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O crescimento da cadeia produtiva asinina no Brasil tem tido desafia que vão além dos desafios econômicos e produtivos.

Foto: Divulgação
Para o zootecnista e administrador agropecuário Alex Bastos, entidades contrárias ao aproveitamento econômico dos jumentos têm divulgado informações que, na avaliação dele, dificultam o desenvolvimento de uma atividade capaz de gerar emprego, renda e oportunidades para o semiárido nordestino.
"No entanto, parte do debate público tem sido pautada por números não oficiais sobre a população de jumentos no país. Existe uma narrativa recorrente de que a espécie estaria em risco iminente de extinção. O problema é que muitos desses números não consideram fatores importantes, como o sub-registro histórico dos animais e décadas de abandono, especialmente no Nordeste", afirma.
O especialista diz que a mecanização do campo reduziu o uso da espécie nas atividades rurais. Com isso, muitos jumentos deixaram de integrar os cadastros produtivos formais e passaram a viver soltos em áreas rurais, margens de rodovias e outros espaços sem monitoramento sistemático.
"A redução dos registros oficiais não pode ser interpretada automaticamente como redução proporcional da população. É preciso diferenciar abandono de extinção. A diminuição da presença dos animais nas atividades tradicionais não significa necessariamente o desaparecimento biológico da espécie", completou.
Ele avalia que a disseminação de informações sem critérios técnicos traz impactos sobre o setor, como dificuldade para atrair investimentos privados, ampliar pesquisas científicas e desenvolver projetos voltados à conservação genética e à reprodução assistida.
"Tecnologias como a Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide (ICSI) permitem preservar linhagens, ampliar a variabilidade genética e fortalecer os rebanhos. São ferramentas importantes para garantir o futuro da espécie", acrescentou.
Outro ponto destacado por Bastos é o potencial agroindustrial da atividade. O aproveitamento de produtos derivados dos asininos é regulamentado pelo Ministério da Agricultura e segue as normas estabelecidas pelo Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Riispoa), que determina critérios rigorosos de inspeção, rastreabilidade e bem-estar animal.
Um jumento inflável de cerca de três metros foi instalado em Salvador como parte de uma mobilização em defesa da preservação da espécie no Brasil. A ação busca pressionar pela aprovação do Projeto de Lei 2.387/2022, criada pelo ex-deputado federal Ney Leprevost (Republicanos-PR), que propõe a proibição definitiva do abate desses animais no país.
“O avanço do nosso projeto é um passo fundamental para corrigirmos uma injustiça. Não podemos aceitar que cavalos, mulas e jumentos. Animais que sempre estiveram ao lado do ser humano, ajudando no trabalho, no campo e até em terapias sejam submetidos a práticas cruéis para atender interesses comerciais. Essa proposta defende o respeito, o bem-estar animal e valores que a nossa sociedade não abre mão”, afirmou o político ao Bahia Notícias.
O inflável ficará exposto no Largo do Pelourinho e também em frente à Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), onde a iniciativa deve ganhar mais visibilidade ao longo da semana. A proposta legislativa tramita desde 2022 na Câmara dos Deputados, mas ainda não foi votada.
A mobilização também coincide com a realização do Workshop Internacional Jumentos do Brasil, que acontece na Alba nos dias 6 e 7 de maio, promovido pela Frente Nacional de Defesa dos Jumentos e o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. O encontro reúne especialistas, representantes do poder público e organizações da sociedade civil para discutir alternativas de proteção e políticas públicas voltadas à espécie.
No mês passado, a Justiça Federal determinou a suspensão do abate de jumentos no país. Segundo entidades de proteção animal, o Brasil perdeu cerca de 94% da população de jumentos entre 1996 e 2024.
A capital baiana recebe, entre os dias 4 e 7 de maio, uma mobilização pública pedindo a aprovação de uma legislação federal para proibir definitivamente o abate de jumentos no país, prevista no Projeto de Lei (PL) 2387/2022. O ator prevê a exibição de um jumento inflável de 3 metros de altura será instalado em dois pontos da cidade: no Pelourinho, nos entre os dias 4 e 5 de maio, e na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), nos dias 6 e 7.
No Pelourinho, o inflável ficará exposto das 11h às 14h com objetivo de chamar a atenção de moradores e turistas sobre o risco de extinção dos jumentos na região nordeste. Haverá apresentação de repentistas, cantando esse tema, e distribuição de um material educativo para os interessados.
A reta final da mobilização ainda conta com o IV Workshop Internacional: Jumentos do Brasil, que deve reunir especialistas, representantes do poder público e organizações da sociedade civil na AL-BA para discutir o futuro da espécie no país.
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PROTEÇÃO ANIMAL
Dados divulgados por pesquisadores em 2025, com base em informações da FAO, IBGE e Agrostat, indicam que o Brasil perdeu 94% de sua população de jumentos entre 1996 e 2024. Isso significa que, de cada 100 animais existentes na década de 90, restam apenas 6 hoje – cenário associado, principalmente, ao abate do animal para a retirada da sua pele que será exportada para a China.
Na cultura chinesa, o colágeno dos jumentosé utilizado para fabricar uma substância chamada ejiao,considerado um elixir anti-envelhecimento, cuja eficácia nunca foi comprovada cientificamente. Segundo a organização não governamental The Donkey Sanctuary, só nesse país, a demanda anual por peles de jumentos é de cerca de 5,9 milhões de unidades, podendo chegar a 6,8 milhões até 2027.
O tema ganha urgência diante de alertas de cientistas brasileiros que, no último workshop internacional, em maio de 2025, decretaram o estado de emergência da espécie, com risco de extinção até 2030, frente à redução acelerada de sua população.
Segundo a Carta Aberta assinada por 12 especialistas em medicina veterinária e agroeconomia, o descarte inadequado de jumentos mortos, especialmente em áreas com alta prevalência de de uma doença chamada “mormo” (como no Nordeste brasileiro), representa um risco grave à saúde animal e pública, já que se trata de uma zoonose letal. A bactéria Burkholderia mallei pode sobreviver na carcaça e disseminar o mormo contaminando o ambiente, a água e os alimentos de humanos.
PROJETO DE LEI
No dia 13 de abril, a Justiça Federal determinou a suspensão do abate. A decisão, no entanto, cabe recurso em segunda instância e não garante a proteção da espécie. Desde então, ONGs de proteção ao direito animal vêm lutando contra o abate, com ações Justiça e pressão no Congresso Nacional, para votar o PL 2387/2022, atualmente parado
na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados.
O projeto em questão em tramitação na Câmara desde 2022, mas nunca foi levado à pauta para a votação do fim definitivo do abate de jumentos em todo o território nacional.
Uma inovação científica desenvolvida pelo Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) surge como a principal alternativa para salvar a população de jumentos no Brasil, cujo abate hoje está concentrado em duas unidades industriais no interior da Bahia e de outras regiões no nordeste brasileiro.
O projeto, que já concluiu as etapas laboratoriais mais complexas, foca na produção do ejiao — uma gelatina extraída da pele do jumento e altamente valorizada pela medicina tradicional e indústria de beleza da China. Atualmente, o mercado de 'ejiao' movimenta cerca de US$ 1,9 bilhão anualmente.
Os pesquisadores buscam investimento de US$ 2 milhões para escalonar a produção de colágeno de jumento via fermentação de precisão, método que dispensa o sacrifício dos animais. Vale lembrar pesquisadores de diferentes áreas e departamentos concederam uma entrevista ao Bahia Notícias (BN), definindo os locais de abate fechados na Bahia como "verdadeiros campos de concentração".
O CASO NA BAHIA
A atividade de abate no Brasil é descrita por especialistas como extrativista e de baixo retorno econômico local, beneficiando atualmente apenas dois abatedouros em operação no território baiano. Dados da FAO e do IBGE revelam um cenário alarmante: a população de jumentos no país despencou 94% entre 1996 e 2024. No Nordeste, símbolo cultural da região, restam apenas seis jumentos para cada 100 que existiam há 30 anos.
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“Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão com biorreatores, é possível produzir uma quantidade muito maior de proteína com menos insumos”, explica Carla Molento, coordenadora do projeto na UFPR.
Com a conclusão das etapas de sequenciamento e preparação do DNA, a equipe entra agora na fase de viabilidade técnica. O objetivo é apresentar, até dezembro de 2026, a "prova de conceito" com a produção das primeiras miligramas de colágeno integralmente obtido em laboratório.
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) decidiu, por unanimidade, suspender a proibição do abate de jumentos, muares e bardotos no Estado da Bahia, que havia sido determinada em decisão liminar da 1ª Vara Federal da Seção Judiciária baiana, em ação civil pública movida por entidades de proteção animal. O julgamento, realizado pela Quinta Turma, atendeu a agravo de instrumento interposto pela União, que contestou a extensão da medida e defendeu a legalidade da atividade de abate quando submetida à fiscalização federal.
No recurso, a União argumentou que o abate de equídeos é disciplinado pelo Decreto nº 9.013/2017 e pela Instrução Normativa nº 3/2000 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que estabelecem regras para o chamado abate humanitário e para as condições sanitárias dos produtos de origem animal. Segundo a agravante, a atividade é acompanhada pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF), o que afastaria a tese de irregularidade generalizada e de violação automática às normas de proteção à fauna. A União também afirmou não haver, nos autos de origem, atribuição clara de conduta ilícita comissiva ou omissiva ao poder público federal, nem comprovação de nexo de causalidade entre a atuação estatal e os supostos maus-tratos alegados pelas entidades autoras.
O relator, desembargador federal Eduardo Martins, destacou em seu voto que a Constituição Federal protege a fauna e veda práticas cruéis contra animais, mas que essa tutela não autoriza, como regra, a proibição absoluta e por tempo indeterminado de atividades econômicas regularmente instituídas e fiscalizadas pelo próprio Estado. Nesse caso específico, a Turma entendeu que não foi comprovado que o abate realizado em estabelecimentos sob inspeção federal, nos parâmetros técnicos vigentes, configure prática cruel por si só.
O acórdão também ressaltou a necessidade de cautela na interferência do Judiciário em setores sujeitos a regulação técnica, como o de produtos de origem animal. Para o colegiado, a política pública de proteção ambiental e sanitária no país costuma adotar instrumentos graduais, como suspensões pontuais, períodos de defeso e ajustes normativos, em vez de proibições permanentes, justamente para conciliar a preservação da fauna com a continuidade de atividades econômicas lícitas. Os desembargadores apontaram ainda que eventuais irregularidades em transporte, fiscalização ou procedimentos de abate devem ser apuradas e corrigidas caso a caso pelos órgãos competentes, e não servir de base, sem prova específica, para paralisar toda a cadeia produtiva.
Com a decisão, a Quinta Turma do TRF1 deu provimento ao agravo de instrumento da União e restabeleceu a possibilidade de abate de jumentos, muares e bardotos na Bahia, desde que a atividade seja conduzida em conformidade com a legislação vigente e sob fiscalização dos órgãos federais competentes. O colegiado enfatizou que a suspensão da proibição não afasta o dever de controle contínuo por parte do poder público nem impede que medidas específicas sejam adotadas quando forem constatadas irregularidades ou maus-tratos em situações concretas, no curso da ação civil pública que segue em tramitação na Justiça Federal.
O QUE AS ENTIDADES DIZEM
Do outro lado, entidades de proteção animal e um grupo de cientistas apresentam um cenário diferente. Elas contestam a decisão com base em dados que apontam um declínio populacional de 94% dos jumentos no país entre 1996 e 2024, segundo levantamentos da FAO, IBGE e Agrostat. Em um documento público, PhDs de diversas áreas da medicina animal decretaram "Estado de Emergência" para a espécie, com uma projeção alarmante: a extinção dos jumentos nordestinos pode ocorrer até 2030 se o abate continuar. Os especialistas argumentam que não existe uma cadeia produtiva de criação de jumentos no Brasil, caracterizando a atividade como extrativista, dependente da captura de animais em ambiente natural, o que impossibilita o controle e a reposição populacional.
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"A decisão desconsidera evidências científicas sólidas: não há base técnica, sanitária ou econômica que justifique essa atividade. O país não pode permitir que uma espécie importante caminhe para o desaparecimento", pontua Vânia Nunes, diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (FNPDA), uma das autoras da ação.
Os críticos também questionam a relevância econômica citada pela defesa do abate. Um estudo do professor Roberto Arruda de Souza Lima, da ESALQ-USP, concluiu que o setor representa menos de 0,000003% das exportações brasileiras e que os abatedouros analisados, como o de Amargosa, na Bahia, operam com prejuízo de aproximadamente 25%. Além disso, a prática é acompanhada por denúncias de falhas sanitárias, crimes ambientais e irregularidades trabalhistas, incluindo trabalho infantil e condições análogas à escravidão, já alvo de apuração pelo Ministério Público da Bahia.
O recurso das entidades contra a decisão do TRF1 foi interposto, e a matéria ainda pode ser analisada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, com o recesso judiciário começando em 20 de dezembro, os prazos processuais ficam suspensos até 20 de janeiro. Este hiato preocupa as organizações, que veem a manutenção do abate nesse período como uma ameaça crítica à população remanescente de jumentos, que, segundo os cientistas, se aproxima de um "ponto de não retorno" genético.
O número de jumentos abatidos no interior da Bahia atingiu níveis alarmantes nos últimos anos, impulsionado pela crescente demanda de exportação para mercados asiáticos. Nessas regiões, o couro e outros derivados do animal são utilizados na fabricação de medicamentos tradicionais e cosméticos — muitas vezes produzidos em ambientes comparados a campos de concentração, conforme alertam diversos pesquisadores.
Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) revelam que, entre 2018 e 2024, cerca de 248 mil jumentos foram abatidos no país, representando uma redução de 94% da população da espécie em território nacional. A Bahia lidera o ranking tanto em número de abates quanto no risco à preservação da espécie.
Para o pesquisador Pierre Escobro, referência em estudos sobre impactos socioambientais no Nordeste, o cenário é crítico.“Se nada for feito, o jumento estará extinto do território brasileiro antes mesmo de 2030”, afirmou em entrevista ao Bahia Notícias, durante um evento de debate sobre o tema na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Escobro explica que o agravamento da situação na Bahia começou em 2018, com o crescimento do abate em larga escala. Naquele período, universidades como a Ufba, UFRB e a USP começaram a receber denúncias e mobilizaram estudos para investigar os impactos da atividade.
“As periferias do Nordeste tiveram um pico de abates em 2018. Fomos contatados por várias universidades e constatamos, ali no município de Canudos, que havia cerca de 700 jumentos — mas muitos morreram. Restaram apenas 120. Parecia um campo de concentração. Estávamos lidando com doenças infectocontagiosas tanto nos jumentos quanto em outros equinos. Também havia zoonoses, como o mormo, e doenças metabólicas. Foi nesse momento que compreendemos o verdadeiro impacto da exportação de peles e do extrativismo chinês nessa questão”, detalha.
Segundo Escobro, o interior baiano concentra os piores indicadores porque é tanto centro de abate quanto de transporte irregular de jumentos vindos de outros estados.
“A Bahia é o reflexo de uma coleta extrativista em toda a região Nordeste. Essa queda de 94% pode ser até maior. A demanda internacional por peles é o principal fator. A Bahia é o epicentro de uma rede clandestina que movimenta animais de outros estados. Existem criadouros que são, na verdade, 'pseudo-fazendas', funcionam apenas como pontos de acumulação. Os animais são capturados e transportados, muitas vezes durante a madrugada”, alerta o professor.
O ABATE SEM FISCALIZAÇÃO
Especialistas alertam que não existe uma cadeia produtiva formal e estruturada para o abate de jumentos na Bahia — o que agrava ainda mais o problema. O jurista e professor Yuri Lima explica ao Bahia Notícias como funciona o transporte.
“Como não há cadeia produtiva, também não há investimento em bem-estar animal. O que se observa é a captura de animais abandonados, a compra de jumentos de pequenos tutores e inúmeros casos de furto. Eles são transportados por longas distâncias, sem água, sem cuidados veterinários. Esse tem sido o modus operandi nos últimos anos”, detalha o pesquisador.
Vale ressaltar que, quando pesquisadores se referem ao abate, não estão usando uma figura de linguagem. Os jumentos são capturados em várias regiões do sertão e do cerrado baiano e nordestino e confinados em condições consideradas extremamente inadequadas por defensores dos direitos dos animais.
Nesses centros de confinamento — que Escobro classificou como "campos de concentração" — os animais frequentemente enfrentam escassez de alimento e água. Casos como esses foram documentados em municípios como Itapetinga (2018), Canudos (2019), Paulo Afonso e Itatim (2021).
“Aqueles jumentos apreendidos em Canudos, em 2019, em sua maioria morreram ainda na época do resgate. Havia casos de mormo naquele grupo — se não me engano, 11 casos confirmados. O mormo é uma doença infecciosa, zoonose (transmissível a humanos), incurável, grave, de difícil diagnóstico. Nossa estrutura de saúde única não está preparada para lidar com ela, e muitos profissionais sequer conhecem a doença. Por ser respiratória, é frequentemente confundida com outras síndromes e, por isso, é subnotificada”, alerta Yuri Lima.
O Bahia Notícias teve acesso a um dossiê enviado ao Ministério Público da Bahia (MP-BA), que contém imagens impactantes das condições desses locais. Veja a situação dos locais:

Registro de locais cheios e sem comida onde os animais esperavam o abate | Foto: Reprodução / Bahia Notícias
A legislação brasileira permite o abate de jumentos apenas sob certas condições: animais com mais de 90 kg e com limite de até 40% de fêmeas no total abatido. É proibido o abate de fêmeas no terço final da gestação. No entanto, essas normas são frequentemente desrespeitadas em propriedades da Bahia, conforme verificado em locais como Itapetinga e Canudos.
Cova cheia de jumentos mortos por doenças ao lado de filhote desnutrido em Paulo Afonso | Foto: Reprodução / Bahia Notícias
Além disso, há relatos de remanejamento estratégico dos criadores ilegais para dificultar fiscalizações. Como explica o professor Escobro. “Depois dos casos de Itapetinga, Canudos e outros, não houve mais registro de grandes aglomerações. Isso mostra que os criadouros ilegais redobraram os cuidados para evitar denúncias e flagrantes”, afirma Escobro.
E A BAHIA?
Apesar do cenário crítico, a Bahia ainda abriga iniciativas voltadas à criação e preservação dos asininos. Um exemplo é a valorização da raça Pêga, criada por criadores-modelo em diversas regiões do estado. Dados da Associação Brasileira dos Criadores de Jumento Pêga (ABCJPÊGA) confirmam a existência de criatórios em pelo menos 72 municípios baianos, com 291 criadores registrados, em cidades como Vitória da Conquista, Mucuri e Itororó.
Essas propriedades, de pequeno e médio porte, se destacam por seguir rigorosos estatutos de criação e bem-estar animal, segundo exigências do Ministério da Agricultura e Pecuária. “Seguimos um regulamento aprovado pelo MAPA, que determina prazos de comunicação de até 120 dias, sob pena de multa. Cada animal é avaliado tecnicamente antes de ser registrado”, explica Ivanilson Alves, da associação.
Além das ações da sociedade civil, universidades também têm atuado na preservação dos jumentos. A Universidade Federal da Bahia (Ufba), por meio da Escola de Zootecnia e Medicina Veterinária, desenvolve o projeto "A Rota do Jumento", em parceria com pequenos produtores. A proposta busca compreender os desafios enfrentados na manutenção de animais de carga e promover ações educativas junto a comunidades rurais.
Especialistas como Yuri Lima alertam que a ausência de fiscalização em todas as esferas — municipal, estadual e federal —, somada à expansão do mercado externo, continua colocando em risco a sobrevivência da espécie no Brasil.
“É preciso entender que ainda estamos engatinhando no conhecimento sobre os jumentos. Existe um manual específico para cavalos, mas nada voltado aos jumentos. O conhecimento científico é escasso, embora esteja crescendo. O governo federal é omisso. Não há regulação efetiva, nem combate às práticas cruéis e ilegais. O mesmo vale para o governo estadual e muitas prefeituras", relata o jurista.
Em contato com o Bahia Notícias, a Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) esclareceu que, na Bahia, existem apenas três abatedouros habilitados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para abater equídeos e exportar, sendo fiscalizados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Destes, somente a unidade localizada em Amargosa abate jumentos no estado.
A agência retomou o contato para reforçar que a Adab "garante o regramento disciplinar para o trânsito de asininos. A Bahia, inclusive, é o único estado da federação a possuir essa regulamentação, visando assegurar a sanidade e o bem-estar dos animais". Essa declaração vem logo após o alerta emitido pelos pesquisadores.
O Bahia Notícias também procurou o Ministério da Agricultura e Pecuária para comentar as fiscalizações sobre o abate de jumentos, mas até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. (Texto atualizado às 14h35 com informações revisadas).
Uma cena tem chamado atenção nas redes sociais. A imagem mostra quatro jegues se espojando em uma espécie de brincadeira em uma praia da cidade de Jandaíra, na divisa da Bahia com Sergipe.
? Vídeo mostra momento descontração de jegues em praia da Bahia pic.twitter.com/zo2Nj6TZVC
— Bahia Notícias (@BahiaNoticias) May 19, 2025
Segundo o Canal Rural, o fato teria ocorrido no início do mês. Depois da brincadeira, os animais saem em grupo diante do observador que usa um celular para captar o fato.
A situação dos jumentos no país é motivo de preocupação de entidades, como a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, que pede o fim do abate da espécie, que já foi proibido em 2018, mas voltou a ser permitido em 2019 pela Justiça. Na Bahia, mais especificamente em Amargosa, funciona um abatedouro desde 2017.
O estabelecimento é o único no país habilitado para exportar para a China, principal destino da pele do animal, usado para a fabricação do ejiao, um ingrediente da medicina tradicional chinesa que ajuda a melhorar a vitalidade e que tem também propriedades cosméticas.
Em 2022, o deputado estadual José de Arimateia (Republicanos) apresentou um projeto de lei contra o abate de jumentos na Bahia. No entanto, um parecer do colega Paulo Câmara (PSDB) foi contra a iniciativa, que segue parada.
O forrozeiro Adelmario Coelho lançou como forma de protesto, nesta segunda-feira (18), a música "Burro é Quem Mata Jumento", feita em parceria com o compositor Junior Vieira.
Os maus tratos que estão acontecendo contra jumentos no nordeste do Brasil, como o caso que foi denunciado em Euclides da Cunha, com cerca de 800 animais sob condições degradantes (veja aqui), tem indignado o cantor Adelmario, que nasceu e foi criado em uma região que conviveu com o animal de serventia à população.
"Um episódio triste e cruel – para não dizer ingrato – mexeu comigo, principalmente por ser um nordestino. A matança dos jumentos, principalmente na Bahia, nos causou revolta e muita tristeza", pontuou o forrozeiro.
A música, que tem em sua letra "Senhor, só vim te pedir: me livrai da extinção! Sou apenas um jumento, que sirvo a qualquer cristão, e de cristo eu sei que sou animal de estimação", tem ajudado a fomentar a discussão sobre o abate dos jumentos e jegues no país.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Kiki Bispo
"A gente pede que a oposição tenha responsabilidade com os fatos, até porque me causa estranheza a questão da competência. A Câmara não tem competência para acompanhar um fato desse episódio".
Disse o vereador e líder da oposição na Câmara Municipal de Salvador (CMS), Kiki Bispo (União), disse não ter “clima” para a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) na Câmara Municipal de Salvador (CMS) após ações do Ministério Público contra o vereador George Gordinho da Favela (PP).