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NAS MÃOS DE DEUS

 Vamos ser práticos sobre o Bahia: para alcançar nestes próximos quatro jogos a última vaga do G-4, atualmente ocupada pelo Avaí, com 10 pontos de vantagem sobre o tricolor (42x32), vai ser necessário ganhar todos, enquanto o time de Florianópolis não pode fazer mais do que um único ponto. E nestas tais batalhas, o Bahia joga contra Criciúma, Paraná, Ceará e Juventude; o Avaí diante de Fortaleza, Vila Nova, América e Ceará. E os dois mais fracos adversários dos catarinenses nesta série (Fortaleza e América) serão na Ressacada.
 Nem leva a nada comparar com o que podem fazer o Corinthians (51 pontos ganhos e 19 de vantagem), Vila Nova, que já chegou aos 44 e Santo André, 43. O drama é que a diferença para o quarto colocado já é tão grande (10 pontos), que todas as simulações têm que ser contidas por aí. Para um torcedor fanático é muito simples: o Bahia ganha os quatro próximos jogos e o Avaí perde três e empata um.
 Mas à luz das probabilidades concretas, está muito difícil. Só as desculpas e motivos serão variados. Neste último sábado, a derrota contra o Barueri (3x2) foi porque o Roberto Cavalo foi uma cavalgadura na hora de substituir; no jogo seguinte é porque o gramado do Jóia anda muito mal cuidado; depois é porque havia excesso de jogadores no DM ou suspensos por cartões amarelos e vermelhos; mais tarde é o árbitro que deixou de marcar um ou dois pênaltis – e a melancólica campanha vai se arrastando, até quando não tiver mais jeito matemático.
 Acho que chegou o momento de os dirigentes e a torcida colocarem a cabeça para pensar e os pés no chão. O que o clube tem mais que fazer é planejar a próxima temporada, evitando, a partir de agora, contratações que só vão aumentar as despesas, orientar o técnico a dar chances aos garotos da divisão de base, pensar no futuro, porque as chances de classificar são tão mínimas (os estudiosos falam em 2%), portanto parece não adiantar mais qualquer tipo de investimento para esta temporada. Enquanto isso, as chances do Avaí são de 68%, do Santo André (74), do Vila Nova (78) e do líder Corinthians (99%).
 Pior é que, ainda sem estar no G-4 e com muito mais chances do que o Bahia estão o Ceará (3%), Ponte Preta (13), Bragantino (17) e Barueri (37%). Para o cálculo das chances de classificação são considerados o mando de campo dos jogos e o retrospecto das equipes na competição. O sistema de cálculo permite comparar os clubes não apenas pela pontuação ou aproveitamento, mas também pela dificuldade dos jogos de cada equipe, avaliada em função dos adversários e do fator local. A mais dolorosa equação tricolor é que só ganhou oito jogos em 23 disputados e, agora, vai ter que vencer um mínimo de 10 nos 15 restantes!
 Entendo ser impraticável ficar discutindo o sexo dos anjos, que Roberto Cavalo fez muito errado quando sacou o Rafael, que jogava bem, e fez entrar o zagueiro Cléber Carioca; que Fábio foi infeliz na jogada do primeiro gol, etc e tal... Porque essas ocorrências já são antigas, há uma década de desencontros e imprevidências.
 O Bahia, então, tem que ser repensado. Qualquer que seja a intenção dos atuais dirigentes para as eleições de dezembro, se vão lutar para ficar ou jogar a toalha, tem que haver, desde agora, um novo planejamento, já visando a próxima temporada. Mas tem que ser um planejamento corajoso: ou descobre os recursos para formar um grande time ou, então, alerta a torcida para se contentar com garotos da base, mesclando-se com alguns jogadores de fora, mas de grande envergadura. E tem mais: não prometer títulos nem glórias em curto prazo.
 Tenho ouvido alguns críticos ferozes – torcedores ou até companheiros da imprensa -, exigirem um planejamento radical, mas, ao mesmo tempo, falarem “porque somente assim o Bahia poderá dar grandes alegrias no próximo ano”, como se uma retomada de posição no futebol ou na própria vida fosse como um estalar de dedos ou piscar de olhos. Toma-se a decisão e os resultados vão aparecendo como chuva de tempestade. Não é nada disso. Como dizem os pastores e vigários, tem que perseverar, ter fé em Deus e na vida, trabalhar, fazer por onde alcançar a graça do sucesso.
 Falar nisso, vale lembrar também aqueles habituais diagnósticos médicos para pacientes muito debilitados, como o nosso tricolor se encontra agora. Quando a situação começa a ficar crítica, o doutor chega e diz para a família do enfermo que “tudo vai depender das próximas horas”, mas quando o negócio se complica mesmo, a sentença é a que serve para o nosso representante na Série B: “está nas mãos de Deus!”