O CÉU E O INFERNO
O famoso Allan Kardec define de forma muito clara e prática a verdadeira face do desejado Céu, do temido Inferno e do necessário Purgatório. Põe fim às penas eternas, demonstrando que no universo e na vida tudo se evolui.
Não é que eu esteja tentando divulgar a doutrina espírita, mas que em tudo na vida os conceitos deste sábio homem podem ser aplicados, isso pode. Sem restrições ou preconceitos, mas dentro de uma análise criteriosa e de grande proveito para qualquer ocasião. Na vitória e na derrota.
O Céu e o Inferno poderão ser alcançados por cada um de nós todos os dias e em tudo que fazemos – e o futebol não é diferente. Aliás, volto a afirmar que o futebol reúne toda essa malha de situações: emoções, desejos, competitividade. Como em nossas vidas pessoais, as grandes torcidas e os clubes estão sempre sujeitos a transitar por esses estágios – e neste exato momento é o que se pode constatar com os extremos que vivem tricolores e rubro-negros.
O Vitória se delicia com os gozos celestiais e o Bahia prova o ardor de uma sobrevivência infernal. Mas, também, é bom não se desprezar a fórmula de que há sempre a chance de se purgar os pecados, conquistando-se a glória. Ou de se perder a glória cometendo-se pecados.
Permitam-me a ousadia de afirmar que o universo e a vida não caminham exclusivamente na busca da evolução, mas, também, nos perigos do retrocesso e do acúmulo de dívidas. E isso fortalece a crença de que, neste momento, mesmo em situações diametralmente antagônicas, os nossos dois clubes se deparam com um muro muito movediço e tenebroso, embora de profunda igualdade, que se traduz na batalha de se manter o ótimo astral ou de se superar as dificuldades.
Assim, ao Vitória cabe o árduo papel de não deixar que essa atual fase suba à cabeça de seus jogadores, que devem ser orientados para um trabalho cada vez mais forte, uma união cada dia mais intensa e um esforço pessoal de integração ao grupo e aos princípios inquestionavelmente vencedores: treinamentos bem fundamentados, respeito aos adversários, cumprimento de deveres e obrigações, consciência profissional, que passam tanto pelo desempenho da equipe em campo quanto dos dirigentes no apoio logístico e na execução de provedores, atenta aos mínimos detalhes, desde o cultivo de uma grama no campo de jogo à contratação dos reforços certos para os lugares carentes, pagando-se em dia, gerenciando-se uma convivência saudável e duradoura.
Ao Bahia, que luta para sair do sufoco em que se encontra, torna-se imprescindível purgar velhos hábitos danosos: melhorar o nível de contratações, superar desavenças entre dirigentes, resgatar o eficaz método de que um ambiente só pode ser abençoado pelas vitórias e pelas conquistas quando o desejo de vencer é apenas um ingrediente de um planejamento feito dentro da ética de uma participação sólida de todos os segmentos da comunidade. Ao longo desses últimos anos o Bahia tem andado muito desunido, conjugando discórdia, portanto sem rumo. Mas essas coisas não inviabilizam a retomada de um destino de quem nasceu para vencer; apenas exigem renúncia de vaidades e fortalecimento dos princípios básicos da vitória.
O Vitória foi quase perfeito na goleada de 6 x 2 contra o Santos, com esquema tático fluindo em todos os setores, praticamente todos os jogadores atuando de forma brilhante, com destaque especial para os dois Leandros, Apodi, Magal e Roger; o Bahia foi lastimável em todos os sentidos na goleada sofrida diante do América, em Natal, faltando-lhe um esquema de jogo e um mínimo de brilho em quase todos os seus integrantes.
Mas é bom simplificar esta situações acenando humildade e sempre mais trabalho para os que vencem, perseverança e empenho para os que são momentaneamente perdedores.
Porque o Céu e o Inferno são apenas os endereços dos que lutam pelo certo e os que insistem e se acomodam no errado.