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Entenda que cuidados pessoas trans e travestis devem ter no processo de hormonização

Por Rebeca Menezes / Alexandre Brochado

Entenda que cuidados pessoas trans e travestis devem ter no processo de hormonização
Foto: Claudia Cardozo / Bahia Notícias

Janeiro é o mês da Visibilidade Trans, instituído para promover a conscientização sobre as pessoas travestis, transexuais e transgêneras. Mas em qualquer momento do ano, falar sobre o processo de hormonização se tornou cada vez mais importante. Afinal, quais os cuidados devem ser tomados durante esse processo para não trazer riscos à saúde?

 

A hormonioterapia é um dos recursos utilizados durante a transição de gênero. Segundo a endocrinologista Renata Lago, o foco dos médicos durante o acompanhamento de pacientes precisa ser a segurança, mantendo as condições de saúde durante a fase, também conhecida como hormonização cruzada. E para cada pessoas esse processo vai acontecer de uma maneira diferente.

 

“Sobre esse processo, existem variações individuais e também envolvendo o desejo de cada pessoa sobre a aparência do seu corpo. Às vezes a gente recebe um rapaz trans, ou uma menina trans, que quer passar por leves mudanças, mas sem nenhuma cirurgia. Porém, existem casos de pessoas que já chegam ao consultório ansiosas: ‘eu preciso fazer isso agora’. Nesses casos, eu explico que é necessário ter calma porque é algo que precisa se acostumar. Não é só o que se idealiza, mas também envolve o processo de aceitação das mudanças que vão acontecer”, explica a especialista.

 

Renata ressalta que esse é um trabalho cauteloso, para o qual são necessários também os acompanhamentos de outros profissionais, como neurologista, psiquiatra, cirurgião plástico, podendo haver os cuidados de fonoaudiólogo e nutricionista. 

 

Como endocrinologista que atua no processo de hormonização de  travestis, transexuais e transgêneras, a médica analisa que cada vez mais pessoas jovens, que são acolhidas pelas famílias, têm procurado o seu consultório com foco na segurança. “No discurso dos responsáveis e familiares, a gente vem percebendo um crescimento desse acolhimento aliado à preocupação com a saúde”. 

 

Além das clínicas privadas, Renata informa que o processo de transição também é encontrado no Sistema Único de Saúde (SUS). Na Bahia, tem o Centro Estadual de Diagnóstico, Assistência e Pesquisa (Cedap) e o Hospital Universitário Professor Edgard Santos, mas a médica ressalta que esses só estão habilitados junto ao Ministério da Saúde para tratamento clínico.

 

Em relação às complicações da medicação sem acompanhamento, a endocrinologista chama a atenção sobre os riscos cardiovasculares. “Às vezes, por causa da pressa de realizar a transição, algumas pessoas exageram na dose, e uma das recomendações é que a reposição hormonal seja feita da forma mais cautelosa, que a gente dê os hormônios nas mesmas doses que dariamos, por exemplo, àquela pessoa que nasceu sem o hormônio. A quantidade elevada pode oferecer riscos de doenças cardiovasculares, problemas relacionados à saúde óssea e resultar em neoplasias [um tumor que surge devido ao aumento anormal do número de células], já que existem neoplasias que são dependentes de hormônios”, afirma a endocrinologista. 

 

A especialista alerta também, do ponto de vista cirúrgico, sobre os perigos do silicone industrial. "Antigamente nós tínhamos muitos problemas relacionados ao silicone industrial, que representa bastante risco à saúde, pois são colocados por pessoas não habilitadas, gerando complicações, além da deformação do corpo.”

 

Para a profissional, é importante falar sobre os riscos e a necessidade do acompanhamento. “Além do Cedap e o Hospital Universitário, existem também algumas unidades primárias de saúde das quais os médicos e alguns profissionais foram habilitados, então essas são mais algumas opções para as pessoas que possuem dificuldade de acesso”.

 

Como principal dica, Renata pede para que as pessoas não realizem a hormonização sozinhas porque a saúde precisa ser monitorada para que não haja complicação. “Nós médicos temos como papel minimizar os riscos e o aconselhamento do paciente, além de avaliar se a pessoa está habilitada para receber ou não esse procedimento”, conclui.