Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Holofote
Você está em:
/
/
Coluna

Coluna

Opinião: O Nordeste já mostrou que quer a Seleção Brasileira, mas a Copa do Mundo Feminina ignorou o recado

Por Thiago Tolentino

Opinião: O Nordeste já mostrou que quer a Seleção Brasileira, mas a Copa do Mundo Feminina ignorou o recado
Foto: Maurícia da Matta / Bahia Notícias

Há pouco mais de dois anos, 31.547 pessoas ocuparam as arquibancadas da Arena Fonte Nova para assistir à Seleção Brasileira Feminina. Era junho de 2024. O Brasil goleou a Jamaica por 4 a 0, Marta marcou duas vezes e Salvador recebeu o último amistoso da equipe antes da convocação final para os Jogos Olímpicos de Paris. Poucos dias antes, 33.272 torcedores também foram à Arena Pernambuco para ver as mesmas seleções. Foram, naquele momento, os dois maiores públicos da história da Seleção Feminina no Nordeste.

 

Em junho de 2026, 55.744 pessoas foram ao Castelão, em Fortaleza, para Brasil x Estados Unidos. O público superou a marca registrada em Pernambuco e colocou o amistoso entre as maiores audiências presenciais do futebol feminino brasileiro nos últimos anos. Antes mesmo da partida, 38,5 mil ingressos já haviam sido vendidos, um recorde para amistosos da Seleção Feminina no país.

 

Salvador respondeu. Recife respondeu. Fortaleza respondeu. O Nordeste já mostrou que quer a Seleção, mas a tabela da Copa do Mundo Feminina de 2027, divulgada pela Fifa nesta quinta-feira (20), parece não ter ouvido o recado.

 

País anfitrião e cabeça de chave do Grupo A, o Brasil fará os três jogos da primeira fase no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília. A estreia será no Maracanã, em 24 de junho. Depois, a equipe joga em São Paulo, no dia 29, e encerra a participação na fase de grupos no Mané Garrincha, em 4 de julho.

 

Dos oito destinos escolhidos para sediar a Copa, três estão no Nordeste: Salvador, Recife e Fortaleza. Isso significa que a região concentra três das oito cidades-sede do primeiro Mundial Feminino realizado na América do Sul, mas nenhuma das três partidas que o torcedor brasileiro tem certeza de que verá da própria Seleção.

 

Fortaleza ainda pode entrar no caminho. Se o Brasil terminar em primeiro no Grupo A, disputará as oitavas de final no Castelão. Caso avance na segunda posição, poderá jogar lá nas quartas.

 

Salvador vai receber sete partidas da Copa. A Fonte Nova terá jogos da primeira fase e um confronto das oitavas de final.  

 

Há de se comemorar que a cidade e a Bahia estarão dentro do Mundial. Mas há de se lamentar que o Brasil não estará em Salvador.

 

O Maracanã abrir a Copa faz sentido. É o estádio mais simbólico do país e também será o palco da final. São Paulo possui um dos mercados mais consolidados do futebol feminino brasileiro e receberá dez partidas. Brasília carrega o peso institucional de ser a capital federal. A própria construção da tabela levou em consideração questões de logística, redução de deslocamentos, preservação dos gramados, televisão e audiência.

 

Individualmente, são escolhas justificáveis. Coletivamente, produzem um resultado conhecido demais. O mapa voltou a se concentrar em Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

 

É possível explicar a decisão pela logística. É mais difícil conciliá-la com o discurso de legado. Desde que o Brasil foi escolhido para receber a competição, a Copa de 2027 tem sido apresentada como uma oportunidade de fazer o futebol feminino chegar a um novo patamar no país.

 

A própria Fifa, ao anunciar as oito cidades-sede, afirmou que elas refletiam a diversidade brasileira. Em outra ocasião, Gianni Infantino disse esperar que o torneio levasse a modalidade a um novo nível de participação e popularidade. Se é assim, descentralizar a Seleção também deveria fazer parte desse legado.

 

Salvador poderá ver algumas das melhores jogadoras do planeta. Recife também. Serão partidas oficiais, turistas, delegações internacionais, jornalistas de diferentes países e uma movimentação que poucas competições esportivas são capazes de produzir. Tudo isso tem valor, mas não produz necessariamente o mesmo sentimento de pertencimento. Ainda mais no futebol feminino.

 

O paradoxo fica ainda maior porque o Nordeste não está distante da Seleção quando olhamos para quem veste a camisa.

 

Das potenciais convocáveis, Marta nasceu em Dois Riachos, em Alagoas. Ary Borges é maranhense, de São Luís. Rafaelle nasceu em Cipó, no interior da Bahia, começou a jogar no São Francisco do Conde e construiu uma trajetória de mais de 100 partidas com a camisa brasileira. A zagueira voltou a ser convocada por Arthur Elias neste ano. Ary, também presente no atual ciclo, completou 50 jogos pela Seleção em abril.

 

O Nordeste, portanto, está na Seleção. Por que a Seleção não está no Nordeste?

 

Uma Copa do Mundo realizada em casa é uma oportunidade rara de aproximar a seleção anfitriã de pessoas que talvez passem décadas sem ter outra chance semelhante. No futebol feminino, cuja estrutura, cobertura e alcance ainda buscam crescer, essa aproximação deveria valer ainda mais.