Ju Berman leva BN Hall à Casa Irá Salles e conhece o processo criativo da estilista baiana
Por Gustavo Assis / Júlia Estrela
A moda baiana vai além das passarelas e ganha forma nas histórias de quem cria, pesquisa e movimenta o setor no estado. A convite do BN Hall, a consultora de imagem e estilo Ju Berman inicia uma série de encontros com marcas, estilistas e profissionais que ajudam a construir esse cenário. O primeiro destino foi a Casa Irá Salles, no Caminho das Árvores, em Salvador, onde conheceu de perto o processo criativo da estilista baiana, que soma quase 30 anos de trajetória e tem na brasilidade, no trabalho artesanal e na liberdade de criação os pilares da marca que leva seu nome.
Fã do trabalho da profisisonal, Ju contou que costuma levar clientes ao espaço para apresentar as peças e mostrar os detalhes que, na sua avaliação, tornam as criações exclusivas.

Foto: Júlia Estrela/BN Hall
Durante a visita, Irá relembrou que sua relação com a moda começou ainda na infância, na própria casa onde hoje funciona a marca. “Eu fazia roupinha de boneca, bijuteria, papel machê. Sempre fui muito ativa em relação às artes manuais, sempre tive uma mente muito inquieta”, contou. A estilista também destacou a influência da avó, que tinha um olhar atento para a arte e a maneira de se vestir. “A forma como ela vivia e se vestia sempre foi muito natural para mim”, disse.
Essa relação com a estética se transformou em uma marca que busca valorizar referências brasileiras sem depender das tendências internacionais. Para Irá, a moda é uma forma de expressar a história e os costumes de um povo. “A nossa autoestima como brasileiros também passa por expressar a nossa cultura, e a moda é uma expressão dessa cultura”, afirmou.
Cores, crochê, macramê e renda estão entre os elementos presentes nas criações. Segundo a estilista, essas técnicas, incorporadas à cultura brasileira ao longo do tempo, ajudam a construir uma identidade que permanece mesmo diante das mudanças do mercado. “Sempre fui muito fiel a essa identidade de brasilidade. Pode estar na moda, pode não estar, a marca é assim”, destacou.

Foto: Júlia Estrela/BN Hall
A liberdade criativa também influencia a forma como as peças são desenvolvidas. Em vez de seguir o calendário tradicional de coleções por estação, Irá trabalha a partir de temas que despertam seu interesse e lança pequenas coleções-cápsula, algumas com menos de dez bolsas. “Eu me sinto completamente livre para criar aquilo que quero. É a forma como me sinto livre para criar”, explicou.
As bolsas ocupam lugar central nesse processo. Com detalhes feitos à mão e acabamentos cuidadosos, os acessórios são pensados para se destacar na composição dos looks. “Uma coisa que acho que faço muito é fazer a bolsa ser a protagonista do look. Quero criar uma bolsa que, mesmo com uma roupa simples, seja aquele acessório que dá a cereja do bolo”, afirmou.
O trabalho combina técnicas artesanais com processos industriais para garantir estrutura e acabamento às peças. “O grande diferencial está em trazer o que existe de bonito no artesanal, que é um trabalho lindo, mas com o acabamento de uma fábrica estruturada”, explicou Irá.
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Foto: Júlia Estrela/BN Hall
A sustentabilidade também integra as iniciativas da marca. De acordo com a estilista, o forro utilizado nas bolsas é feito a partir de material reciclado, com sete garrafas PET a cada metro. Há mais de dez anos, a empresa também recebe bolsas usadas, que são destinadas à revenda em ações específicas. A renda é integralmente direcionada a quatro instituições apoiadas pela marca, voltadas a crianças, idosos, famílias e mulheres em situação de vulnerabilidade.
“É um mercado em que se cria muita coisa, e as pessoas não conseguem consumir tudo o que a indústria produz. Acho que precisamos ter esse cuidado”, avaliou. Irá também afirmou que deixou de utilizar couros exóticos e que busca alternativas de materiais com aparência semelhante à do couro, mas de outras origens. “A causa animal também pesa muito para mim. Esse é um caminho que estamos construindo para conseguir chegar onde queremos”, acrescentou.
A Casa Irá Salles reúne ainda peças para a casa, como louças que seguem a linguagem visual da marca, além de uma biblioteca formada ao longo da trajetória da estilista. O acervo inclui livros e revistas sobre arte, estampas, moda étnica, acessórios e trabalhos manuais, parte deles reunidos durante o período em que Irá estudou moda em Nova York.
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Foto: Júlia Estrela/BN Hall
A pesquisa, segundo ela, vai além do universo do vestuário. “Meu entendimento de moda tem muito a ver com o mundo. Quando você entende a história e tudo o que acontece, compreende melhor a moda e consegue até prever o que as pessoas vão usar”, afirmou.
Ao avaliar o cenário da moda baiana, Irá destacou a força cultural do estado e a importância de transformar essa riqueza em uma identidade própria. “A Bahia é um celeiro de artistas, um celeiro cultural. Temos uma cultura muito forte nas artes plásticas, na dança, na culinária, e acho que a moda vem crescendo muito. Quem trabalha com moda na Bahia precisa tentar fazer com que o estado crie sua própria identidade”, concluiu.
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