‘Sociedade decide se vai ter ou não transplante’ diz coordenador de procedimento na Bahia
Por Francis Juliano
Foto: Rafael Rodrigues
Coordenador do sistema estadual de transplantes, o médico Eraldo Moura falou ao Bahia Notícias sobre a recente pesquisa da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) que colocou a Bahia na acanhada 18ª posição no Brasil. Para Moura, o resultado não representa inferioridade em relação ao resto do país e deve ser relacionado a outras variáveis como número de doadores, área e infraestrutura. “O único estado em que a gente pode comparar com a Bahia é Minas Gerais que é grande e tem uma quantidade de municípios semelhante. E se eu falo em transplante de medula, apenas sete estados realizam”, afirmou. Segundo o também cirurgião, a cultura do transplante ainda é recente (a partir dos anos 80 começou a ser considerado como eficaz) e explica porque o estado demorou a subir os degraus na escala brasileira. Segundo ele, só a partir de 2006, com 17 doadores, os números começaram a virar ao atingir 77 doações em 2012. Hoje, a média baiana é de 8 doadores por milhão de habitantes. Distante ainda de Santa Catarina, com 25/milhão (melhor percentual brasileiro) e do Ceará, com 20/milhão. Na entrevista, o médico ainda falou sobre a interiorização do procedimento, refutou o comércio de órgãos “um tabu criado” e estendeu a responsabilidade sobre o futuro dos transplantes no estado. “A sociedade tem a decisão fundamental se vai ter ou não o transplante”, declarou. Confira a conversa abaixo.
Bahia Notícias: A pesquisa da ABTO apontou a Bahia na 18ª posição no ranking brasileiro de transplantes realizados. Qual a explicação para isso?
Eraldo Moura: Isso é extremamente relativo porque os dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) são compilações que nós enviamos. Nós enviamos tanto para o Ministério da Saúde como para ABTO. Das atividades que a gente tem na saúde, o transplante é a mais complexa. Porque você não depende só de uma decisão política para resolver o problema. Você depende de um entendimento da sociedade, você depende de capacitação de equipe, você depende de uma estrutura hospitalar adequada. A Bahia é muito grande. Essa posição de 18° lugar tem que considerar alguns pontos. Se eu falo em transplante de medula, apenas sete estados o realizam. Fígado, hoje deve ter 15 ou 16 estados que fazem este transplante. O único estado em que a gente pode comparar com a Bahia é Minas Gerais que é grande e tem uma quantidade de municípios semelhante à Bahia.
BN: O que dificulta o entendimento da sociedade sobre a importância de doar órgãos?
EM: Conhecimento. O fator principal que muda a cultura e a decisão da família em ser ou não doadora é o conhecimento. Além disso, educação. As pessoas não têm noção de que elas podem precisar. E só no momento em que você precisa é que a ficha cai. E a população da área de saúde também tem sua parcela no problema. As faculdades daqui do estado ao longo do tempo não se envolveram com programas de transplante. Os médicos formados há oito, dez anos, não tinham noção nenhuma do diagnóstico de morte encefálica, da importância da doação e isso faz com que a sociedade seja prejudicada de duas maneiras. Primeiro, os profissionais da saúde não conhecem programas de transplantes, não sabem as doenças que podem ser tratadas com transplantes e por isso não encaminham os doentes para entrar na fila. Segundo, eles também não realizam o diagnóstico de morte encefálica para aqueles doentes que estão nos hospitais.
BN: Quantos tipos de transplantes a Bahia oferece?
EM: Hoje, a gente realiza transplante de fígado, de rim, de medula óssea, de osso e também de córnea. São esses cinco. Estão em fase de implantação, transplantes de coração (adulto e pediátrico), pulmão, pâncreas.
BN: E sobre o comércio de órgãos. Muita gente ainda teme que o órgão doado não chegue a quem realmente precisa.
EM: Isso é um tabu que foi criado. Não existe comércio de órgãos no Brasil. A Legislação dos transplantes é a atividade médica que tem o maior número de leis, decretos e portarias do país. É a mais regulamentada do Brasil. Tudo o que eu faço em transplante é regulamentado. A partir de 1997, com a Lei 9.434, se normatizou e se regulamentou tudo sobre transplantes. Por exemplo, para uma pessoa entrar na fila de transplantes necessariamente ela tem que passar por uma equipe credenciada pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Saúde de cada estado, e esse credenciamento é válido por dois anos. E a gente credencia equipe e estabelecimento. Então, quando for credenciar uma equipe para transplante de fígado, eu avalio o hospital para ver se ele tem condições, a equipe se tem capacidade técnica, se tem alguma infração ética, se ela está completa, se o hospital tem toda a estrutura para assistência aos pacientes. Quando estiver tudo certo, aí a gente libera esse credenciamento via Ministério da Saúde, com permissão para atuar durante dois anos. Mas a equipe pode ser suspensa ou desligada a qualquer momento se ela cometer alguma infração.
BN: Na Bahia, quantas cidades já realizam transplantes?
EM: Hoje, a gente realiza transplante renal em Itabuna e está em fase de implantação em Vitória da Conquista, Juazeiro e Feira de Santana. Hoje, Itabuna é uma das cidades onde mais se realiza transplantes no interior do Brasil. Até agora já realizou 35 transplantes. Lá se realiza mais transplantes do que os serviços de Salvador. Quando o assunto é transplante de córnea, o raio é bem maior: Feira de Santana, Jequié, Vitória da Conquista, Itabuna, Teixeira de Freitas e Salvador. A gente está também em fase de estruturação do transplante de pâncreas em Itabuna. Aqui em Salvador, a gente realiza transplante de fígado em dois hospitais: no São Rafael e no Português. Os de rim, no Espanhol, Ana Néri (transplante renal adulto e pediátrico) e no São Rafael. A gente está em fase de implantação do transplante cardíaco (adulto e pediátrico) e pulmonar no Ana Néri. No Hospital das Clínicas, a gente realiza transplantes de medula óssea e de córnea, além de estar em fase de implantação o programa de transplante hepático. Com a implantação desses projetos, a Bahia vai poder fazer todos os transplantes possíveis no mundo.
BN: Em termos de logística, já que muitos transplantes precisam de deslocamentos rápicos e seguros, nós já contamos com uma estrutura razoável?
EM: A gente tem um sistema que pode ter doação de órgão em qualquer município do estado da Bahia. Temos convênios com todas as empresas de ônibus e com empresas aéreas também. E se eu aciono a Casa Militar, daqui a uma hora eu já tenho aeronave, e não só para buscar órgão como para transporte de UTI móvel. E quanto aos transplantes em que a gente não faz na Bahia, por exemplo, transplante de pulmão, o paciente vai para outro estado em UTI com tudo o que é necessário. Outro dia levamos um garoto do Conde para o Rio Grande do Sul para fazer transplante de pulmão através de UTI móvel.
