Torcida mista
Tinha algumas pautas para esse artigo, mas determinadas decisões e a violência gratuita instaurada me fizeram voltar a um tema de outros dois textos. Seja na Bolívia, em Belém, em Caruaru, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, os estúpidos acéfalos que se autodenominam torcedores organizados, matam o espírito esportivo, a diversão da paixão e outras pessoas. Não consigo entender o que se passa na cabeça desses supostos seres humanos. Para completar, também não faz nenhum sentido a passividade do poder público. Não fazem absolutamente nada para mudar essa imbecilidade.
Quais as leis para porte ilegal de armas, assassinato, tentativa de homicídio, vandalismo, tráfico e consumo de drogas, assalto, furto, utilização de menores como comparsas nessas infrações, entre outras contravenções? Se um cidadão comum é flagrado em qualquer um desses atos, não é preso, julgado e sentenciado? Por que esses crimes quando são cometidos por esses marginais travestidos de torcedores, são tratados com tamanha parcimônia? No outro dia está todo mundo na rua para fazer tudo novamente! Nesse domingo (3), um membro da Torcida Jovem (Santos?) foi pego com mais de 20 barras de ferro, a caminho do clássico contra o Corinthians. Encaminhado para uma delegacia, foi liberado rapidamente. Impunidade que abre precedente para novas barras de ferro. Que me desculpem as pessoas sérias que fazem parte das organizadas. Conheço algumas e sei que existem muitas outras, porém, minoria ou maioria, vocês são engolidos pelos criminosos. E também são culpados por omitir e não denunciar quem diminui o trabalho sério de vocês. Viraram frutos do meio, infelizmente. Assim como todos nós, que não fazemos o mesmo e ficamos de braço cruzado diante da arrogância e brutalidade. É hora do chega!
O garoto boliviano Kevin, de apenas 14 anos, assassinado por um membro da Gaviões da Fiel com um sinalizador em partida pela Libertadores, não pode ser tratado como acidente. Infelizmente, vejo boa parte de a mídia nacional tentar mudar um fato para proteger o queridinho Corinthians. Deveria usar o ocorrido para demonizar de vez e colocar um ponto final em toda essa truculência. Não existem coitadinhos nesse lado da história. Identificar e responsabilizar. O futebol é lugar de paixão, diversão familiar, resenha entre amigos e não subterfúgio para farra de gangues.
O Ministério Público tem de intervir e acabar com os ‘comandos’ – ramificações em diferentes bairros – principais responsáveis pelas brigas longe dos estádios. Dessa galera, o que menos importa é o clube. Estão ali para marcar território e defender a bandeira das ‘organizadas’. Escalação, estatuto e competência administrativa no suposto alvo de apoio, passam longe da cabeça deles. Só pensam na agremiação, na hora de marcar as batalhas contra os ‘inimigos’ em dia de jogos importantes. Chega de tratar essas ocorrências como briguinhas bobas de adolescentes. Com um pouco mais de organização e sabedoria criminosa, alguns desses grupos teriam um poder incalculável. Podem até pensar ser exagero da minha parte, mas vejo milícias batendo na porta.
Não entrarei na questão se essa situação é menor ou maior em Salvador. Só de existir, já é suficiente para que medidas drásticas sejam tomadas. Estamos tão acostumados com esse lixo de atitudes, que não levamos outras coisas em consideração. A Arena Fonte Nova, se reuniu com Bamor e Tui – como se elas fossem as representantes oficiais de tricolores e rubro-negros – para definir o posicionamento das torcidas no estádio em dia de BaVi. E, para surpresa quase geral, as duas escolheram um local que nunca foi delas na velha Fonte. Atrás do gol da ladeira, onde antigamente ficava a saudosa e hoje utópica torcida mista. Talvez, sem saber a logística do clássico, os dirigentes da Arena aceitaram e criaram um revezamento a partir do mando de campo. Não se deram ao trabalho de saber o local de concentração e saída de cada uma delas. Prenúncio de confusão, desgaste, clima de território ocupado e muito trabalho para a Polícia. Era muito mais fácil e saudável para todos, se não dessem ousadia para as duas ‘organizadas’ e simplesmente deixassem tricolores e rubro-negros onde sempre ficaram, independente de ser clássico ou não.
Precisamos denunciar qualquer atitude estúpida e cobrar celeridade e bom senso de dirigentes e do poder público em todas essas questões. O estádio chora a volta das famílias e da diversão nas arquibancadas. Muita gente supera o medo com a paixão pelo clube, contudo será que o amor aguenta apanhar ou ver um ente querido ser vítima desses vândalos? Eu já fui e conheço várias pessoas que também foram. Não sei se por isso, todavia tenho me afastado dos estádios. E não foi pela mudança para Juazeiro. Em muitas oportunidades, estava em Salvador e ficava em casa. Logo eu, que coleciono canhotos de ingressos (tenho quase 500) dos jogos que fui. Infelizmente, não poderei assistir ao lado de meu pai o BaVi do dia 7 de abril na Fonte Nova. Ficaríamos engessados para torcer, correndo o risco de tomar porrada a qualquer momento, independente do lado que escolhêssemos. A torcida mista não pode ser apenas uma memória. Ela precisa ser o objetivo, o projeto de restauração dos verdadeiros torcedores nos estádios. Um dia quero poder sentar ao lado de meu pai e viver o clima de nostalgia, mas dos jogos antigos e não de vestir tricolor ao lado de um rubro-negro.
