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A MADRINHA ZIZI

Quando eu era menino – e isso já faz um bom tempo -, meus pais costumavam me levar para receber a bênção dos meus padrinhos Dudu e Zizi Berbert, em sua rica fazenda, a Sempre Viva, bem próxima da nossa rocinha lá no interior. Isso acontecia em todos os sábados.
Eu, negócio de seis, sete anos de idade, chegava sempre muito capiau, roendo as unhas e com a curiosidade contada pelos meus irmãos mais velhos de que havia um tesouro no porão da casa grande. Meus padrinhos eram pessoas diferentes, não sei de exóticas ou excêntricas. O padrinho, mesmo que não estivesse à beira da porteira olhando as belas cabeças de vaca holandesa que tinha, andava sempre com botas canos longos, esporas nos calcanhares, riscando o soalho da suntuosa morada. Dinda Zizi sempre a encontrava com a sua caixa de costuras, pregando os botões dos ternos do dindo. Eu até me questionava, só agora sei, porque davam valor a tanta roupa velha, com tanto dinheiro guardado no colchão, como diziam os mexeriqueiros da época.
Mas o que me marcou mais nestas visitas aos meus padrinhos foi um poema que a doce madrinha Zizi me dizia, depois que eu pedia a sua bênção e perguntava como é que ela estava: “Afilhado, por enquanto, nada de novo/gente velha só tem um tema/se todo dia quebra um ovo/só descobre clara e gema”. 
Muitas vezes, fiquei pensando que a minha madrinha não batia bem da cabeça, que era uma atoleimada, que era calma assim, mas que a qualquer momento poderia se levantar daquela cadeira, jogar os apetrechos de costura pra cima e mostrar o lado verdadeiro de sua personalidade.
 Neste sábado, depois de mais uma acachapante e desmoralizadora derrota do Bahia contra o Bragantino (4-0) e da teimosia do técnico do Vitória, que perdeu para o Náutico (1-0), não apenas pela lastimável atuação do árbitro, mas com a ajuda de Wagner Mancini, que insiste em colocar em campos jogadores incapazes, começo a entender a paladoxia de minha Madrinha Zizi. O que ela queria dizer é que as pessoas precisam se renovar, arejar as idéias, exercitar novas atitudes.
Há coisas realmente que são como ovo, só clara e gema, nada de novo, como o que tem ocorrido ultimamente com os nossos dois grandes clubes. O técnico do Bahia, Ferdinando Teixeira, faça-me o favor, lembra-me uma mistura dos saudosos Sotero Monteiro e Santos Leite. Sotero, depois de cada jogo, conseguia, com uma linguagem até gostosa de ser ouvida, mudar os resultados. Era o gol que não foi feito, o que não poderia ser tomado, o pênalti mal marcado, o pênalti que o árbitro não viu. E Santos Leite, tão folclórico e simplório que foi, acabou até inventando a preciosidade de um tal de esquema “enxuga-rato”. Agora, imaginem só o cara sair correndo atrás de rato molhado, com uma toalha na mão, para deixar os roedores enxutinhos. Negócio de doido.
Vou e volto: pobre de nós se não houvessem essas pessoas que vivem sob o devaneio de suas imaginações. Pobres cronistas como eu, que precisamos de assuntos para comentar todos os dias, acabaríamos sentados no meio-fio, tentando engolir bagaço de cana misturado com chicletes e banana.
Agora, mesmo tendo três jogos em casa, teoricamente fracos (Brasiliense, Marília e CBB), e só precisando ganhar mais uns seis pontos, todos já estamos ficando temerosos com a possibilidade de o Bahia cair para a terceira divisão.
E o Vitória? Ainda tem, no Barradão, Atlético/MG, Palmeiras e Grêmios, todos ossos duríssimos. Porque lá fora, contra o Atlético/PR e o Vasco da Gama, a gente já sabe que, se depender da teimosia de Mancini, é pau certo.
E aí dindinha Zizi tinha razão: nada de novo quando se quebra o ovo.