Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Holofote
Você está em:
/
/
Coluna

Coluna

A MÃO DUPLA DA VIDA

      A vida é como uma avenida de mão dupla, e quanto mais diversificada, os acontecimentos se sucedem a toda hora, tanto do lado sinistro quanto na essência mais prazerosa de se viver. É como se a todo o momento veículos de todas as potências trafegassem em nossas vias de entendimento, sem sinais de alerta ou semáforos para regular o fluxo daquilo que nos parece mais compreensível e coerente.
      Eu estava planejando um comentário alegre e de esperança para esta véspera de primeira rodada de campeonato. Afinal de contas, tanto os dois grandes da Capital (Bahia e Vitória), quanto todos do interior, começam com os mesmos objetivos, com a mesma vontade de brilhar, com os mesmos sonhos de levantar a taça. É perfeitamente concreto que tricolores e rubro-negros sempre entram com maiores possibilidades, porque dispõem de maiores torcidas e muito mais recursos técnicos, financeiros e estruturais. Mas não será um bicho-de-sete-cabeças pensar-se em um rumo diferente, como ocorreu em 2006, quando o valente Colo Colo acabou campeão em decisão contra o Vitória, ganhando os dois turnos, não precisando ir a uma final extra. E já foram assim dois outros anos, com o Fluminense de Feira, em 1963 e 1969, derrotando o Bahia em plena Fonte Nova. 
De repente, ao acessar o computador, preparando-me para digitar alguns conceitos sobre essas batalhas que se aproximam, encontro a triste notícia da morte de Geraldo Lemos, um dos maiores cronistas esportivos da Bahia de todos os tempos, um mestre que tive em meus primeiros anos de jornalismo e que sempre me incentivou a insistir nesta profissão.
Nas mais diferentes culturas, a concepção da morte está contida na própria concepção da vida e ambas não se separam. Só que, por mais que a gente saiba disso e ande dizendo que absorveu alguma coisa desse conceito, acaba não entendendo muito quando alguém que a se ama, venera ou respeita passa a habitar o outro lado, que é um universo, mesmo à luz de tantas informações doutrinário-religiosas, muito desconhecido, e imperdoavelmente renegado pela maioria absoluta dos que permanecem do lado de cá.
Não sei as condições da morte do meu mestre Geraldo Lemos, se sofria de alguma enfermidade ou se foi tudo muito repentino. O que sei agora é que acabamos de perder um homem inteligente, de extraordinária produtividade para a crônica e para a sociedade, um cara de uma generosidade muito difícil de ser encontrado nos dias atuais.
Quando eu deixei os Diários Associados, levado pelo amigo Mário Freitas para o Jornal da Bahia, no meado dos anos 70, Geraldo Lemos era o editor de esportes, de texto firme, coerente, muito bem centrado. Lá chegando, na velha Barroquinha, Mário me apresentou a Geraldo e a Pastori Neto, Geraldo editor de esportes, Pastori editor-geral. Mas foi Geraldo quem me acolheu, dizendo que Mário lhe dera boas informações a meu respeito e que ele precisava de um redator que, também, pudesse assinar uma coluna. E que ia me pagar o salário-base de um redator, mas se eu correspondesse, logo, estaria ganhando um pouco mais.
No fim do mês, ao ser chamado no Caixa da empresa, recebi um envelope com o salário triplicado e fiquei inquieto, até que conversei com Geraldo e ele me tranqüilizou: “Gostei de seu trabalho e, por isso, enviei uma CI ao diretor financeiro Enádio Moraes, pedindo três básicos (piso salarial), um de redator, um de colunista e outro de repórter”.
Mas essa atitude foi pequena diante de tanta grandeza com todos nós: eu, Mário, Mesquita, Alcoforado, Bougê e Dente de Leite, seus comandados, trabalhávamos com muito amor e zelo, porque, além de realmente gostarmos da profissão, tínhamos um chefe que nos ensinava não apenas como fazer as matérias, mas, com a mesma intensidade, como nos preparar para a vida de comunicadores eficientes e homens íntegros.
Como sou daqueles que acreditam que a morte finda apenas e tão somente a vida do corpo físico, e que alguma essência sobrevive no plano espiritual, até mais forte e intensa do que neste mundo velho de provações, repousa-me a fé de que um homem como Geraldo Lemos deva estar agora entrando em uma nova fase de existência, usufruindo da farta colheita das sementes sempre muito saudáveis que plantou.
Ah, sim, por este momento doloroso, prefiro desejar que todos os clubes sejam competentes em suas estréias e que vençam os que realmente tenham se preparado com critérios mais justos e profissionalmente eficazes.