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reginaldo xavier
Há artistas que encontram sua matéria-prima. Reginaldo Xavier parece ter sido encontrado por ela. Há 41 anos, o ceramista baiano transforma lembranças, referências e inquietações em esculturas feitas de barro. De Nazaré das Farinhas, no Recôncavo Baiano, ao ateliê em Igatu, na Chapada Diamantina, sua produção reúne sereias, santos, flores, formas abstratas e, sobretudo, as famosas Negras, esculturas inspiradas nos penteados das mulheres negras de Salvador.
Em entrevista ao BN Hall, Reginaldo relembrou como a cerâmica entrou em sua vida, as referências que atravessam sua produção e como a atividade acabou se tornando uma profissão. “Parecia que a cerâmica já estava dentro de mim, só esperando o momento de brotar”, afirmou.
Nascido em 13 de maio de 1960, em Nazaré, o artista era estudante de Pedagogia na Universidade Católica do Salvador quando recebeu da tia uma missão que mudaria seus planos: criar figuras para um presépio durante uma visita à cidade natal no fim do ano. “Eu modelei algumas cenas do cotidiano da região. Não entendia ainda da técnica de cerâmica. Essas peças foram secas ao sol e eu pintei depois. Ficaram interessantes”, contou.
O material que sobrou foi levado por Reginaldo para Salvador, onde ele apresentou algumas das criações aos colegas da universidade. Foi então que recebeu uma indicação para conhecer as Oficinas de Expressão em Série, no Solar do Unhão, ligadas ao Museu de Arte Moderna da Bahia.
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Fotos: Acervo Pessoal
Na segunda aula de cerâmica, surgiu uma das séries que marcariam sua carreira. Reginaldo decidiu levar para a escultura uma imagem que observava desde a juventude: os penteados das mulheres negras de Salvador. “Eu achava que aquilo eram esculturas. Tinha vários planos, vários relevos. Então eu acho que eu já estava nascendo, ou já era, um artista tridimensional”, explicou.
A primeira peça reproduzia apenas a cabeça com um dos penteados. Depois, Reginaldo decidiu transformá-la em busto. “Essa cabeça ficou muito interessante, ficou muito bem-feita, e aí depois eu resolvi botar num busto. Esse busto fez o maior sucesso”, relembrou.
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Fotos: Acervo Pessoal
A criação chamou a atenção de Juarez Paraíso, artista, professor da Escola de Belas Artes e então coordenador das oficinas. Para Reginaldo, receber o reconhecimento naquele momento teve um peso especial. “Você receber um elogio de Juarez Paraíso é realmente um grande acontecimento na vida da gente”, afirmou.
As Negras passaram, então, a ocupar um espaço central em sua produção. Mais do que uma escolha estética, a série surgiu como uma forma de valorizar a cultura negra e questionar padrões de beleza que, durante muito tempo, incentivaram o alisamento dos cabelos. “As Negras surgiram como uma espécie de protesto político-cultural contra o alisamento dos cabelos dos negros”, explicou. “Eu queria uma valorização da cultura negra”, resumiu.
O trabalho ganhou projeção internacional e teve peças vendidas em Paris e Nova York. “Parece que existia uma lacuna, e eu cheguei com esse trabalho. Essa Negra tinha o perfil que tinha nessa lacuna no mercado e ela caiu em cheio. Foi um sucesso impressionante”, afirmou.
O reconhecimento também fez Reginaldo repensar o caminho profissional. A cerâmica começou a ganhar espaço diante da carreira que ele construía na Pedagogia, especialmente depois das primeiras vendas e da descoberta de características próprias em sua produção. “Eu comecei a perceber que tinha algum diferencial do meu trabalho no universo da cerâmica que estava sendo produzida na Bahia”, contou.
Mesmo aprovado em um concurso público, decidiu não assumir a vaga. “Foi uma crença muito grande no meu trabalho e em mim como ceramista”, afirmou.
SEREIAS, ANJOS E OS MEDOS TRANSFORMADOS EM ARTE
As referências para as esculturas, no entanto, não ficaram restritas à cultura e à observação do cotidiano. Parte delas veio de experiências pessoais. As sereias, por exemplo, estavam relacionadas a um medo da infância. “Eu tinha medo de sereia”, revelou.
Os anjos também despertavam estranhamento. “Eu vi uma mistura de pássaro com gente. Comecei a chorar com medo e minha prima teve que me levar para a porta da igreja”, lembrou. Décadas depois, essas figuras passaram a integrar sua produção. “Eu trabalho com sereias e anjos para expurgar os meus medos”, explicou.
Ao longo de mais de quatro décadas, Reginaldo também desenvolveu trabalhos relacionados a santos, Candomblé, abstração, formas geométricas, arte popular e natureza. Em meio a tantas referências, uma textura acabou se tornando recorrente: as bolinhas.
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Fotos: Acervo Pessoal
A técnica surgiu em uma obra abstrata, inspirada na imagem de um universo ou de um céu estrelado, e depois chegou às sereias. “Eu queria fazer uma sereia estilizada. Não queria colocar simplesmente o desenho das escamas. Então botei as bolinhas, que se tornaram uma marca registrada do meu trabalho”, afirmou.
Para o artista, porém, a identidade de suas peças vai além da textura. Ele também busca uma medida de equilíbrio entre os elementos. “O meu trabalho, ao mesmo tempo que é complexo, tem uma consciência, um equilíbrio e uma forma que faz com que ele seja simples”, definiu.
Segundo Reginaldo, esse equilíbrio exige precisão. “Parece que eu consigo chegar à medida perfeita. Qualquer coisa que você fizer a mais, ele perde”, explicou. Essa busca pelo equilíbrio também aparece em algumas das obras que mais o emocionam.
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Foto: Acervo Pessoal
Entre elas está a Nossa Senhora do Leite. A escultura nasceu de uma reflexão sobre partos humanizados e representa Maria amamentando Jesus enquanto segura a placenta ligada ao bebê pelo cordão umbilical. “Eu pensei: Jesus Cristo, que demonstrava ser uma pessoa tão boa, tão caridosa, tão correta, deve ter nascido de um parto humanizado”, contou.
A partir da ideia, criou uma representação que considera inédita. “Eu consegui colocar uma santa que ninguém nunca fez, com a placenta na mão e o menino ligado à placenta pelo cordão umbilical”, afirmou.
A produção acumulou reconhecimento ao longo dos anos. Entre os prêmios recebidos estão o terceiro lugar no Salão Gaivota de Arte e Pesquisa, na UFBA, e o primeiro lugar em um Salão Nacional de Cerâmica no Rio Grande do Sul. Reginaldo também participou da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, em Portugal. Em 2026, recebeu o prêmio Preservar: Culturas, Identidades e Saberes Ancestrais, com premiação de R$ 30 mil.
Apesar de ter obras espalhadas por diferentes países, o ceramista afirmou não guardar uma peça como intocável. “Eu não me prendo a nenhum deles. Eu faço o trabalho para o povo. Faço o trabalho para a comunidade. Tem uma hora que o artista precisa se desprender do seu trabalho”, destacou.
Mesmo com 41 anos de carreira, Reginaldo ainda mantém projetos em desenvolvimento. Um deles é uma grande instalação formada por flores de cerâmica inspiradas em sementes encontradas no Cerrado. A ideia é organizar as peças como um grande tapete escultórico em um espaço público. “Eu queria fazer um grande. É um trabalho simples e ao mesmo tempo complexo”, explicou.
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Fotos: Acervo Pessoal
Enquanto o projeto não sai do papel, outras encomendas continuam chegando. Entre as criações mais recentes está uma Nossa Senhora Aparecida feita com a técnica das bolinhas e pequenos agrupamentos que formam flores. “Todo mundo que olha se apaixona, se encanta. Já tenho mais de 15 peças encomendadas.”
Entre o que viveu, o que observa e aquilo que ainda pretende criar, Reginaldo continua encontrando no barro uma forma de dar corpo às próprias referências. Sereias, santas, Negras, flores e formas abstratas passam pelo ateliê e seguem para outros lugares, levando consigo parte do olhar de quem as criou. “Eu acho que o meu destino aqui na Terra é levar justamente esses sentimentos bons, de beleza espiritual e beleza artística para a vida das pessoas”, concluiu.
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Pérolas do Dia
Ricardo Alban
"A entrada de importações de até 50 dólares sem tributação é o mesmo que financiar a indústria de países como a China, principal exportador de produtos de baixo valor para o Brasil, especialmente no setor têxtil. O prejuízo é direto a quem fabrica e comercializa em território brasileiro".
Disse o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban ao comentar a aprovação da medida provisória 1357/2026, que revogou a chamada “taxa das blusinhas”. Segundo Alban, a medida representa um retrocesso econômico, cria uma condição de desigualdade para o setor produtivo brasileiro e pode colocar em risco mais de 100 mil empregos.