para atitudes saneadoras.