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FACA DE DOIS GUMES

No futebol, contratar recursos humanos foi sempre uma tarefa de muitos riscos. Em outras atividades do meio empresarial até que são bem menores, porque as empresas promovem concursos exaustivos, desde os seletivos preliminares a psicotestes, exames médicos, períodos de adaptação amparados pela Lei Trabalhista. Tem até, no rádio atual, quem ofereça cotas para o cara trabalhar, sem saber qual o salário que vai ganhar, sem carteira assinada, baseado apenas no nome que tem para batalhar por um anúncio, que acaba embutindo, além de sua remuneração, comissões para a rádio e uma parcela para o dono da equipe. Foi por isso mesmo que preferi continuar na Transamérica FM, onde o Zé Bocão e o Márcio Martins ainda exercitam aquele velho hábito de chegar ao fim de cada mês e depositar rigorosamente os caraminguás acertados.  
Em clubes, onde já trabalhei por mais de 10 anos como assessor de imprensa e tenho as minhas experiências, não é bem assim. Geralmente o dirigente só contrata diante de necessidades incendiadas pela pressão da torcida e da imprensa. Porque quando um time está em alto astral, ganhando todas, qualquer aquisição, mesmo que seja de um jovem atleta desconhecido, é sempre uma boa opção, uma questão de oportunidade, de sabedoria administrativa, de previdência, de planejamento.
Mas diante de pressões, ih!, é um Deus nos acuda, sujeito a cair em labirintos intermináveis. Principalmente treinador. Vez por outra, o que chega resolve o assunto, mas, na maioria dos casos, necessita de tempo para conhecer o regulamento da competição, os métodos de trabalho do clube, os jogadores disponíveis, os reforços necessários, a formação de um time, o ajuste de um esquema de jogo, o encontro do tal ponto de equilíbrio.
Quem entra nesta maré atualmente é o Vitória, com a dispensa de Oswaldo Alvarez. Falam em Wagner Mancini, campeão da Copa do Brasil pelo Paulista, que pode chegar ainda antes deste jogo contra o Ipitanga, em Porto Seguro, mas tem gente indicando para Tite, aquele que fez muito sucesso no Sul e chegou a ser reverenciado no São Paulo.
Quem sou eu para criticar o comportamento de companheiros que indicam jogadores e técnicos, que discorrem sobre a possibilidade do sucesso de uns e do fracasso de outros. Acho-os maravilhosos e válidos, até os parabenizo pela grandeza de seus conhecimentos. Sei apenas que é uma situação muito delicada esta de escolher treinadores, até porque os nossos dois maiores clubes, de uns tempos pra cá, só podem contratar profissionais meia-boca, da faixa intermediária. Primeiro, não têm cacife para pagar 100, 150 ou 200 mil reais, depois, muito pior, ficam apeados quando pedirem jogadores caros e famosos, porque nenhum estrategista de primeira linha vem pra cá para treinar revelações da Divisão de Base ou do Intermunicipal...
Vadão, um cara competente, íntegro e de fino trato não encontrava o ponto do tempero para o grupo que tinha. E o pior de tudo é que perdeu os dois clássicos – e mesmo classificando-se duas rodadas antes da fase terminar -, o arquiinimigo já estava classificado duas rodadas na frente. E isso nem tricolores nem rubro-negros perdoam. Exigem a cabeça na bandeja, sangue escorrendo, olhos ainda piscando de dor. Depois existem até os que acham que foi precipitação.
Considero que tanto Mancini, emergente, quanto Tite, mais tarimbado, são dois treinadores de inquestionável capacidade. Só não sei é se o Vitória vai ter suporte para enfrentar as exigências, dificuldades e necessidades dos primeiros tempos de adaptação. E logo agora, às vésperas da decisão de um título que para ele representa um bicampeonato e a manutenção da hegemonia deste novo Século.
Porque contratar em futebol é quando realmente a situação vira uma faca de dois gumes. Pontuda e afiada.