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Abismo tático

Por Éder Ferrari

Abismo tático
Vou dizer alguns nomes convocáveis. Uns inquestionáveis, outros já tiveram melhor fase e alguns são muito novos. Uns quatro ou cinco não são lá tão diferenciados, mas podem ser úteis em várias circunstâncias. Outros ficaram de fora dessa rápida lista, que fiz sem pensar muito. Goleiros: Júlio Cesar, Diego Alves, Cássio, Jéferson, Fábio, Victor e Diego Cavalieri. Laterais: Daniel Alves, Maicon, Rafael, Marcelo, Filipe Luís e Maxwel. Zagueiros: Thiago Silva, David Luiz, Dedé, Dante, Rever e Marquinhos. Volantes: Paulinho, Ramires, Fernando, Souza, Lucas Leiva, Hernanes, Luís Gustavo, Ralf e Anderson. Meias: Oscar, William, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Bernard, Jadson, Renato Augusto, Diego e Lucas. Atacantes: Neymar, Fred, Wellington Nem, Philippe Coutinho, Leandro Damião, Alexandre Pato, Luís Fabiano, Hulk e Osvaldo. 
 
Hoje parece coisa de gente hospedada no Juliano Moreira, mas com esses jogadores, tenho certeza, da para formar uma das três melhores seleções do mundo, junto com Espanha e Alemanha. Essas duas possuem grandes jogadores em quase todas as posições, têm peças de reposição e sistema de jogo bem definido e organizado. Itália e Argentina estão logo atrás. A primeira mostrou nesse 2x2 contra o Brasil muito mais organização e consistência, apesar de não ter tantos nomes qualificados. Já a segunda, tem problemas com defensores, laterais e volantes, mas atingiu um excelente padrão de jogo e possui uma linha de frente espetacular, com Di Maria, Higuaín, Agüero e principalmente Leonel Messi. E ainda têm forças como Holanda, Inglaterra e França. A Copa do Mundo promete e o Brasil precisa escalar o Everest para, coletivamente, entrar nesse seleto grupo. 
 
Obviamente que existiram várias outras gerações melhores no futebol brasileiro. Na verdade, a atual geração é muito boa e, para 2018 e 2022, será favorita, pelo menos em termos de nomes, de todas as competições que participar. O que existe hoje é um espaço deixado principalmente Kaká, Ronaldinho, Robinho e Adriano. A interação, a mescla entre jovens promissores e experientes de respeito, não existe. Isso atrapalha a questão da confiança, na facilitação da adaptação a Seleção. Neymar era o garoto a ser protegido e não o único craque a ser cobrado. Infelizmente essas coisas não se controlam. E, aos saudosos, sim, vácuos como esse sempre existiram. Já houve caso de os novos demorarem demais a surgir, por exemplo. A questão é mais profunda.  
 
A derrota na Copa de 1982 foi terrível para o futebol brasileiro em todas as instâncias. A partir dali, se absorveu a ideia de que o importante é o resultado e não qualidade do jogo, como se nas conquistas anteriores as duas coisas não tivessem andado lado a lado. Somos imediatistas e superficiais. Os treinadores começaram a achar que só dava para jogar com volantes caneleiros. Se o cara tivesse um pouco de habilidade, logo virava meia. Os conceitos táticos foram virando jogo de botão. Armam o posicionamento, mas as peças ficam paradas. Não há movimentação, variações de sistema, triangulações, recomposição bem sincronizada e qualificação de fundamentos. E isso vem desde as categorias de base. Existe o pé de obra qualificado, mas o trabalho de formação é mal feito. São criados garotos mimados, mascarados, sem noção tática e com várias deficiências técnicas e até físicas. Ainda assim conseguimos conquistar duas Copas do Mundo e vários outros títulos de Copa América e das Confederações. Craques focados ainda resolvem. 
 
E eles ainda são formados. Isso o futebol brasileiro ainda produz e eles ainda fazem a diferença, mas caso não haja trabalho tático e preparação correta, a derrota chega sem obstáculos, como na Copa de 2006. Lembram-se daquele time? Dida; Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho Gaúcho; Adriano e Ronaldo. E ainda tinha no grupo nomes como Juninho Pernambucano, Robinho, Fred, Emerson, Rogério Ceni... Carlos Alberto Parreira não teve pulso para segurar as estrelas no foco da competição e nem capacidade de organizar dentro de campo. Existe um abismo de qualidade entre treinadores sul-americanos e europeus dos brasileiros. Engraçado que poucos técnicos no mundo ganham salários faraônicos como os daqui. O pragmático e sem recursos do Muricy Ramalho recebe R$ 700 mil/mês! O bolso está cheio, mas os profissionais são nivelados por baixo. 
 
Um exemplo é a Libertadores. Se somar as folhas de pagamentos de Fluminense, Grêmio, Corinthians, Atlético Mineiro, São Paulo e Palmeiras, o valor é maior que a de todos os outros clubes da competição juntos! Existe todo o aporte financeiro, porém qualquer time da Venezuela, Bolívia, Chile, Equador, por mais que sejam bem mais limitados tecnicamente no jogador por jogador, chega e domina taticamente. É preciso haver uma reformulação completa de conceitos técnicos e táticos desde o Sub-12. Na verdade, existe a necessidade urgente de criar conceitos verdadeiros. Hoje é só chutão, contra-ataque e chuveirinho. Em curto prazo, com os principais jogadores trabalhando na Europa, existe a possibilidade de reabilitação da Seleção Brasileira, apesar de Felipão e Parreira serem os comandantes. Coletivamente, o time engatinha, contudo tem jogadores para conseguir evoluir e sair desse nível patético de jogo e resultados.