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A HORA DO ALÍVIO

Outro dia, ouvi em um desses programas de cursos matinais na TV um monte de significados para a palavra alívio: refrigério, conforto, consolação, diminuição de peso ou carga, diminuição de sofrimento... Mas, agora, depois do que acaba de acontecer com Bahia e Vitória, vejo que uma outra expressão pode ser acrescentada, a de que alívio é a sensação de que estivemos à beira do abismo e praticamente no momento fatal, conseguimos pelo menos não cair no fundo do poço.
O Bahia, aliás, um clube de realce nacional, bicampeão brasileiro, de uma torcida fantástica e participativa, quase volta à Terceira Divisão. É incrível saber que times de menor expressão, como Avaí, Santo André e Barueri, desde as primeiras rodadas da Série B estiveram disputando os primeiros lugares, atingiram os seus objetivos, e o nosso grande Esquadrão de Aço sequer transitou uma só das trinta e oito rodadas a faixa dos classificáveis. Eu até concordo que o Corinthians, pela história e mercado que possui, tenha entrado como maior favorito, mas se a gente olha sob a visão de uma realidade, o outro favorito seria o Bahia – mas não fez por merecer este favoritismo, não investindo em bons jogadores, deixando de planejar com eficiência, completamente fora da atual febre do empreendedorismo, que tanto se fala na mídia.
O Vitória até que começou bem o seu campeonato da Série A, depois de ter ultrapassado, com certa eficiência, as barreiras da Terceira e da Segunda Divisão, onde também esteve envolvido, purgando pecados e imprevidências. Chegou a ser apontado, ao longo de todo um primeiro turno como um dos candidatos ao título. Mas desandou. Seu técnico, Wagner Mancini, perdeu o ponto de equilíbrio, mudando o time constantemente, desentendendo-se frequentemente com alguns jogadores – e o declínio foi realmente vertiginoso. O problema é que a três rodadas do final da Série B o Bahia ainda corria o risco de voltar a amargar os rigores e as humilhações de uma nova Terceira Divisão e a duas da Série A o Vitória ainda estava sujeito a ter que disputar até o último ponto para não cair de divisão.
Mas, nesta última semana, tudo se aclarou: os dois vão continuar disputando o campeonato em que estão. O Bahia, que ainda tem um jogo a cumprir (contra o Gama, em Brasília), já confirmou que não cai há duas vitórias em Feira (2-0 CRB e 2-1 Marília) e o Vitória somente neste domingo é que deu o ar da graça, goleando o Grêmio (4-2), depois de levar quase dois meses empacado em 45 pontos, sem ganhar de ninguém e num penoso jejum de gols. Agora, faltando-lhe dois jogos (Palmeiras aqui e Vasco fora), não apenas baniu o risco de degola, como, também, parece haver assegurado uma vaga para a Sul-Americana, dependendo de um pontinho só nos seis que ainda vai disputar.
Acho que este alívio que estamos vivendo, tanto os torcedores quanto os dirigentes e a própria imprensa, deve servir de exemplo para uma retomada de posição. No momento em que o Bahia se articula para eleger o seu novo presidente e o Vitória para melhorar ainda mais o seu desempenho nacional, é fundamental que se tenha na cabeça não essas bobagens de rivalidades exageradas e odientas, mas a convicção de que ainda precisamos adotar uma postura mais profissional para alcançar os verdadeiros objetivos de um centro esportivo (Salvador), que é a terceira mais populosa capital do país. Ainda somos vítimas do provincianismo, da pouca criatividade, da falácia em lugar da ação concreta e rentável. Semana passada, ouvi de um pretenso candidato à presidência Tricolor a preciosidade de que ele quer um Bahia forte para calar as gozações dos Rubro-Negros; e duas semanas antes, os dirigentes do Vitória contratavam uma auxiliar de cozinha grevista e demitida do rival, só para mostrar quanto os adversários são desumanos.
Falta, de um lado e de outro, um projeto mais abrangente e mais audacioso. Até que o Vitória está mais à frente, embora ainda seja muito pouco para um futebol que precisa caminhar de forma mais acelerada e com resultados mais compensadores. Estamos aliviados, sim – mas, por enquanto, é um alívio que nos tira apenas o peso e o inferno de cair para divisões inferiores.