Linha tênue
Passada uma semana e dois triunfos contra o Juazeiro as vozes da insanidade vociferam: o tricolor voltou! As caxirolas ao vento nada mais foi que apenas um rápido momento de fúria, uma má fase normal. Daqui a pouco contarei uma conversa mirabolante que tive. Foi tanta loucura, que resolvi compartilhar. Não torci pela eliminação do Bahia (mesmo achando que seria sensacional uma final JuáJuá) só para validar os argumentos. Acredito que com ou sem resultado no Campeonato Baiano, muitos torcedores abriram os olhos para a realidade: a importância da competência administrativa. O futebol por si só é imediatista, mas passado, presente e futuro precisam ser conectados na busca pelo máximo potencial. Passou da hora de esquecermos o próximo jogo e pensarmos nos próximos campeonatos e anos. O amanhã é logo ali.
Confesso que assisti Juazeiro 0x1 Bahia mais interessado nos tira-gostos e na cerveja gelada na casa de meu compadre Cristiano, do que no desenrolar técnico e tático dos times. Lá pelos 40 minutos do segundo tempo, jurava que o jogo estava 1x1, até ser avisado pelo placar da TV. A concorrência era grande, mas a partida não fazia a menor questão de vencê-la. Assim que o juiz apitou o final do jogo, eu só pensava que perderia duas horas de descanso do domingo para rever o duelo com atenção. Seria e de fato foi, um martírio. Sofrimento esse acalmado por um alento: Anderson Talisca. Não que tenha sido espetacular (longe disso), mas a personalidade como se tornou rapidamente dono do time, impressionou. E tecnicamente é um tubarão solitário dentro de um oceano sem peixes. Ainda haverá muitos obstáculos para ele, contudo penso que tem tudo para por em prática todo o potencial técnico. De cara temo quatro questões. O psicológico, o posicionamento em campo, a fragilidade do time e o físico bem encaixado no apelido.
De longe, Talisca me parece estar sobre uma linha tênue entre o deslumbramento e a marra saudável. O Bahia, os empresários, o treinador, os companheiros e a família precisam empurrá-lo para a segunda opção, por que marrento ele não deixará de ser. E ser mascarado, se o psicológico estiver bem azeitado para usar isso de maneira positiva, não é problema. Dois dos três melhores atacantes do mundo são assim, Neymar e Cristiano Ronaldo. Com Joel Santana, ironias a parte, não duvido que logo logo Anderson vire atacante. Já foi assim após a saída de Zé Roberto contra o Juazeiro. Pode até ser que renda, mas aí o time perderia uma referência tão desejada no meio de campo. Na base, Talisca começou como volante recuado. Fazia dupla com Feijão. À medida que foi subindo de categoria, foi avançando. Até de centroavante já chegou a atuar. Isso é bom pela versatilidade, mas ruim pelo risco de não se firmar em nenhuma posição. Fosse eu o treinador, Talisca seria o terceiro homem do meio. A parte física, nem falo em ficar forte e sim em fortalecer e proteger a musculatura para aguentar a intensidade dos jogos de alto nível.
Joel Santana tem sido Joel Santana. Time altamente defensivo, cheio de volantes que só marcam (ou tentam) e poucos recursos ofensivos. Joga para não perder e foi assim em 90% da carreira. Ou mais. Não dá para esperar algo diferente disso. Tenho curiosidade apenas para saber se o treinador está satisfeito com o nível dos jogadores do setor ou se vai querer reforços. Acredito que mesmo defensivista e ultrapassado na maneira de ver o futebol, Joel seja acomodado o suficiente para achar ter em mãos jogadores capazes de segurar a onda no Brasileiro. Tivemos dois nacionais para provar isso é impossível. Não tenho mais vislumbres de qualidade técnica esse ano, porém espero que a diretoria traga para a Série A, defensores que de fato saibam defender.E que Madson, Feijão e Anderson Melo passem a ser utilizados. A divisão técnica entre os clubes promete ser abismal. Quem não se adequar, vai virar saco de pancadas. Ainda há tempo para o Bahia ser um coadjuvante xereta. É preciso ter atitude e deixar de lado amizades e gratidão, seja lá por qual motivo for.
Já ia esquecendo. Vou contar a resenha e me reservar a chamar o brother de brother, para evitar constrangimentos. Se liguem na conversa. “Éder, não vi Roberto Rebouças jogar, mas acho que Titi está chegando lá. Mesmo nessa má fase dele, tem jogado muito”. Achando ser ironia, respondi. “Chegando lá aonde? Tá doido é, rapaz?”. Para minha surpresa. “Oxe, tô ‘falano’ sério! Meu pai disse que Roberto Rebouças jogou muito e que Titi tem estilo parecido. Nunca vi um zagueiro melhor que Titi jogar no Bahia. Nem o Nen de 2010 conseguiu!”, bradou, com convicção. Depois de uma risada marota, exagerei na resposta. Ou não. “Rapaz, também não vi Roberto Rebouças jogar, mas duvido que Titi amarre as chuteiras dele. A história narra um mito e não um jogador comum. Pra mim, pensando rápido aqui, dos que eu vi jogar no Bahia, tem Jorginho, Missinho, Fabão, Reginaldo Cachorrão, Jean White, Jean Elias, Nenê, Leonardo Silva e deve ter mais algum que não lembro, melhores ou no mesmo nível de Titi. Ah, até Parreira acho que era no mínimo do mesmo nível”. Com os olhos arregalados, o brother, que tem uns 20 anos, apelou. “Porra é essa, véi? Você acha mesmo? Quem é Parreira, véi? Quando Titi for pra Seleção você vai ver!”. Mudei o assunto.
