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O INIMIGO AMIGO

Eu não lhes disse que o até ontem rubro-negríssimo Paulo Carneiro acabaria sendo muito bem recebido pelos tricolores por mais fanáticos e orgulhosos que fossem? E ainda teve companheiros que duvidaram, colocando dedos e dentes em meus conceitos.
Na vida, gente, é assim: o inimigo de meu inimigo pode acabar, em momentos de extrema dificuldade, no meu maior amigo, capaz de me tirar de enrascadas, instrumento certo para provar em juízo e no povo de que eu estive sempre com a razão. Vejo este inusitado episódio desta forma: o maior inimigo da torcida e dos dirigentes do glorioso Bahia acaba sendo um grade “amigo”, porque neste momento o clube do Fazendão passa por tamanha dificuldade, que foi preciso recorrer a um inimigo de outrora que, agora, é o maior inimigo do seu maior rival, o Vitória, porque todos nós sabemos que onde há bipolaridade de disputa, um clube é mortalmente inimigo do outro. E PC atualmente é inimigo do Vitória, está de peito e alma feridos, quer mostrar que foi injustiçado quando o fizeram renunciar de seus planos e de suas ações no Leão. E ninguém é melhor para conhecer os erros tricolores do que quem esteve tanto tempo do outro lado, arquitetando com eficiência e sagacidade, dia e noite, uma forma de derrubar o adversário.
Uma vez, li que os nossos inimigos são os melhores “amigos”, porque nos mostram o que não devemos fazer e o que devemos ser. Eles são tão cruéis quanto verdadeiros; são tão pesquisadores de nossas vidas bem mais do que nós mesmos. Porque a gente sempre releva nossos deslizes e imperfeições; eles realçam todas as nossas mazelas, sem perder um só fio de nossos labirintos existenciais.
É assim que vejo este enxerto no Bahia, sem o espanto de pessoas que, até outro dia, pensavam que um fato assim seria o fim do mundo. Ninguém pode desconhecer a capacidade de Carneiro nem a ousadia do jovem Guimarães. Mas não há por onde se negar que esta mudança ainda nos reserva vários capítulos que só os resultados em campo vão determinar as suas verdadeiras reações. Se der certo, vai ficar na história como a maior tacada do novo século; se der errado, vai ter cacos voando por toda a cidade. Mas essas coisas, conforme disseram os dois maiores personagens deste evento (Marcelinho e Paulo) são os ingredientes disponíveis de uma atitude tão arrojada e extravagante.
Nesta fase de aquecimento a lua-de-mel tem sido a mais prazerosa possível: PC tira o rótulo de dirigente e se qualifica como um executivo em disponibilidade, MGF reitera que não tem preconceito em convocar para a primeira fila de seu exército um ex-inimigo e a maioria da torcida tricolor confessa que apesar de inimigo detestável de poucos anos atrás, o novo aliado sempre foi muito competente.
De uma coisa já temos certeza: a contratação de PC pelo Bahia traz uma motivação incalculável para o futebol baiano em 2009. Agora, se o Bahia tem uma proposta firme para voltar a ser vencedor, o seu maior rival, que vem jogando solto nesta primeira década de 2000, já foi avisado que tem de se aplicar muito mais para manter-se em ótimo patamar. Vai ter que investir mais, tanto em reforços quanto em criatividade, vai ter que correr mais acelerado e mais unido do que nunca em busca dos seus grandes anseios.
Porque se um inimigo passou a ser amigo entre os rivais, no rubro-negro é momento de exercitar com toda fortaleza os princípios de uma amizade produtiva: sem divisões, sem rachas, sem traições.