APARTHEID NEVER
Edson Almeida
Causou-me grande espanto ouvir Paulo Carneiro, a quem admiro pela competência e gana de trabalho, defender em nome da modernidade a triste idéia de separar tricolores e rubro-negros, com cada um desses segmentos ficando impedido de assistir aos jogos de seus times nos dias de clássicos. Ba-Vi no Barradão só para rubro-negros e em Pituaçu só para tricolores.
Que até me achem retrógrado, superado, velho no tempo e nas idéias, mas acho isso uma atitude antidemocrática, porque segrega, separa, afasta, isola interesses comuns; portanto, uma ação separatista, discriminatória, irracional, aviltante.
Quando o muro de Berlim foi derrubado, quando os racistas americanos resolveram quebrar as amarras de seus preconceitos e aclamaram um negro para dirigir a maior nação do mundo, eis que aqui na Bahia, um povo que tem dado exemplo de como se conviver com todas as raças e credos, surge esta proposta de se separar tricolores de rubro-negros em dias de clássicos, como se fossem uns onças, outros ovelhas, portanto cada um em seu seguro curral.
Paulo, ainda bem que você se isentou da invenção dessa infeliz iniciativa, embora a tenha defendido, fazendo-me lembrar da luta que você desenvolveu no Vitória para que o tratamento fosse igual ao do seu atual clube. Quando lá chegamos realmente o Vitória só era manchete em assuntos negativos, porque quase todos os dias era uma notinha no canto de página. Você brigou, foi combatido por uma maioria, mas se há outra sua conquista foi a de que, em sendo um grande time, disputando entre os da elite, o Vitória passou a ter o mesmo destaque do seu grande rival. E quando a sua delegação ia para a Fonte Nova, lembra? Mesmo sendo um estádio público, como hoje é o Roberto Santos, você e seus comandados eram tratados a pão e água, sem qualquer atenção – e muitas vezes fui convocado para fazer cartas recriminatórias. Eram críticas e censuras que sempre entendi como justas e pertinentes.
Cito isso para reavivar o sentido da diversidade, em que todos têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações, basta que trabalhem e mostrem serviços e conquistas. O clássico baiano, com Fonte Nova, Barradão, Roberto Santos ou qualquer outro estádio apinhado de bandeiras tricolores e rubro-negras, com as duas torcidas fazendo a festa, com os vencedores gozando os perdedores, sempre foi e será uma marca de nossa terra.
Se for o caso de se coibir uma possível violência, segregando torcidas, daqui a pouco vai ser preciso que as autoridades instituam detectores para evitar que rubro-negros e tricolores transitem no mesmo dia ou hora a Rua Chile, que freqüentem ao mesmo tempo os shoppings da cidade, as praias, os festivais, os cinemas e teatros. Para ser mais contundente, tricolor vai ao Carnaval três dias e os outros três serão de rubro-negros.
O que falta é policiamento melhor equipado, é uma ação mais concreta contra os faltosos, porque a violência está campeando em todas as camadas da sociedade – e os governantes perderam o controle de como combatê-la.
Entendo que nada é mais saudável e bonito do que ver bandeiras dos dois clubes tremulando na entrada dos estádios; nada é mais desagradável do que esse apartheid, uma expressão inglesa surgida na África que traduzida significa “vida separada”, e nenhum ser humano, de raciocínio arejado, sem arrogância ou prepotência, pode viver separado de seus semelhantes, por maiores que sejam as diferenças.
O apartheid foi um regime pelo qual não-brancos eram excluídos e, também, vetavam os que estavam no poder lá na África do Sul, abolido em 1990 por Frederik Klerk e consolidado em 1994 com a eleição do negro Nelson Mandela para presidir aquele florescente país.
Não vamos, pelo amor de Deus, ressuscitar na Bahia esta terrível mazela social.