Bombeiros da Bahia adotam doutrina de escuta e dissuasão em ocorrências de risco de suicídio
Por Victor Hernandes
Uma metodologia do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBM-BA) prevê a integração de equipes durante atendimentos emergenciais envolvendo pessoas em situação de crise suicida. A estratégia faz parte da implementação e difusão da doutrina de Abordagem Técnica à Tentativa de Suicídio (ATTS), metodologia voltada para o atendimento humanizado e a mediação de situações extremas de crise.
A iniciativa ganhou destaque ao longo do ano e teve atenção especial durante as ações do Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, que termina nesta quarta-feira (30). Em entrevista ao Bahia Notícias, o tenente-coronel Ramon Dieggo explicou que os estudos que fundamentam a ATTS tiveram início em 2005 e culminaram na estruturação do primeiro curso formal, em 2015, pela Escola Superior de Bombeiros de São Paulo.
A partir desse período, diferentes Corpos de Bombeiros do país passaram a adotar modelos de atendimento baseados na escuta qualificada e na dissuasão. Na Bahia, a doutrina começou a ser incorporada entre 2015 e 2016 e foi consolidada a partir de 2018, quando instrutores locais passaram por capacitação especializada para disseminar o conhecimento dentro da corporação.
Atualmente, o treinamento integra disciplinas das escolas de formação de praças e oficiais, além de passar por atualizações com base em pesquisas acadêmicas e dissertações de mestrado voltadas à elaboração de Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs).
“Hoje nós temos o curso de Abordagem Técnica à Tentativa de Suicídio. Já estamos na segunda edição este ano e já está se iniciando aqui outra turma. Já realizamos três edições no nosso estado, essa é a segunda este ano”, apontou.
Segundo o tenente-coronel, a metodologia estabelece parâmetros específicos para a atuação em cenários de emergência e também utiliza uma nomenclatura própria. A pessoa em situação de crise deixa de ser tratada tecnicamente como “vítima” ou “paciente” e passa a ser denominada “tentante”.
“Estamos difundindo a doutrina da abordagem técnica à tentativa de suicídio. Então, hoje a gente lida também com a parte de como se preparar, de como atender, sabendo a importância de ter eventos como esse também durante o Setembro Amarelo, que é marcado pela prevenção. Passamos todo o mês de setembro fazendo e realizando pesquisa, eventos e pontuando a importância da capacitação, da prevenção e do entendimento sobre o fenômeno da crise suicida, sobre a suicidologia e, no nosso caso, o treinamento da abordagem técnica à tentativa de suicídio”, afirmou.
A atuação é baseada no manejo de dissuasão, com ferramentas de diálogo e escuta estruturada para tentar interromper a ação suicida durante o momento de crise. Toda a operação é orientada pelo princípio da Tríplice Segurança, que busca preservar a integridade do cenário, da equipe de resgate e da própria pessoa em situação de risco.
“Toda essa abordagem é feita de forma humanizada, onde nós escutamos os tentantes. Nós ouvimos essa pessoa no seu momento de crise através da abordagem de dissuasão, onde nós temos técnicas e procedimentos para demover o tentante, se aquela pessoa tiver a ideação suicida no momento de crise, no seu pior momento. Geralmente, ele escolhe um cenário de risco, um cenário alto, onde ele pode permitir o comportamento de autoextermínio. Então, dentro daquele contexto, a gente varre o cenário, atua com segurança e evita que ele consuma o ato”, revelou.
O tenente-coronel destacou ainda que a doutrina é aplicada durante a formação de praças e oficiais e também nos treinamentos de capacitação operacional realizados pela corporação.
“Geralmente adotamos procedimentos que visam à segurança do cenário, à segurança da equipe e à segurança do tentante. Nesse cenário, a partir da doutrina que foi desenvolvida em 2015 até os dias de hoje, nós aplicamos nos nossos treinamentos nas escolas do Corpo de Bombeiros. Ou seja, nós temos as escolas de formação — no caso do Bombeiro, nas unidades que fazem o treinamento e a capacitação operacional — e, na escola de formação, quando nós temos os cursos de formação, tanto de praças como de oficiais, essa doutrina é aplicada durante o processo de formação dos alunos. E, quando eles vão trabalhar nas respectivas unidades, já formados, eles já têm o conhecimento da doutrina”, completou.
INTEGRAÇÃO
Em meio a questionamentos sobre a presença e o papel de profissionais de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras, durante ocorrências dessa natureza, o tenente-coronel explicou que a atuação direta no perímetro de risco imediato é de responsabilidade dos bombeiros militares, devido às características operacionais das ocorrências.
“Dentro desse trabalho, a gente procurou desenvolver um trabalho que visa à integração no cenário de emergência. Em cenários de emergência, em virtude até da questão do risco e da nossa missão institucional do Corpo de Bombeiros, quem atua é o Corpo de Bombeiros. Porque nem sempre um profissional de uma determinada instituição ou um agente de segurança, um operador de segurança, de emergência, um médico ou psiquiatra vai conseguir ter acesso ao local de risco e ter acesso a essa vítima, que, no caso, é explicada como tentante”, afirmou.
Ele explicou que situações envolvendo crise de saúde mental podem ocorrer em locais de difícil acesso e alta periculosidade, como pontes, viadutos, torres de telecomunicação ou de eletricidade e fachadas de edifícios. Nesses cenários, a aproximação exige equipamentos de proteção específicos, treinamento para salvamento em altura e domínio de protocolos de segurança.
Segundo Ramon Dieggo, a presença de profissionais sem capacitação para atuar nesses ambientes, assim como uma abordagem inadequada, pode aumentar os riscos da ocorrência.
“Como é que uma pessoa que nunca teve um adestramento, um treinamento, uma capacitação vai subir numa torre de eletricidade, por exemplo? Torres de telecomunicações, pontes, viadutos, fachada de prédio. Às vezes, os tentantes podem acessar locais utilizando métodos que tenham uma letalidade não só para ele, mas para outra pessoa. Então, essa pessoa, mesmo que queira ajudar, se não tiver uma noção de segurança e souber os procedimentos que devem ser feitos, até na simples linguagem de abordagem, nas simples palavras, compromete toda a segurança”, observou.
Embora a rede de saúde mental e os serviços de emergência atuem de forma integrada no encaminhamento e no acolhimento após a crise, a intervenção direta no ponto crítico de risco permanece sob responsabilidade dos bombeiros militares capacitados na doutrina ATTS.
“O nosso manejo dentro dessa metodologia visa à escuta desse tentante através da ferramenta de diálogo. Ou seja, como é que a gente engloba tudo isso? Nós trabalhamos com a abordagem humanizada, que é a abordagem de dissuasão. Escutamos a vítima com uma técnica apropriada, tendo aquele levantamento inicial, escutamos o que está acontecendo, entre outras questões”, finalizou.
