Artigos
Eu ponho fé é na fé da moçada
Multimídia
Após deixar Podemos, Raimundo da Pesca comenta convites e explica escolha pelo PSD
Entrevistas
VÍDEO: Sílvio Humberto fala sobre cultura de Salvador, critica Executivo e comenta pré-candidatura a deputado; confira entrevista
promessas sociais
Uma denúncia de falsificação de assinaturas em documentos internos da Rede Sustentabilidade levanta questionamentos sobre a regularidade de um processo partidário realizado em Ilhéus, no sul da Bahia. Conforme relatos, as supostas vítimas teriam seus dados colhidos durante oferecimento de benefícios sociais, como o Minha Casa Minha Vida (MCMV), e cursos de capacitação, o caso segue sob análise na Justiça.
Em áudios e documentos obtidos pelo Bahia Notícias, há registro de assinaturas de uma reunião da qual moradores afirmam não ter participado ou desconhecer a natureza política da convenção, alegando que não foram informados da relação com o partido.
A reunião em questão foi realizada no dia 3 de fevereiro de 2025, às 18h, em um pequeno imóvel localizado no bairro Nossa Senhora da Vitória, identificado pelos nomes ouvidos nesta reportagem como uma “igreja”.
Segundo a ata de presença, 84 pessoas teriam participado do encontro, que definiu a escolha de delegados para a conferência estadual do partido Rede Sustentabilidade na Bahia.
Trecho das atas do partido — Foto: Reprodução / Bahia Notícias
Números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) daquele mesmo mês de 2025 registram que a cidade de Ilhéus possuía 62 filiados, o que implicaria que pessoas de municípios vizinhos teriam participado da conferência.
As dúvidas sobre essa reunião foram apresentadas em uma ação na Justiça Federal, já que muitos nomes que aparecem na lista de presença negam ter participado. O documento implica que afiliados políticos assinaram a lista de presença de modo consciente em uma plenária.
No entanto, pessoas que aparecem na ata afirmam não ter estado naquela igreja na data em questão ou sequer saber da existência do partido, mesmo que o documento esteja assinado. O Bahia Notícias identificou e entrou em contato com pessoas que constavam com assinatura na lista.
Embora não tenham conhecimento da natureza política da convenção, os entrevistados relataram temer represálias. Por isso, o BN optou utilizar nomes fictícios nas supostas vítimas, em respeito aos relatos e às queixas de possíveis retaliações por parte dos organizadores.
Vale ressaltar que parte dos ouvidos e fontes internas do partido na Bahia confirmam que o caso segue em sigilo na Justiça. Portanto, cada pessoa ouvida em entrevistas pode considerar os fatos que estão ajuizados de modo individual.
Para casos como o de Gabriela Santos, tudo teria sido uma “enganação malandra”. Mãe de duas crianças no espectro autista e moradora de Ilhéus, a mulher relata se sentir enganada com promessas de que a reunião seria para conseguir um endereço por meio do programa Minha Casa Minha Vida.
Mesmo com o nome assinado junto ao número de seu título de eleitor no documento, entre os 84 registros, ela declarou que não foi informada que usavam seus dados para associação com um partido político.
"Me colocaram em grupo, outro grupo, outro grupo. E eu confirmei minha presença, pois eu quero a minha casa. Me sinto enganada. Estou me sentindo um lixo, já tem 3 anos, dei meus dados. Estou sendo usada para política. Eles estão nos enganando”, revela ao BN.
Além de Gabriela Santos, a reportagem identificou pelo menos outros dez moradores da região que declararam, em entrevistas ou em manifestações anexadas ao processo judicial, não serem associados ao partido e afirmarem que não assinaram nenhuma ata de filiação partidária.
Um deles é Pedro Borges, morador de Águas de Pontal, em Ilhéus. Ele afirma que não conhece a Rede Sustentabilidade e que acredita ter sido incluído na lista de presença sem autorização.
“Não estive presente nesse ano. Alguém deve ter colocado meu nome lá. Eu moro em Águas de Pontal, nem estive na cidade. O número do título na ata é meu, mas eu não assinei nada, nem fui lá”, salienta.
Outra pessoa citada na ata é Verônica Costa, que declarou à reportagem não conhecer a sigla e disse não ter informações sobre qualquer participação em reunião partidária. Em alguns casos, os relatos apontam que os convites para as reuniões eram feitos por meio de promessas relacionadas a programas sociais, principalmente o Minha Casa Minha Vida.
Patricia Santos diz ter participado de um encontro em 2024 acreditando se tratar de uma reunião sobre moradia. “Fui a uma reunião no ano passado, mas foi do Minha Casa e Minha Vida. Não foi em fevereiro e não assinei nada”, relata.
Segundo familiares, Patricia teria sido atraída pela promessa de informações sobre o programa habitacional. Outro caso semelhante é o de Fernanda Santana, que afirmou à reportagem ter fornecido dados pessoais, incluindo o título de eleitor, após os organizadores alegarem ser para um cadastro para habitação.
Ela afirma que o grupo reunia mais de 200 pessoas que aguardavam informações sobre moradias populares. “Disseram que era para casa do Minha Casa Minha Vida. Pediram o título de eleitor e dados pessoais. Até hoje estamos esperando”, relata.
Karoline Sales afirma ter participado de uma reunião em uma igreja, mas diz que não foi informada de qualquer vínculo partidário. “Não faço parte de nenhum partido. Assinei uma ata de presença na igreja, mas não era documento de partido político”, diz.
Ela também cita os nomes organizadores na cidade, entre eles o pastor Antonio Araújo, como pessoas presentes na organização do encontro.
Em outros casos, os relatos apresentam contradições. Edison Carvalho retrata inicialmente que teria participado de uma assembleia do grupo, mas depois disse que não autorizou o uso do próprio nome em registros políticos.
“Na realidade, eu nem participei dessa reunião. Usaram meu nome. É questão política lá da igreja”, declara.
Já Maria Rocha confirmou que autorizou sua filiação em certo momento ao partido, mas afirmou não ter estado presente na reunião registrada na ata, mesmo com seu nome nela. Em alguns casos, os registros apresentam grafias muito semelhantes.
Um dos nomes é o de Hanna Dias, que afirma no processo não ter participado do encontro e diz que a assinatura atribuída a ela não corresponde à sua própria letra, além de apresentar erro na grafia de seu nome. Na ata recebida pelo Bahia Notícias, a assinatura, inclui sua nomenclatura escrita errado, sem a letra "H".
"Não estive na Assembleia de Deus no dia. Não é minha letra na assinatura da ata de convenção, fora que meu nome está escrito errado na assinatura", disse em relato.
MODUS OPERANDI
Os relatos coletados pela reportagem indicam que a mobilização das pessoas ocorria principalmente por meio de grupos de mensagens e convites informais, frequentemente associados a promessas de benefícios sociais, batizados como “MLMT” ou “MSTI” com centenas de membros.
Capturas de telas realizadas pelas fontes nos grupos | Foto: Reprodução / BN
Em áudios obtidos e revelados pelos moradores dentro desses grupos, é possível ouvir menções a cursos de qualificação, viagens e oportunidades relacionadas ao programa Minha Casa Minha Vida.
Alguns entrevistados relataram que os participantes eram orientados a levar documentos pessoais e o título de eleitor, sem que fosse explicado que a reunião teria relação com atividades partidárias.
LIDERANÇAS DA REDE
Ao final da ata consta a assinatura de Paulo Roberto Chaves de Miranda, dirigente do partido em Minas Gerais e aliado da deputada federal Heloísa Helena. Uma fonte da reportagem indicou que ele seria responsável por todas as atas eleitorais da legenda ao redor do país, sendo um dos mentores da suposta fraude.
.jpg)
Uma das páginas da lista de presença, anexada ao processo. (Nomes / N.° de eleitor / Data de Afiliação e Assinaturas) | Foto: Reprodução / BN
No âmbito municipal, nomes são apontados por moradores como organizadores da reunião. Entre eles aparece Antonio Araújo, citado durante as entrevistas como articulador na mobilização de pessoas para o encontro.
“Participei sim, em 3 de fevereiro, ele falou do Minha Casa Minha Vida, perguntou quem queria ser associado ou viajar para Brasília, mas como tenho dois filhos, não tinha como. É um tal de pastor. Eu não sou afiliada a nada, não me falou disso não. Uma moça me enviou um link e pediu meus dados para enviar os documentos para Brasília para o Minha Casa Minha Vida”, detalha a mãe, Gabriela Santos.
Mensagem obtida pela pela reportagem em grupos de participantes, um áudio atribuído ao pastor Antônio Araújo orienta as pessoas a não falarem com a imprensa. A gravação de voz foi enviada durante a apuração do Bahia Notícias sobre o suposto esquema de fraude nas assinaturas nas atas.
“Não dê ouvido a pessoas que estão passando por jornalistas, dizendo que querem entrevista porque vocês estão na base do partido. Não vá nessa não. É gente que quer atrapalhar nosso trabalho, roubar o sonho de vocês”, instrui na gravação.
Confira o registro reproduzido em grupo:
? VÍDEO: "Não vá nessa não", orienta liderança em grupo sobre falar com a imprensa
— Bahia Notícias (@BahiaNoticias) March 19, 2026
????Matéria completa: Denúncia aponta coleta de dados vinculada a benefícios sociais e assinaturas falsificadas em processo da Rede: https://t.co/CxfNzmwru4
Vídeo: Reprodução / BN ?????????? ? pic.twitter.com/Hy8mG0Xk4U
Procurado, o pastor Antonio Araújo, afirmou à reportagem que passa por um momento de luto e negou ter enviado áudios orientando moradores a não falar com jornalistas. Ao BN, ele também respondeu sua relação com o partido, mas nega coleta de dados, registrada no mesmo espaço de sua mobilização.
“Sou ligado ao partido Rede. Não houve coleta de dados eleitorais de qualquer tipo, não falamos sobre partido lá. Tenho projetos de moradia. A igreja é um espaço meu que faço realizações independentemente do partido”, esclarece.
O pastor recomenda falar à direção do partido, contudo não deu mais informações sobre as reuniões no espaço.
A reportagem também procurou Paulo Roberto Chaves de Miranda via e-mail para comentar as denúncias e esclarecer a origem das assinaturas presentes na ata, mas não houve resposta até o fechamento desta edição.
Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que questionamentos semelhantes já teriam ocorrido em outros municípios baianos, como Entre Rios e Una. Em janeiro, o Bahia Notícias publicou uma reportagem que trouxe uma denúncia de uma assinatura “pós-morte” do cantor e compositor baiano Carlos Pitta (1955–2025).
A reportagem do BN obteve acesso à ata da conferência de eleição do partido, datada em 3 de fevereiro de 2025, na qual consta a presença de Carlos Pitta, inclusive, com sua assinatura. Entretanto, o artista faleceu no mês anterior, no dia 7 de janeiro de 2025, assim não sendo possível sua participação na conferência.
DECISÕES
A reportagem também identificou decisões judiciais envolvendo disputas internas da legenda no Rio de Janeiro. O caso relacionado à ata de Ilhéus está sendo analisado pela Justiça, com julgamento relacionado ao tema previsto para tramitação no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF).
Lideranças locais da Rede Sustentabilidade foram procuradas para comentar as denúncias. A organização municipal do partido não respondeu. Todavia, o Diretório Estadual da Bahia, por meio de seu porta-voz Marcelo Carvalho, enviou uma nota.
Na manifestação, a legenda pontua que “reafirma seu compromisso histórico com a ética, a legalidade e a transparência em todas as suas atividades partidárias” e que “não compactua, em nenhuma hipótese, com qualquer prática irregular ou ilegal”.
O partido também alega que “todas as conferências municipais realizadas no estado da Bahia observaram rigorosamente as normas partidárias e os procedimentos estatutários aplicáveis”, acrescentando que os encontros foram analisados e ratificados pela Comissão Eleitoral Nacional da sigla.
Leia a nota completa do partido na íntegra:
"A Rede Sustentabilidade – Diretório Estadual da Bahia reafirma seu compromisso histórico com a ética, a legalidade e a transparência em todas as suas atividades partidárias.
O partido não compactua, em nenhuma hipótese, com qualquer prática irregular ou ilegal, e rechaça de forma veemente quaisquer condutas que eventualmente possam contrariar a legislação eleitoral ou os princípios que orientam sua atuação política.
Cumpre esclarecer que todas as conferências municipais realizadas no estado da Bahia observaram rigorosamente as normas partidárias e os procedimentos estatutários aplicáveis. Tais conferências foram devidamente submetidas à análise da Comissão Eleitoral Nacional da Rede Sustentabilidade, tendo sido regularmente ratificadas por esse órgão interno de controle.
Além disso, os atos partidários correspondentes foram posteriormente validados no Congresso Nacional do partido, instância máxima de deliberação da Rede Sustentabilidade, o que reforça a regularidade formal e institucional dos procedimentos adotados.
A direção estadual permanece à disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais que se façam necessários e reafirma sua confiança nos mecanismos institucionais de apuração, certos de que os fatos serão devidamente esclarecidos.
A Rede Sustentabilidade seguirá atuando com responsabilidade institucional e respeito às normas democráticas, preservando os valores que orientam sua atuação política e sua relação com a sociedade."
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Sérgio Moro
"Se vamos adentrar na questão da Bahia, então vamos convocar o ministro Rui Costa e o governador Jerônimo Rodrigues, que deu continuidade a essa relação do governo baiano com o Master".
Disse o senador Sérgio Moro (União-PR) durante a CPI do Crime Organizado do Senado e debater as possíveis convocações para a comissão.