QUESTÃO DE MERCADO
Edson Almeida
Torcedor-zagueiro, daqueles que ficam marcando a imprensa em todas as suas opiniões, Sérgio Santiago, pergunta-me porque em lugar de enaltecer o triunfo do Fluminense de Feira, insistimos, na TV, no rádio, no jornal e na Internet, que foi o Vitória quem perdeu.
Porque, Sérgio, tem muito a ver com a necessidade do mercado. Salvador, 3 milhões de habitantes, é um pólo futebolístico de Bahia e Vitória. E, portanto, se Bahia e Vitória jogam contra clubes do interior ou mesmo de qualquer outra praça, até mesmo contra os maiores clubes brasileiros, nós, cronistas que você tanto critica, não podemos fazer do adversário de tricolores e rubro-negros a pedra central de nossas referências. Senão o grande público não vai aceitar o nosso trabalho e o dono da empresa de comunicação vai mandar a gente plantar batatas na China.
Sem querer ser gato-mestre, vou tentar lhe explicar sobre uma matéria do currículo da administração, fundamental na vida de todos nós, em qualquer atividade humana. É a Mercadologia. Esta disciplina encerra um conjunto de atividades que visam orientar o fluxo de bens e serviços do local onde são gerados para os consumidores ou usuários. Em sentido mais estrito, é um leque de técnicas coordenadas que permitem a uma empresa, um grupo ou mesmo uma pessoa a atingir as exigências de um mercado.
Então, caro amigo, o futebol é o nosso produto, as torcidas de Vitória e Bahia são os representantes mais legítimos e exigentes do mercado de Salvador e nós, operários da crônica, somos apenas interlocutores deste painel. Somos os prestadores de serviços de comunicação aos consumidores e usuários do futebol, que são os torcedores.
Você já notou que todas as emissoras de rádio têm repórteres exclusivos para cobrir as atividades de Bahia e Vitória? E que não têm esses mesmos profissionais para cobrir cada um dos times do interior ou de outros centros? Porque Bahia e Vitória são as nossas duas principais estrelas. É por causa deles que as empresas contratam profissionais, vendem os seus anúncios e conquistam audiência. A mídia vive deste expediente.
É assim em qualquer lugar. No Rio, a Rede Globo centraliza suas transmissões nos jogos do Flamengo, 34 milhões de torcedores espalhados pelo país. Em São Paulo, tudo que é emissora de rádio. televisão ou jornal dá maior destaque ao Corinthians. E vamos mais adiante: time grande, de torcida comprovada, é quem ganha, perde ou empata. Você jamais vai ver uma manchete que o Madureira goleou o Flamengo, o Fluminense ou o Vasco; que o Barueri meteu bronca no Santos, no Palmeiras, no Corinthians ou no São Paulo. Vai ser dito, sim, que o Fluminense perdeu para o Madureira e o Corinthians levou ferro do Barueri. Porque esse comportamento é inerente da necessidade do mercado.
No caso desta partida da quarta-feira, entre Vitória e Flu de Feira, o rubro-negro é quem fez feio, porque a torcida que foi lá não foi pensando no triunfo do Fluminense, embora o tenha sido inquestionável, a ponto de o Vitória demitir o seu treinador. Se a crônica de Salvador morasse em Feira, aí, sim, Sérgio, o correto seria dizer que o Fluminense brilhou e ganho do Vitória.
Você mesmo, que me parece ser um tricolor de conceitos irredutíveis, deixa claro em sua reivindicação que “nenhum de nós fez tanto carnaval com o empate do Bahia (2-2) com o Atlético, mas que ficamos realçando a derrota do Vitória contra o Fluminense, não dando valor ao time de Feira”. Você viu como o negócio funciona? Dentro do conceito que você tenta impor, você pratica exemplo igual: fala do empate do Bahia contra o Atlético e da derrota do Vitória contra o Fluminense... confirmou como objetos principais destas questões, Bahia e Vitória, conjugando da mesma forma Atlético e Fluminense como complementos de seus comentários.
O problema é que todo torcedor – e até entendo isso como uma vacina muito útil para se manter sempre muito viva a rivalidade -, é mordido de uma mosca-azul que qualifica a imprensa de tendenciosa, que ajuda muito os clubes grandes, principalmente quando não é o do seu coração.
Vamos fazer um acordo, Sérgio? Se você entendeu o que tentei explicar, vou me sentir recompensado; mas se tem dificuldade de entender, paciência. Eu garanto que vou continuar respeitando a sua desmedida paixão ou de qualquer outro torcedor. Por mais incoerente que seja. Mas, por favor, tente ser mais justo com a crônica de sua cidade, porque temos excelentes profissionais, tanto na qualidade de suas funções quanto na integridade moral.