SONHO E PESADELO
Assisti na TV que o Governo abriu espaço para empresas apresentarem projetos para a construção de um novo estádio no local da velha e condenada Fonte Nova, com 40.000 lugares, e tanto pensei sobre o assunto que, durante a noite, tive dois sonhos, um bom, outro muito ruim. Portanto, sonho e pesadelo.
Pelo que pude entender, já estávamos em 2010, em plena Copa da FIFA: a Fonte quase lotada, os torcedores educadamente procurando os seus lugares, o Metrô chegando de todos os lados da cidade, com o povo ordeiramente passando pelas borboletas, inclusive eu, um velho ainda resistente, aos 65 anos. Estava chegando da linha do Aeroporto, pois deixara a velha lataria no estacionamento grátis do Metrô.
O jogo daquele dia em Salvador era muito bom, não me lembro bem se Argentina x Itália ou França x Colômbia, só sei que o jogo era muito significativo – e como era de uma das chaves mais importantes do Mundial, esperava-se lotar o estádio, ao contrário daquele Argentina x França do Torneio da Independência, aqui realizado nos anos 80, e que só teve uns 140 pagantes! Não, agora era tudo maravilhoso, com o Governador chegando e cumprimentando a platéia, seus auxiliares mais imediatos fazendo-lhe a corte, o povo aplaudindo sem cessar.
Na porta do novo e suntuoso estádio, tudo fluía em perfeito serviço: os porteiros muito bem distribuídos e atenciosos. Porteiros, não, recepcionistas! Não havia cambistas nem gente esfarrapada vendendo churrasquinho de gato, nem laranja de umbigo, nem rolete de cana , nem amendoim torrado e cozido.
Fiquei muito contrariado quando acordei no meio da noite e não pude sequer fazer xixi naqueles sanitários bonitos, coloridos e cheirosos. Foi uma luta para voltar a dormir... para o sono voltar, até fiquei pensando na minha vizinha paulista, que outro dia veio me falar para ver se dava um jeito de fazer com que o galo de meu quintal deixasse de cantar tanto na madrugada. Aliás, esta encrenqueira senhora, na última sexta-feira, veio me mostrar a cabeça ferida, dizendo que foi um coco do meu coqueiro lhe caíra sobre a cabeça, enquanto fazia limpeza de uma leira de alecrim. E me pediu para cortar o coqueiro pela raiz!
De repente, um baragadá dos infernos, voltei a pegar no sono e tudo virava de cabeça pra baixo. O estádio até que era novo, mas não era mais jogo de Copa do Mundo, e sim um Ba-Vi... e parecia muito apertado, com as duas torcidas chegando em ônibus velhos, caindo aos pedaços como os de hoje, bandeiras nas mãos, tricolores e rubro-negros querendo briga, cambistas por todos os lados, protestos, xingamentos, churrasquinho de gato e pastel com tripa de galinha, Zé Eduardo gritando nos rádios que passavam, que era a mesma godema e o mesmo arerê...
Esse negócio de sonho de velho em noites mal dormidas é igual a promessas de políticos: muda daqui, muda dali, agora é um negócio, depois é outro. Havia um rapaz de meia idade que gritava coisas assim: “Cadê o Metrô, que era para funcionar desde 2007? Nem a linha da Rótula do Abacaxi foi inaugurada”. Outro, reclamando até pelos cotovelos, se queixava a um repórter: “Disseram que iam fazer melhoras no Pituaçu para jogos alternativos e construir um monumental estádio para a Copa e para os clássicos, mas o que estou vendo é uma Fonte Nova mais acanhada e sem futuro”.
Aí, suor frio por todo corpo (pensei até que era dengue), acordei. Acordei e fiquei a questionar novos assuntos – e entre eles, a incerteza que me invade pela omissão do que estão realmente planejando com o Metropolitano de Pituaçu. Outro dia, disseram que as obras seriam aceleradas, desde fevereiro, para julho chegar e o Bahia poder mandar os seus jogos da Série B; depois, tiveram que paralisar tudo, porque o Ministério Público descobriu que não fora feira a tal da Licitação...
Falaram, também, que a velha Fonte Nova, que de tão arregaçada que estava seria implodida e, agora, já acenam para a construção de um estadiozinho para 40.000 pessoas, metade de um público digno de Ba-Vi. E nem falam mais em Pituaçu.
Pelo amor de Deus, Dr. Jacques Wagner, esse vendaval de promessas e atitudes é o mesmo que acordar de um tenebroso pesadelo.