Davidson pelo Mundo: Galápagos, a viagem em que eu descobri que o mundo não gira ao meu redor
Sempre que alguém me pergunta qual foi a viagem mais marcante da minha vida, eu penso em muitos lugares, mas a memória sempre volta para o mesmo ponto no mapa: o arquipélago de Galápagos, no Equador.
É difícil explicar Galápagos sem cair no clichê, mas vou tentar. É como entrar num documentário da National Geographic, só que sem trilha sonora e sem roteirista. Lá, a natureza não foi feita para impressionar ninguém; ela simplesmente existe. E nós, turistas, somos apenas visitas toleradas.
ONDE A TEORIA DA EVOLUÇÃO VIRA PAISAGEM
Foi em Galápagos que Charles Darwin, em 1835, encontrou pistas que ajudaram a formular a teoria da evolução. Caminhar por lá hoje é quase uma viagem no tempo. Em um mesmo dia, eu vi:
- iguanas marinhas negras se aquecendo nas rochas vulcânicas;
- tartarugas gigantes se movendo com a calma de quem não tem pressa nenhuma;
- lobos-marinhos dormindo nos bancos da praça, como se fossem moradores oficiais da ilha.
O mais curioso: eles não fogem. Não porque sejam domesticados, mas porque nunca aprenderam a temer humanos. A sensação é de ser invisível — e isso mexe com a nossa arrogância de “donos do planeta”.
UM LUGAR ONDE O TURISTA NÃO MANDA
Se você gosta de destinos onde tudo é pensado para o seu conforto, prepare-se: Galápagos não está nem aí para você.
As regras são rígidas:
- não pode tocar nos animais;
- não pode sair das trilhas demarcadas;
- o número de visitantes é controlado;
- muitos passeios só podem ser feitos com guia credenciado.
No começo, parece exagero. Depois, faz todo sentido. Eu me peguei várias vezes pensando:
“Ainda bem que não é a gente que manda aqui”.
COMO FOI A LOGÍSTICA DA VIAGEM
Eu optei por ficar hospedado em terra (em vez de fazer cruzeiro) e fazer passeios diários de barco. Funciona assim:
- você se baseia em ilhas como Santa Cruz ou San Cristóbal;
- fecha passeios com agências locais ou com antecedência;
- acorda cedo, entra no barco, faz trilhas, snorkel, observa a fauna, volta cansado e feliz.
Os cruzeiros são outra experiência: você dorme no barco e alcança áreas mais remotas. São mais caros, mas permitem ver lugares que o turista “de base em terra” não vê.
Seja qual for sua escolha, uma coisa é certa: é uma viagem ativa. Tem trilha, sol, barco, mar mexido às vezes, máscara de snorkel, protetor solar e cama, no fim do dia, chamando seu nome.
QUANDO IR
De dezembro a maio: água mais quente, ideal para quem sente frio no mar. Paisagem mais verde, clima mais abafado.
De junho a novembro: água mais fria e mar mais rico em vida marinha (ótimo para mergulho). Clima em terra mais ameno.
Eu morei no Equador por cerca de 3 anos e tive várias oportunidades. Não existe “época perfeita”; existe o que você prioriza: conforto na água ou abundância de bichos.
O CHOQUE DE REALIDADE
Uma coisa que me marcou foi perceber o paradoxo.
Para que Galápagos continue existindo como é, o turismo precisa ser extremamente controlado. Ao mesmo tempo, é o próprio turismo que financia a conservação e faz o mundo prestar atenção nessas ilhas.
Por isso, algumas decisões fazem diferença:
- escolher operadoras que realmente respeitam as regras do parque;
- não usar plástico descartável à toa;
- consumir de negócios locais;
- entender que certas áreas são proibidas — e ponto.
Viajar para lá foi, para mim, mais do que “ver bichos incríveis”. Foi aceitar um papel menor na história. E isso é libertador.
POR QUE EU RECOMENDO GALÁPAGOS
Se você gosta de natureza, de mar e de viagens que fazem pensar, coloque Galápagos no topo da lista. Não é a viagem mais barata, nem a mais confortável. Mas é, sem exagero, uma das mais transformadoras.
Você volta com fotos lindas. Mais do que isso, volta com uma nova noção de escala. Nós somos só uma espécie entre muitas, vivendo num planeta que funcionava muito bem antes da nossa chegada e que, com sorte, continuará funcionando depois.
Em Galápagos, pela primeira vez, eu realmente senti isso na pele. E talvez seja por isso que, sempre que penso em “lugar especial no mundo”, minha mente volta para aquelas ilhas perdidas.
