CIRCUNSTÂNCIAS
Assim como na vida, o futebol sempre corre abraçado com as circunstâncias. Uma escolha, uma hesitação, uma omissão, e, aquilo que tinha tudo para dar certo, dá errado. É um esporte coletivo sujeito a falhas individuais dos jogadores e do treinador. Sem falar que do outro lado tem um adversário querendo o mesmo que você. Faz tudo certo, pensa que está tudo resolvido, põe uma estratégia, que parecia infalível, em prática e, ainda assim, o resultado não sai. Esse é o futebol, que abençoa incompetentes e condena competentes, tudo de acordo com os resultados e a já citada circunstância.
Critiquei muito a estreia de Márcio Araújo no Bahia em meu último artigo – não tiro uma única palavra – e tive motivo para isso. É ai que entra, espero, a circunstância. Araújo escolheu o caminho, de acordo com sua coerência, menos tortuoso. Pagou o preço e, a primeira impressão positiva que tinha deixado em sua apresentação, foi para o ralo. Por ter escolhido não se meter contra o Coritiba, recebeu, com justiça, a pecha de covarde e omisso. Mas no futebol não existem verdades absolutas. Quem diria que Celso Roth, um dia, seria campeão da Libertadores e, ainda por cima, considerado um dos principais responsáveis por isso?
Tive o cuidado de observar o trabalho de Araújo durante sua primeira semana verdadeira de treinamentos. A diferença para o seu antecessor, Renato Gaúcho, é absurda. Em quatro dias, fez mais trabalhos táticos com um objetivo claro que Portaluppi em toda sua passagem pelo Bahia. Se vai dar certo, só os resultados para saber. Com um trabalho de campo qualificado como esse, alguma coisa no meio do caminho leva o treinador a não ter sucesso. Aonde ele erra? Me fez lembrar de Sérgio Guedes, que jogava para frente, treinava muito, mas acabou demitido e ainda voltou para São Paulo com o apelido de “Perde Guedes”. Hoje está à frente do Bahia na Série B com o limitado São Caetano. Circunstâncias...
Não sei se esses treinamentos terão resultados nesses dois jogos seguidos em Pituaçu – Brasiliense e América-MG. O elenco ainda tem muitos vícios de posicionamento defensivo e comete alguns erros graves para o futebol atual: não mantém a posse de bola e a saída do campo defensivo é sempre na base do chutão ou da correria. Não tem articulação. O tempo para consertar esses defeitos não foi suficiente. São as mazelas deixadas por Renato Gaúcho. Espero que Márcio Araújo consiga colocar em prática o excelente trabalho feito nos treinamentos, e que não abdique de atacar para não expor a defesa. Não é hora de dar vez ao azar. O acesso a Primeira Divisão depende disso.