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VERDADE E MENTIRA

Em tudo que aflora a paixão desmedida, a verdade e a mentira se confundem, como é o caso desta nossa decisão de campeonato, em que Bahia e Vitória estarão envolvidos, desta vez contra Vitória da Conquista e Itabuna, que para os torcedores dos dois grandes, de forma equivocada, mas contundente, não passam de meros cavalos paraguaios.
Em uma noite desta semana, ouvi em resenhas radiofônicas, o já conhecido Binha de São Caetano, o mais crente dos tricolores e um tal de Rubro-negro de Mussurunga, que se confessa Vitória até com o pescoço condenado à guilhotina.  Binha, que antes vaticinava que o seu Bahia seria campeão da Copa do Brasil, campeão baiano, campeão da Série C, campeão da Libertadores e campeão do mundo em 2008, só excluiu mesmo o título da Copa do Brasil, porque o seu time sequer teve forças para ultrapassar o inexpressivo Icasa/CE, que nesta segunda fase levou uma surra danada do Criciúma/SC, por 5x1, e foi eliminado em seus próprios domínios, sem direito a jogo de volta.  Rubro-Negro de Mussurunga falou que, até desconfiava do Vitória, mas que depois da contratação de um novo técnico e o alentador triunfo sobre o Paraná Clube, mesmo eliminado da Copa do Brasil, o título estadual é coisa certa, favas contadas, já até comprou fogos para comemorar o bicampeonato.
Eu conheci um amigo, o Anacleto Goma de Mascar, que sempre dizia que a mentira é uma declaração feita por alguém que acredita ou suspeita que ela seja falsa, mas que, de repente, se torne verdade, ou sob a expectativa de que as outras pessoas possam acreditar. No duro, só há uma inquestionável semelhança entre a verdade e a mentira: a mentira é sempre verossímil, semelhante à verdade, mas que, inevitavelmente, cedo ou tarde, será desmascarada; a verdade, muitas vezes, é inacreditável, principalmente para os fanáticos que, via de regra, são visionários e criadores de suas próprias verdades. Mas a verdade verdadeira sempre triunfa.
A mentira, aliás, nem é tida explicitamente como pecado capital, porque antes desta nova leva de defeitos humanos que o Vaticano andou anunciando na semana passada, não estava no contexto das sete grandes mazelas (avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça e soberba). Mas há quem afirme que tudo isso envolve sempre uma grande mentira. Creio que, em se tratando de futebol, a pena reparadora deva ser uma penitenciazinha de meia dúzia de pais-nossos e ave-marias. Porque é justamente essa criatividade dos mentirosos do futebol que dá gosto especial à decisão de qualquer título. Eles criticam, clamam reforços, exigem atitude de seus dirigentes, técnicos e jogadores, há momentos que parecem que tudo está errado. Chegou a hora de decidir, se os seus times estão na briga, aí o negócio muda: é o maior da decisão, ninguém lhe tira a taça, vai ser barbada.
Nós cronistas, que também devemos ter o nosso time de preferência, é que não temos o direito, nem de longe, de escamotear a verdade, de mentir, ou melhor, de transformar mentiras em verdades. Temos, sim, que explicitar o verdadeiro panorama dos fatos, aquele que vem sendo escrito através do desempenho dos competidores. Muitas vezes, essas verdades, ditas pela razão e à luz da imparcialidade, tornam-se falsas, caem por terra, porque se há outra coisa que o futebol consegue empolgar é essa história da imponderabilidade, que pode ser chamada de surpresa, de imprevisão, de zebra. Quantas vezes o time de campanha mais fraca entra em uma decisão e levanta o caneco?!
Mas, como estamos em uma véspera de turno decisivo, não me resta outra coisa a não ser apresentar o sentimento verdadeiro que me invade: favorito um, Bahia, o mais equilibrado durante todo o turnão classificatório; favorito dois, o Vitória da Conquista, o mais surpreendente e atrevido de todos; favorito três, o Vitória, pela tradição, pelo grupo de atletas e pela estrutura, mas até agora muito oscilante: favorito quatro, o Itabuna que, se ganhar o título, vai ser a maior surpresa do ano. Porque a verdade pode se transformar em mentira. Como fez o Colo-Colo em 2006.