A VERDADE É IMPLACÁVEL
Não faz tempo, diante da bela campanha do Vitória na primeira fase do campeonato, o ambiente na Toca era modelar. Diziam que não era um time de futebol, mas uma família que se respeitava, sempre aberta ao diálogo, de comportamento exemplar, que se amava dentro ou fora de casa, isto é, no campo, na concentração e na rua.
E disseram muito mais: que, com os salários e prêmios rigorosamente em dia, com o clube recolhendo todas as taxas previdenciárias e trabalhistas, só havia motivo para satisfação, alegria e paz. Que o técnico Wagner Mancini, jovem, tratável e inteligente, tinha sob suas rédeas todo o grupo, como se ele fosse um pai amoroso e os atletas seus filhos disciplinados e adoráveis.
Apesar do escaldante verão que está sendo anunciado em Salvador, quem bateu mesmo na Toca foi um inquietante inverno de maus resultados, desencontros, incoerências e incompatibilidades – e então outras verdades, cruéis, prejudiciais e desgastantes, vieram à tona. O técnico parece ter perdido o comando sob o grupo, já não tem encontrado uma receita para fazer o time andar em campo e os irmãos unidos começaram a entrar em terríveis conflitos, inicialmente brigas verbais, agora agressões físicas, a ponto de um deles, o Adriano, ter que fazer uma radiografia do nariz no hospital, por causa de uma cotovelada desferida por Carlos Alberto, afastado do time, porque o descontrolado pai Mancini entendeu ter sido um golpe proposital, o que gerou fortes queixas do lateral, abrindo o leque e dizendo que o treinador o tem perseguido desde que chegou para o rubro-negro, parecendo mais um padrasto raivoso.
No Bahia o desconforto de relacionamento entre o conselheiro maior Paulo Maracajá, em cujas mãos e cabeça sempre passaram todas as decisões administrativas do Bahia, e do diretor de futebol Ruy Acioli, sempre foi envolvido sob a camuflagem de que pessoas civilizadas, mesmo que não se gostem muito, acabam se entendendo com certa altivez, principalmente quando julgam que estão discutindo ou resolvendo uma causa nobre. E sempre disseram que o Bahia é uma causa nobre, aquele papo de nação tricolor e questão social.
De repente, as aparências ruíram e o que se fala é que, ao comandar uma reunião para referendar o nome do deputado Marcelinho Guimarães a presidente do clube, sem o conhecimento de Maracajá, está explicitada uma grande desavença entre os dois dirigentes. E há os que afirmam que Maracajá, sempre muito ético ao falar sobre a questão, não vai deixar por menos – e um contragolpe mortal está sendo preparado.
Vou reafirmar o meu velho ponto de vista: concordo que Maracajá não pode continuar como eminência parda, mandando sem ser oficialmente o presidente, que os tempos são outros e que o Bahia precisa mudar de projeto administrativo. Mas, até hoje, nos meus quarenta e tantos anos de imprensa esportiva, nunca vi um cartola que tenha trabalhado mais pelo tricolor. Esperto, com trânsito em todos os segmentos do esporte, conhecido nacionalmente, Maracajá é o mais vencedor de todos os tricolores mortos e vivos.
O que a maioria dos tricolores me diz é o seguinte: se Maracajá der seu tempo integral ao Bahia, ele é e sempre será o maior nome para ser o presidente. O problema é que ele não quer (ou não pode) deixar agora o Tribunal de Contas do Município, onde ocupa cargo de relevância. E nunca quis ganhar salário do clube, o que acho incompatível com os tempos modernos e globalizados. O cara trabalho, tem que ganhar salário, sim. Outra coisa: com Maracajá ou outro qualquer o que o grande bicampeão brasileiro mais precisa no momento é se planejar, se modernizar, abandonar esses princípios arcaicos, que só assentam bem para torcedores fanáticos e fora de órbita.
Ditas essas coisas sobre os nossos dois grandes times, volto a lembrar dos conselhos de minha saudosa mãe Zefinha, que empresto agora aos cartolas rubro-negros e tricolores: “meu filho, a verdade é implacável, porque consegue ser a única testemunha que não deixa dúvidas sobre qualquer discussão”.
Além desse forte conceito, ela me ensinou ainda que “as aparências mentirosas não somente enganam como, também, servem para tornar mais dolorosas as decepções na hora do esclarecimento”.
E Bahia e Vitória estão realmente vivendo o triste momento de uma contundente e implacável verdade..