O IMPOSSÍVEL ACONTECE
Em meus primeiros tempos de leitura jornalística, a extinta revista “o Cruzeiro” trazia uma página que contava coisas impossíveis que aconteciam pelo mundo afora. A mulher que tinha barba e pêlo de macho por todo corpo, o homem que pariu na longínqua Indonésia, o cara que nasceu com pinto e perereca, o caipira que transava com a vaca, o menino-macaco que pulava de uma árvore pra outra sem o menor esforço, o propagandista que comia gilete e engolia vidros e pregos.
O tempo passou (e quanto tempo!) e essas coisas foram ficando banais, algumas delas tão repetidas que nenhum periódico que se respeita vai andar divulgando bobagens assim. Agora estamos no tempo da cibernética, da robótica, da tecnologia avançada. Outro dia, uma menina filha de parente rico chegou à minha tapera com uma enorme boneca, quase do tamanho dela, cara, tronco e membros bem humanizados, até fiquei pensando que a sapeca carregava outra menina nos braços. De repente, ela apertou um botãozinho na nuca da boneca e não é que saíram umas dezenas de frases muito bem coordenadas e audíveis: “Mamãe, quero mamar”, “Estou com sono”, “Faça cafuné em mim”, “Papai já chegou?...”
Olha que eu não sou tão bobo assim, mas confesso que fiquei impressionado. Nem havia lido isso na Internet, mas somente agora, depois de internautar muito, é que encontrei essa novidade. Inclusive até nos nossos Shoppings já existem, mas somente para presentear meninas ricas, porque custa uma nota danada. Aí fiquei pensando nas reportagens da saudosa revista dos Diários Associados.
De repente, pintou uma novidade que àquela altura custava qualquer um acreditar: as eleições do Bahia foram suspensas na véspera, quando todos já davam como certa (e ainda dão) a vitória do deputado Marcelinho Guimarães, filho do ex-presidente, ex-deputado do mesmo nome, afinal por isso é que todos o chamam de Marcelinho. A oposição, que antes parecia acéfala, liderada por Fernando Jorge, botou o dedo no suspiro e conseguiu temporariamente suspender o pleito.
Por que o impossível acontece? Porque são tantas as manhas e artimanhas na política deste clube que é bem possível que, neste exato momento, quando esta crônica está sendo colocada no ar, o Bahia já tenha até o seu presidente eleito. Porque foi sempre assim, desde os meus primeiros tempos de cronista em Salvador. Era uma armação sem fim - e quem implantou isso no futebol baiano foi o velho Osório, que nem tricolor era até o dia que assumiu o clube e de lá só saiu quando foi levado para o Campo Santo. É sabido que mesmo fora da presidência executiva, presidiu o Conselho Deliberativo por um montão de tempo, mandando e desmandando nas decisões administrativas do clube. Depois veio Paulo Maracajá, que até hoje a grande parte da torcida reclama que ele é quem decide tudo.
Aliás, volto a externar o meu sentimento de que tanto Osório quanto Maracajá foram dois grandes presidentes - inclusive, já elegi Maracajá como o maior de todos eles, não apenas porque deu um campeonato nacional e um caminhão de títulos estaduais, mas porque, também, projetou a imagem do clube. Mas os tempos mudaram e o Bahia continua fazendo coisas impossíveis, começando por teimar em ficar fora de uma primeira divisão por seis longos anos, já que cinco se completaram e em 2009 já tem o mesmo triste endereço, completando por deixar dilapidar o seu patrimônio, porque tanto sede de praia quanto Fazendão estão entregues às baratas e aos mosquitos da dengue.
Quando me perguntam se sou contra ou a favor de Marcelinho tenho respondido que nem contra nem a favor, apenas esperando o que este jovem vai fazer de positivo. Acho que esta deve ser a postura de qualquer cronista comprometido apenas com a sua profissão de analisar. Seu discurso até que não é desprezível, mesmo já deixando nas entrelinhas que vai buscar um ex-rival, Paulo Carneiro, algoz incondicional e detestado de poucos anos atrás, para resolver os problemas que são tantos que parecem fugir à capacidade de qualquer tricolor. Já disse também que considero PC o maior inovador do futebol baiano de todos os tempos, mas isso não elimina a clareza de que o Bahia chegou a tal ponto de miséria que tem que buscar um fervoroso devastador para encontrar os seus caminhos, perdidos no espaço e no tempo.
Taí uma boa oportunidade para algum jornal, TV ou impresso semanal resgatar a velha seção da revista “O Cruzeiro”: e se não puder usar o velho título, nem que “Tudo é Possível”, porque já existe até um programa da Adriana, na Record, com esse slogan, é só colocar como manchete que no Bahia, de Waldemar Costa, Osório e Maracajá, de Zoinho, Binha de São Caetano e da maior e mais fiel torcida do Norte/Nordeste do Brasil “Tudo pode acontecer”.
Até peço desculpas se tudo já tiver andando por outra estrada. É não é a mesma coisa de que o “Impossível acontece?”