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O PREÇO DO ORGULHO

Se havia uma coisa que se poderia qualificar nesta cidade como orgulho irreversível sempre foi o fato de o cara gritar que era tricolor da gema, da nação tricolor, com duas estrelas de campeão brasileiro no peito, primeiro do Brasil e único da Bahia a participar da Copa Libertadores, que enchia a Fonte Nova em jogos até de terceira divisão, a maior torcida do Norte-Nordeste do país, time de chegada, que não morria - como o Vitória - na beira da praia.

Quando o rubro-negro cresceu e passou a ter um desempenho melhor, a rivalidade ficou mais intensa. Porque a torcida do Bahia mostrava que tinha mais história e a do rival que águas passadas não movem moinho. Uma rivalidade tão saudável quanto intensa e compreensível. Aliás, porque fui assessor de imprensa dos dois clubes, posso dizer que se um bom exemplo adversário era citado por algum profissional, o sujeito ficava com a cabeça a prêmio, porque o que não faltava era diretor xiita, fazendo a cabeça do presidente para por na rua quem se atrevesse a achar que alguma coisa era certa no rival. E esta rivalidade foi sempre muito latente.

No presente ano, com o Bahia sem estádio para jogar em Salvador, diante da tragédia da Fonte Nova, tendo que recorrer a Feira de Santana, 108 quilômetros distante e sem boas perspectivas de renda, abriu-se a possibilidade de alugar o Barradão, mas não houve acordo. De um lado, os tricolores ressabiados pelos achincalhes que fizeram com o estádio rubro-negro, denominando-o de lixão, do outro os rubro-negros, ressentidos e vingativos, fazendo descaso, ganhando tempo, fazendo o arquirrival sofrer na carne as lancetadas da gozação em dias de clássico, quando até seus torcedores usaram máscaras e proteções contra insetos, maus-cheiros e possíveis epidemias. 

De repente, a conhecida história de devolver o velho e vencedor Bahia em mais uma conturbada eleição. Não faltaram os clamores, as acusações, as premissas de uma oposição que acabou não se explicitando. Aí veio a renovação dentro dos velhos hábitos. Renovação, não, revolução. O deputado Marcelinho Guimarães, filho de um recente presidente, de passagem ainda maculada pelos fracassos técnicos e desencontros administrativos, lança-se candidato, com um discurso no mínimo espantoso, quase inacreditável: mudança geral.

E foi justamente detonar com o velho orgulho tricolor, porque está anunciando como meta principal entregar o futebol ao maior responsável pela inquestionável depressão de seu clube. Quem há de contestar agora que não tenha sido Paulo Carneiro o maior artífice dos seguidos insucessos tricolores? Afinal foi ele que, nos primeiros anos da década de 90 implantou uma política vitoriosa no maior adversário. Mudou o perfil do futebol baiano. Deu estrutura do Vitória, viabilizou definitivamente o Estádio Manoel Barradas, projetou o seu clube no país e no mundo, porque, além da conquista da hegemonia local e do Nordeste, também se impôs em competições nacionais com o time profissional e foi buscar prestígio em todo exterior com a Divisão de Base.

O Bahia, que era praticamente a nossa maior referência futebolística, passou a segundo plano. Apequenou-se, encolheu-se em atitudes domésticas, não raras vezes de resultados inexpressivos e grandes fracassos. O Vitória cresceu, mostrou a cara lá fora, com Paulo Carneiro não apenas esteve na frente em campeonatos, mas, também, liderou movimentos de libertação e de audácia.

Claro que PC teve os seus percalços e pagou caro pelo seu temperamento avassalador. Mas até essas coisas a atual sede de superar a crise tricolor parece superar, e abre as comportas de seu velho orgulho para pedir socorro a um quase mortal inimigo tão velho quanto. Por entender que em suas fileiras não há gestor com tanta visão e tanta ousadia para superar o tamanho das dificuldades e do atraso.

Se eu, que trabalhei diuturnamente com PC, durante mais de uma dezena de anos, como assessor de imprensa do clube, muitas vezes seu confidente – e pelo senso de observador – posso emitir uma opinião, asseguro que, se tudo isso for confirmado, vai ser a tentativa do tudo ou nada. Porque Paulo não aceita ingerências em seu trabalho, nem de dirigentes, conselheiros ou torcedores. E o Bahia vai ter que fazer outra revolução, além de levar PC: deixar de ser dirigido de fora para dentro.

Do contrário, a efervescência será inevitável, os conflitos serão um prato feito para a mídia e o Bahia vai ter que se aplicar muito para caminhar certo por essa nova estrada. Porque o velho orgulho tricolor, agora deixado de lado com essa decisão anunciada pelo futuro presidente, poderá ser reativado com grandes conquistas ou sepultado por uma tentativa frustrada. Encontrei, neste início de semana, enquanto fazia compras em um supermercado, um velho tricolor, que se apresentou como Brandão, de comentário bem singular: “A que ponto, comentarista, chega a crise tricolor, ter que buscar o nosso maior algoz para resolver os nossos problemas. Sinto-me com o orgulho ferido e desmoronado”.

Mas todo orgulho, Brandão, mantido ou superado, tem o seu grande preço.