DESLIZES TÉCNICOS
Quando eu ainda era estudante, no início dos anos 70, tive um professor, engenheiro muito competente, mas que tinha a triste fama de haver construído um edifício de 12 andares sem escada, com o material subindo e descendo por um elevador improvisado por fora da construção. Aí, contam as más línguas, foi um terrível bafafá para desfazer quase tudo, até que ele orientou o mestre-de-obras para não se esquecer da escada, andar sobre andar.
Agora, o exemplo se repete com o estádio de Pituaçu, pois gastaram mais de 50 milhões de reais, até fizeram uma reforma muito proveitosa, só que se esqueceram de fazer as vias de acesso para 35.000 torcedores. Para os que defendem o Governo são lapsos perfeitamente reparáveis, até porque os melhoramentos da obra ainda não foram inaugurados. Mas esse deslize técnico assenta muito bem em ações públicas, geralmente feitas sob o impacto da emoção, da necessidade de buscar prestígio, sem um planejamento mais definido e sem um organograma dentro do rigor que o dinheiro do contribuinte exige.
Os supersticiosos dizem que há várias cabeças de burros enterradas no estádio, que já começou sendo construído pelo governador Roberto Santos sem vários requisitos de uma estrutura moderna, depois jogado no arquivo de mortos e perdidos pelos governantes da era ACM e, neste processo de reforma, com tantos atropelos e descasos, que intrigam qualquer ser racional. Foi obra começando sem licitação, datas e mais datas sendo riscadas da planilha, ladrões entrando na calada da noite e levando caminhões abarrotados de material, agressão ao meio-ambiente, cálculos errados sobre os custos definitivos, uma zorra infernal que culmina com a presente e lastimável situação: o público, em dia de lotação total, não vai ter por onde entrar, a não ser que suba em ribanceiras ou trilhas que levam ao parque florestal, onde se encontra instalada a praça esportiva.
Acho até que está havendo certo exagero, mas como representantes dos poderes do Estado e do Município já falaram que não há briga política, mas uma falha técnica que merece reparo, fico na expectativa do dia que realmente poderemos ter jogos no EMP. E quantas pessoas realmente vão poder ser abrigadas, além do total de 16.000 já estabelecido para a primeira partida.
Um tricolor, aparentemente irritado, me perguntou qual o problema que tanto persegue o Bahia quanto à questão de não ter teto para jogar e a resposta me parece muito prática: é porque o campeão brasileiro, de uma torcida tão fantástica e fiel, nunca se preocupou em deixar de pagar aluguel e construir a sua própria casa. No dia que isso acontecer, esses problemas serão do passado. Aluguel é assim: a gente paga em um dia e no outro já começa a dever.
Mas como estou sabendo que o novo gestor do futebol do Bahia, o ex-rubro-negro Paulo Carneiro levou também a idéia de construir a arena multiuso que ele tanto idealizou para o Vitória, não só o tornará um merecido herói tricolor, mas, também, resolverá de uma vez por todas o grande drama de seu novo clube.
A reinauguração de Pituaçu agora estão acenando o domingo 25, disponibilizando-se apenas 16.000 lugares. O problema, diante de tantas indefinições, ainda passa por algumas confirmações: se realmente a data vai ser mantida, se o público será este mesmo e se os torcedores do Bahia não vão promover uma série de manifestações de protesto, que entendo ser normal, desde quanto feita com organização e sem violência.
Até que sejam superados esses deslizes técnicos.