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oito locais
Ao longo dos últimos meses, o historiador baiano André Carvalho tem realizado expedições por diversas propriedades rurais de Tucano, no território do Sisal, em busca de vestígios do passado da região. O trabalho revela oito locais com pinturas e gravuras rupestres, além da confirmação, por arqueólogos, pesquisadores e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da relevância arqueológica do município.
Confira aqui todos os locais em um mapa:
Apesar da relevância dos achados, a Prefeitura de Tucano e o Governo da Bahia não informaram ao Bahia Notícias (BN) se existem estudos, investimentos ou projetos voltados à preservação e aproveitamento desse patrimônio. Em entrevista ao BN, o historiador revelou com exclusividade detalhes das descobertas.
Segundo ele, seis dos locais já passaram por avaliação técnica, enquanto dois ainda aguardam análise minuciosa. A descoberta mais recente ocorreu no último domingo (30). Mesmo assim, grande parte dos achados já teve a existência de registros arqueológicos confirmada por especialistas vinculados ao Iphan, primeiro passo fundamental para a mobilização em torno da preservação e do estudo histórico desses locais.
Registros das passagens, pinturas e gravuras. | Fotos: Reprodução / André Carvalho
Ao BN, o órgão confirmou que enviou um técnico qualificado e que, juntamente com o historiador tucanense, realizou uma visita técnica ao distrito de Tracupá, em julho deste ano, ampliando a identificação de seis sítios arqueológicos e reforçando a relevância histórica e cultural da região.
Todo esse processo ocorreu após uma mobilização local em busca de melhor atendimento e catalogação das descobertas. “É aquela coisa, eu sou professor e faço isso no meu tempo livre. Fico 40 horas [por semana] em sala de aula e gosto de fazer trilhas. Sempre consulto os proprietários e os órgãos locais para cobrar atenção às descobertas”, relata o historiador.
Vale destacar que a grande maioria dos registros está localizada em propriedades privadas, o historiador tem feito um trabalho de instrução com os donos de fazendas locais. “Sempre entro com a anuência do proprietário. No caso da Fazenda Caldeirão, por exemplo, foi o próprio dono quem me levou até o local. Em Poções [povoado local], um funcionário do povoado me acompanhou. Nunca entro sem o conhecimento e a autorização dos proprietários", argumenta.
O BN entrou em contato com parte dos proprietários dos terrenos onde foram identificados os registros arqueológicos. De maneira geral, os entrevistados demonstraram apoio às pesquisas e defenderam a preservação dos sítios, mas temem a falta de comunicação e projeto do poder público local.
Segundo os relatos, muitos dos murais rupestres eram conhecidos apenas por moradores mais antigos das terras, mas não possuíam qualquer tipo de conhecimento ou estudo aprofundado para entender a dimensão dos achados. Como no caso do produtor rural Gilmar Amorim, que afirma ao BN conhecer a região desde a sua infância.
“Eu encontrei essas marcas e gravuras quando tinha cerca de sete anos. Vi no paredão enquanto observava os animais. Fiquei curioso com as gravuras, mas nunca tive interesse em comunicar ninguém. Somente agora convidei as pessoas para conhecerem o local", conta.
Veja murais em vídeo:
TESOURO ARQUEOLÓGICO ???? Historiador descobre sítio de gravuras rupestres históricas em fazenda no interior da Bahia
— Bahia Notícias (@BahiaNoticias) October 15, 2024
Confira ? pic.twitter.com/pEsnaQLiiP
O produtor rural herdou parte da propriedade e ampliou suas terras ao longo dos anos. Há mais de quatro décadas vivendo na região, ele defende que a Prefeitura de Tucano amplie ações de estruturação das trilhas e de valorização do patrimônio arqueológico local como uma parceria no turismo baiano.
“Não, o poder público local não teve nenhuma manifestação comigo. Quanto às gravuras rupestres, eu permitiria a entrada para fins turísticos, com um caminho por dentro da propriedade. Quem me orientou foi Alex, técnico do Iphan. Não tenho problemas com isso. Agora, a prefeitura não tem agilidade para desenvolver projetos em parceria. Acho que falta incentivo ao turismo rural em Tucano", desabafa em entrevista.
Segundo André Carvalho, a recepção inicial da população foi marcada por desconfiança e muito desrespeito aos registros mais acessíveis, com pessoas escrevendo nos murais com os registros. “No começo, as pessoas ficaram incrédulas com as descobertas, achando que eram apenas atos de vandalismo. Depois que professores e o Iphan confirmaram os registros, a opinião das pessoas mudou”, relata.
Não é a primeira vez que o interior da Bahia chama atenção por novos achados arqueológicos. Em diferentes municípios do estado, estudantes e pesquisadores independentes têm contribuído para ampliar o conhecimento sobre a ocupação humana pré-histórica da região.
Casos recentes registrados em cidades como Xique-Xique demonstram que ainda existe um vasto patrimônio arqueológico pouco estudado no território baiano. Especialistas apontam que a combinação entre o conhecimento dos moradores locais e o trabalho de pesquisadores tem sido fundamental para localizar novos sítios e preservar áreas de interesse histórico.
CIENTISTAS IGNORADOS
A avaliação é compartilhada por pesquisadores que acompanham os estudos na região. O BN também ouviu o pesquisador Carlos Alberto Costa, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), que relatou já ter apresentado um plano de atividades e relatórios à administração municipal.
“Fizemos um pequeno plano de ação e apresentamos na Prefeitura, mas nunca tivemos retorno. Seria uma oportunidade singular, considerando que Tucano já possui vocação turística por causa das águas termais. Com apoio da prefeitura, seria possível desenvolver ações no local", desabafa.
Segundo ele, existe potencial para a criação futura de projetos permanentes de pesquisa, educação patrimonial e turismo ancorado pelo conhecimento científico. No entanto, isso depende de um mapeamento detalhado dos sítios arqueológicos e da participação de estudantes em levantamentos de campo.
“Com esse plano de atividade, poderíamos reunir informações históricas e arqueológicas para, posteriormente, preparar uma visitação turística responsável. Ficamos aguardando esse retorno, que nunca ocorreu”, lamenta.
Trecho do relatório apresentado | Fotos: Reprodução / Dr. Carlos Costa
O BN teve acesso aos dois documentos, tanto o plano de atividades quanto o relatório apresentados à Prefeitura de Tucano. Nesses papéis, os doutores Henry Fernandes e Carlos Costa fazem uma proposta prévia à disponibilização de um veículo e ao apoio a quatro estudantes locais para realizar o mapeamento dos sítios, formando um grupo orientado por um arqueólogo da UFRB.
“A ideia é reunir pessoas interessadas no local. A arqueologia é uma área interdisciplinar. Se conseguirmos estudantes de graduação de qualquer área, será positivo. Pode ser Pedagogia, Agronomia, História ou qualquer outro curso. O mais importante é o interesse pelo debate patrimonial”, argumenta.
Questionado sobre o papel das universidades no aprofundamento dos estudos, o pesquisador destacou que as instituições de ensino superior podem colaborar com pesquisas futuras, mas ressaltou que o primeiro passo é a documentação sistemática dos sítios já identificados.
“Sempre é melhor trabalhar com pessoas da própria localidade para que possamos treiná-las e fomentar o interesse em médio e longo prazo. Isso gera conhecimento e fortalece a formação local. A ideia era criar um potencial de pesquisa permanente em Tucano”, explica.
Trecho do plano de atividades ignorado pelo poder público | Fotos: Reprodução / Dr. Carlos Costa
De fato, o projeto não surgiu inicialmente dentro da universidade, foi necessário um morador de Tucano curioso para alertar os setores do estado. “Não estava em nosso horizonte trabalhar em Tucano, mas apareceu um parceiro muito solícito, que foi André. Trata-se de uma iniciativa genuína de alguém interessado em preservar a história local, e decidimos ajudar", afirma Costa.
POTÊNCIA ARQUEOLÓGICA
Tanto os pesquisadores da UFRB quanto o da Universidade Federal da Bahia (Ufba) ouvidos pelo BN alertam que os dados arqueológicos da região seguem escassos. Há potencial para estudos sobre ocupações anteriores à colonização portuguesa e também sobre períodos posteriores.
“O trabalho que André tem realizado é de altíssima relevância, e talvez o município ainda não tenha percebido isso. Tucano é conhecido pelas águas termais, mas não pode ser apenas isso. Existe uma oportunidade importante de valorizar outros patrimônios. A ideia de que o progresso só vem por meio da exploração econômica é ultrapassada", alerta o especialista.
Apesar das discussões sobre investimentos e políticas públicas, todos os entrevistados elogiaram o trabalho realizado por André Carvalho. Moradores, proprietários rurais e pesquisadores destacaram sua dedicação na localização, catalogação e divulgação dos registros arqueológicos encontrados em Tucano.
“Eu só quero facilitar o acesso para quem quiser estudar. Quem pretende desenvolver pesquisas ou até um doutorado na área de arqueologia pode contar com minha colaboração. Não sou especialista, mas valorizo a educação acima de tudo”, responde o historiador.
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AÇÕES E COBRANÇAS
As primeiras descobertas são resultado de visitas de campo iniciadas em agosto de 2024, aliadas ao levantamento de informações junto à população local. A partir de novembro do mesmo ano, os registros de pinturas e gravuras rupestres passaram a receber acompanhamento técnico dos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio.
Exemplos de gravuras e pinturas já confirmadas pelo Iphan | Fotos: reprodução / André Carvalho
Apesar dos avanços na identificação e documentação dos sítios, pesquisadores e moradores avaliam que, após quase dois anos, poucas ações efetivas foram implementadas para a valorização, preservação e estudo desses espaços.
“Eu acho que a prefeitura tem uma postura muito distante desse debate. Isso movimenta o turismo do município. Se não houver apoio, todos perdem. André tem uma grande visão e os professores precisam de apoio. Acho que a Secretaria de Turismo carece de estrutura e recursos para desenvolver esse trabalho", acrescenta Gilmar Amorim.
O potencial turístico apontado pelos pesquisadores também encontra respaldo em documentos oficiais do próprio Governo da Bahia. Na publicação "Estratégia Turística da Bahia 4.0", divulgada em 2022, o Estado classifica Caldas do Jorro como uma “reconhecida estância hidromineral” e identifica Tucano como um destino prioritário para os segmentos de bem-estar, cultura, gastronomia e eventos.
Após a repercussão dos achados revelados por este portal, a Prefeitura de Tucano lançou em novembro de 2024 a campanha de proteção intitulada "Preservar nossa história é proteger quem somos", pedindo conscientização sobre a importância da preservação dos sítios arqueológicos e os riscos provocados por atos de vandalismo.
Relembre logo abaixo:
Segundo André Carvalho, a gestão municipal tem demonstrado preocupação com a preservação do patrimônio arqueológico local, todavia não tem tido atualizações após a campanha. “Quero construir um caminho para valorizar essas descobertas, seja por meio de editais ou de outras iniciativas. Mas ainda vejo pouca produção voltada para a história da Bahia”, reafirma.
Segundo o Iphan, os registros ampliam significativamente o conhecimento sobre o patrimônio arqueológico do município. Mesmo assim, André afirma que ainda aguarda novas visitas técnicas para análise dos locais recentemente identificados. A questão é a falta de apoio, que segue evidente. Todo o trabalho ignorado foi feito por cientistas de modo voluntário.
“Os professores da UFRB realizam esse trabalho por boa vontade. Ainda esperamos o retorno do Iphan sobre os novos locais, afinal o órgão atende toda a Bahia. Da mesma forma, os professores têm suas atividades acadêmicas e não posso cobrar algo que não é remunerado”, diz André.
Para esta reportagem, o Bahia Notícias procurou as secretarias municipais de Turismo, Educação e Planejamento da prefeitura de Tucano, além da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia (Secti), para saber se existem projetos, estudos ou investimentos previstos em razão das novas descobertas arqueológicas no município. Até o fechamento desta matéria, nenhuma das pastas havia se manifestado. O espaço permanece aberto para posicionamentos.
Já o Iphan reconhece a relevância dos achados e já realizou visitas técnicas na região para avaliar os registros identificados por André Carvalho. Em nota enviada ao BN, o órgão confirmou a parceria com o pesquisador e destacou a importância das descobertas para a arqueologia baiana.
A autarquia federal informou que a identificação dos novos sítios arqueológicos é resultado de um trabalho colaborativo entre o historiador e a equipe técnica do instituto. Confira abaixo uma nota na íntegra do Iphan:
“O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informa que a descoberta do sítio arqueológico, em Tucano (BA), em janeiro deste ano, decorreu de parceria com o professor, historiador e servidor público estadual André Silva Carvalho,
O novo registro eleva para seis o número de sítios arqueológicos conhecidos no município. Desse total, quatro já foram cadastrados pelo Iphan.
O trabalho funciona de forma colaborativa: o professor realiza expedições de campo e coleta relatos de moradores locais sobre possíveis vestígios históricos, os quais são comunicados ao Iphan.
Em julho deste ano, a equipe técnica do Instituto realizou visita técnica no distrito de Tracupá, ampliando a descoberta de sítios arqueológicos já identificados e reforçando a relevância histórica e cultural da região.
Além do resgate histórico, a parceria desenvolve ações educativas nas escolas do município. Durante as visitas de reconhecimento, técnicos do Iphan ministram palestras sobre o Patrimônio Cultural Brasileiro e a importância da preservação arqueológica, estimulando o interesse da comunidade e o sentimento de cidadania.
A descoberta de bens arqueológicos deve ser comunicada imediatamente ao Iphan, órgão responsável pelo reconhecimento e registro do patrimônio arqueológico brasileiro.
O cadastramento de um local como sítio arqueológico ocorre a partir do atendimento aos critérios estabelecidos na Portaria Iphan nº 316/2019 e é formalizado por meio da homologação do cadastro no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG), sob responsabilidade do Centro Nacional de Arqueologia (CNA/Iphan).
O cadastro é realizado mediante o envio da Ficha de Cadastro de Sítio Arqueológico (FCSA), que pode ser apresentada por arqueólogos, outros profissionais autorizados ou por qualquer cidadão que identifique bens arqueológicos, devendo informar sua descrição e localização à superintendência do Iphan no estado", termina em nota.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Marcelo Werner
"Polícia é segurança pública, mas segurança pública não é só polícia".
Disse o secretário da Segurança Pública da Bahia, Marcelo Werner ao defender uma compreensão mais ampla e intersetorial da segurança pública, que ultrapassa a atuação das forças policiais e envolve a participação da sociedade civil e a articulação com áreas como educação, esporte e cultura.