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SIRI NA LATA

Que a torcida do Flamengo é um fenômeno em qualquer lugar deste país, sendo mesmo uma paixão mundial, não tenho a menor dúvida, acho bonito e um das maiores motivações do futebol brasileiro.
O que não concordo é com o provincianismo que ainda exercitamos, a ponto de a gloriosa mídia de minha terra ter dado tanto destaque ao clube carioca que mais parecia o Santos de Pelé, naquela fase que o "rei" tentava marcar o seu milésimo gol. Uma histeria geral, conheço um cara que levou a calcinha da namorada para o Obina beijar e o califon da mãe para Leo Moura passar naquela linda cabeleira de pica-pau.
Para ser mais prático e acessível, o que quero dizer é que, desde a segunda-feira, quando o time carioca aqui chegou, o Vitória, que é o nosso legítimo representante na primeira divisão, assumiu um pálido papel de coadjuvante indesejado, sendo até pressionado a reconhecer que já entrava em campo como perdedor.
Foi isso mesmo: o Flamengo foi cantado em verso e prosa, tido e havido como mais qualificado time do campeonato, chegaram a prevenir o Vitorinha da possibilidade de levar uma solene goleada. Até esqueceram que o rubro-negro nativo andou armando uma remandiola para o "mengão" em pleno Maracanã, surrando-o com um gude preso, no primeiro turno.
Ainda agora, não posso esconder a minha ironia ao dizer que ouvi espantado um locutor local gritando que o Flamengo foi a coisa mais perfeita que ele viu pisar no Barradão nos últimos tempos.
O Fla é fenômeno, o Corinthians também o é, porque são dois clubes que colocam milhares e milhares de torcedores em qualquer estádio brasileiro - e o Flamengo tem uma paixão bem maior, que contagia a todos - mas daí até fazerem o oba-oba que fizeram, é negócio de tupinicanagem. Aliás, o que fizeram antes da partida foi mais do que oba-oba, foi terrorismo contra o time da terra coitado, que pode até ter os seus defeitos, alguns jogadores que já não produzem mais o mesmo futebol do primeiro turno, mas que cumpre um desempenho muito digno na competição. Está muito longe de qualquer possibilidade de rebaixamento e já alcançou vários resultados expressivos.
Mas somos ainda muito provincianos. Há um ditado chinês que fala que quem segue os outros ou não valoriza a sua própria raça, está sempre atrás, pois nunca poderá ser o primeiro.
Estou de alma lavada, mesmo com um zero a zero. E sabem por que? Porque a tal da máquina carioca teve que suar para conseguir o empate. E mereceu perder. Se houve um time que dominou mais, criou mais, esteve mais perto do triunfo, foi o Vitória.
Há coisas que não consigo entender. Fui ver os gols na TV e fiquei chateado com a vitória do São Paulo. O gol do Botafogo anulado, que seria o do empate em 2x2, teve um desfecho parecido com aquele que o Vitória levou no Morumbi. O Lucas fez o gol e o árbitro de Brasília, um tal de Sérgio Carvalho validou, mas depois foi consultar o seu comparsa também do DF, Renato Vieira, e meteram a mão no Botafoguinho.
Voltando ao bom jogo do MB, em que o Vitória mostrou que realmente é o dono da casa, mesmo com empate, deixou muita gente de cabeça inchada. Porque o "Mengão", maravilha do mundo, já não figura no G-4. Vanderson jogou muito. Esse Renan, que considero um ótimo apoiador, tem ainda outra grande virtude, a de explicar tudo certinho sobre os jogos que participa. Bom de bola e de palavra.
 Este foi um jogo onde se repetiu a velha estória lá do meu interior, que fala do siri na lata. Muita zuada e pouca presença.