A dança como território de liberdade e transformação social
Muitas vezes a dança é vista apenas como expressão artística, mas a verdade é que ela é, antes de tudo, um poderoso instrumento de transformação social. O corpo que dança é um corpo que conquista sua própria voz. O movimento fortalece a disciplina, desenvolve a autoconfiança, cuida da saúde mental, promove a inclusão e resgata a cidadania em comunidades vulneráveis.
Foi com essa convicção que idealizei, há 17 anos, a Jornada de Dança da Bahia, um dos mais tradicionais projetos brasileiros dedicados à capacitação e ao intercâmbio artístico. Meu objetivo nunca foi apenas formar bailarinos, mas oferecer uma ferramenta de emancipação e sensibilização a comunidades historicamente marginalizadas do acesso aos bens culturais.
Esse olhar para a arte tem raízes profundas e um nome: Isadora Duncan, a pioneira da dança moderna, cuja filosofia atravessa toda a minha trajetória pedagógica e artística. No início do século XX, Isadora revolucionou a cena artística ao romper com a rigidez do balé clássico para propor o que chamava de "movimento natural" — uma expressão livre, inspirada na natureza, no ritmo interno e na respiração. Para ela, o gesto não nascia de uma sequência mecânica de passos, mas de uma emoção originada no plexo solar. A dança deixava de ser apenas técnica para se tornar manifestação pura da subjetividade humana.
A percepção do corpo como um espaço sagrado de autonomia e identidade é a essência do trabalho que desenvolvemos. Ao longo de 17 anos de trajetória, a Jornada já percorreu 35 cidades nas cinco regiões do país, descentralizando o acesso à arte e chegando a muitos municípios onde oportunidades culturais ainda são restritas.
A transformação social pela dança passa, ainda, pela democratização do acesso e pelo combate às desigualdades. Não há mudança real se a arte permanecer restrita ao privilégio de poucos. A cultura só cumpre seu papel cidadão quando é pública, gratuita e inclusiva. É assim que cada professor participante se torna um multiplicador e um agente de mudança na própria comunidade, capaz de transformar realidades a partir da arte. Cada espetáculo aberto ao público, cada oficina concluída e estudante que descobre o próprio corpo como linguagem é a prova de que a arte pode mudar vidas.
O legado de Isadora Duncan nos lembra que a dança é um campo pedagógico, universal e revolucionário, capaz de conectar diferentes gerações, corpos e realidades. Seguiremos itinerantes nessa missão, convictos de que a arte, quando chega a quem mais precisa, não apenas emociona — ela liberta, educa e constrói pontes para um futuro mais justo e humano.
*Fatima Suarez é bailarina, coreógrafa, educadora e coordenadora da Jornada de Dança da Bahia
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