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HORA DE ENTENDER

O Vitória não pode deixar de apoiar o seu artilheiro Neto. Não se pode negar que ele tenha extrapolado e que a punição poderia até ter sido mais rigorosa. Pulou uma fogueira, porque se é realmente que ele cuspiu na cara do vascaíno Ramon, só o auxiliar Vilarinho viu, dedurando-o ao árbitro André Luiz Castro, mas nenhuma câmera de televisão flagrou nem nenhum companheiro constatou o lamentável lance. Poderia ter ficado praticamente um ano sem jogar.


Confesso que, apesar dessa minha opinião, telefonei para Neto e falei uma meia dúzia de palavras de conforto, porque o pior negócio da vida é quando um cidadão, por mais serviços eficientes que tenha prestado, cai em desalinho cometendo um erro e a Justiça acaba impondo uma punição. O caso é que este jovem tem sido o mais eficiente de todos os nossos atacantes – e não acho justo que, agora, porque foi apenado contra um ato condenável que ele mesmo reconhece haver cometido, a sua fritura esteja sendo feita, pois o mínimo que se vê é referências à base do descaso, de que “foi punido e pode ficar fora até o final de julho” ou de que “foi até pouco para quem cuspiu na cara de um companheiro”.


Neto é nosso conterrâneo, menino feito na divisão de base do Bahia, agora consagrado como goleador no Vitória – e, portanto, merece mais respeito, solidariedade e apoio. Principalmente do Vitória, porque um pai ou uma mãe não abandona o filho na hora de suas amarguras. Principalmente um filho que já lhe deu pão, porque não foram poucos os jogos em que Neto fez gols importantes, lutou como um leão, encarnando a camisa como se fosse o seu mais vigoroso torcedor.


Ao longo de minha vida fui aprendendo que um homem só deve olhar o outro de cima para baixo quando for dar-lhe a mão para que o seu semelhante possa se soerguer. E é isso – mesmo sendo um jogador já experiente e de certa fama, com um bom salário e saudável família constituída -, que Neto está precisando de seus companheiros, de seus dirigentes, de seus amigos e até mesmo da crônica esportiva, de pessoas como eu que jamais se aproveitou dos momentos de depressão, deslizes ou fracassos de atletas ou dirigentes para tripudiar e tirar uma de arauto da moral e da decência.


Neto errou, sim, mas o fez pela empolgação e pelo forte desejo de lutar por um triunfo que se desenhou, desde o princípio, como quase impossível – e não é justo que, agora, os que realmente zelam pelo bom senso e pela compreensão queiram-lhe levar, aos empurrões e escárnios, para o pelourinho. Não sei se o efeito suspensivo já foi conseguido, se Neto joga contra o Palmeiras ou não, mas qualquer que tenha sido a decisão do tribunal pleno, vai restar ao Vitória o dever de conversar com o seu atleta, mostrando-lhe o que representou a sua atitude impensada, levando esse aviso a todos os outros jogadores, mas sem abandonar o seu atual goleador.


E acho que esta lição não serve apenas para Neto, mas, também, para outros profissionais que por aqui transitam. Recentemente vi cenas lamentáveis no clássico decisivo em que vários jogadores se envolveram, mas que o goleiro Marcelo, do Bahia, foi o mais agressivo e que por isso mesmo foi a julgamento, só que deu muita sorte nada sofrendo. E houve quem tenha dito que ele só praticou aquelas cenas de violência, quase levando o franzino massagista do Vitória a nocaute, por causa da frustração de ter perdido um título que estivera ganho até o primeiro tempo acabar.


Não defendo indisciplina nem impunidade, mas o que pretendo dizer é que, no caso de Neto, ele merece pelo menos um mínimo de compreensão. Pelo artilheiro e pelo lutador que é.